Amazônia

Paula Farsoun

Com a palavra...

Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Hoje não conseguirei falar de amor. Por mais que o repertório do otimismo seja farto, hoje não vai dar. Porque a Amazônia chora. E junto com ela, choro eu, choram os índios, choram os animais, chora a vegetação, as florestas, choram as pessoas, o meio ambiente e o mundo todo.

Se a Amazônia fosse alguém que pudesse ouvir, gritaria de bem perto, de todo coração, que eu compreendo a sua dor, que eu percebo suas perdas, que eu temo pelas mesmas ameaças e que eu sinto, muito. Uniria-me àqueles que tentam salvá-la a todo custo, transformaria-me em água para que parasse de queimar, em escudo para que não fosse mais violada.

Tornaria-me lei para proibir que qualquer mal intencionado chegasse perto dela. Se a Amazônia pudesse interagir pelos sentidos, eu me sentaria com ela, esforçaria-me para limpar suas feridas, cuidaria de suas cicatrizes e faria todas as juras de amor eterno. Daria a ela as mãos e prometeria, olhando no fundo dos seus olhos, batalhar em sua defesa. Ofereceria meu colo para que chorasse por cada ofensa, por cada violência sofrida, por cada perda dos seus.

Se a Amazônia pudesse ouvir, aconselharia que abstraísse tantas frases sobrepostas, tantas medidas desmedidas, tanta falta de respeito com sua essência e sua missão, tantas atrocidades ditas por aí sobre o tamanho de sua existência e a importância de sua sanidade e preservação. Incentivaria que resistisse bravamente. Manifestaria minha empatia e ressaltaria seu valor. Eu a consolaria pelos filhos perdidos, pelas árvores derrubadas, pelos animais mortos, pelo ar inebriado e tóxico de fumaça.

Se eu pudesse aconselhar a Amazônia, eu diria para nunca se vender, para reconhecer seu valor, não sem antes registrar que há muita gente que só vê grana, gente egoísta e materialista e por vezes ignorantes que não reconhecem a força que ela tem. E lamentaria profundamente por toda a desgraça que poderia ser evitada.

Ah... falaria de amor também. Amor por tudo aquilo que transcende, pelo que mantém nosso ar respirável, pelo que sustenta a vida. Conversaríamos sobre pertencimento, afinal, habitamos o mesmo planeta, compomos o mesmo meio ambiente e, se um mínimo de inteligência pudesse ser notada, seria para demonstrar que a saúde dela é a minha saúde e que a sua salvação seria a salvação de todos os seres.

Demonstraria a ela que todas as horas do tempo, todo sentimento do mundo, não seriam suficientes para demonstrar o quanto reconheço sua importância e dizer que sinto. Muito.

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Paula Farsoun

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Paula é uma jovem friburguense, advogada, escritora e apaixonada desde sempre pela arte de escrever e o mundo dos livros. Ama família, flores e café e tem um olhar otimista voltado para o ser humano e suas relações, prerrogativas e experiências.

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