Se desfaz

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sábado, 05 de outubro de 2019

Uma fênix. Um cavalo. Um cavalo montado. Um pônei. Não, um cavalo alado. Um dragão. Solta fogo. Uma serpente. Um dinossauro. Dinossauro? Onde? À esquerda. Ah! Há que se ver mais amplamente. Sim! Um dinossauro. Um Brontossauro? Tiranossauro, não? Um velociraptor. Bem maior. Esse é grande! Um velociraptor grande! Lá é um Arqueopterix. Ou será um Cearadáctilo? É um Pteranodonte. É um pássaro mesmo. Se desfaz.

Um canguru. Carrega o filho na bolsa. Um tubarão. Acabou de comer um peixe. Um submarino. Passando perto do tubarão. Mais acima tem um navio. Um barco! Se olhar ao contrário é um trem-bala. Fora dos trilhos. Não, um trem-bala caindo no mar. Se desfaz.

Uma garrafa. De cerveja. De espumante. Estourou. Tá na taça. Não, na taça é vinho. Mas o recipiente é de cristal. Como sabe? Não sei, mas suspeito que seja. Brindam. Tem um prato. Um prato na mesa. Uma mesa com um homem e uma mulher. O que vão comer? Arroz e estrogonofe. Com batata palha. Acabaram. Vem a sobremesa. Se desfaz.

Um celeiro. Outro cavalo. É o mesmo que havia se desfeito. Mas esse vem com carroça. E um chicote. E um velho o chicoteando. O velho tem chapéu. O sol queima. O chapéu protege. Coloca os óculos escuros para ver melhor. É mesmo um velho de chapéu. Se desfaz.

Uma maçã. Pode ser também uma pêra pequena. Uma cereja grande. Um coração. Está apaixonado? Não pulsa. Não, você está apaixonado? Talvez, quem sabe? Olha lá! Um abacaxi. Não é um rei com uma coroa. Cadê o cetro? Esse rei não tem cetro. Se desfaz.

Zeus. Jesus Cristo. Maomé. Moisés? Papai Noel. Meu pai. Um pai qualquer. Um bebê. Uma mulher. Maria. Qualquer Maria. É a mãe dele. Joana? Uma mãe fazendo cócegas no filho. Joana não é mãe. Mas essa Joana é! Se desfaz.

Naquele canto lá! Onde? Lá onde tem uma nota musical. Nota musical? Ah! Sim, achei! Dó ou mi? Ré, sei lá! O mapa do Brasil. Não, da África. De lá é que sai a música. O Brasil saiu de lá. O mapa-múndi. Como? A Austrália lá embaixo. Mas tá muito perto da Europa! Ah! É um mapa que suprime a Ásia. Tá certo, então lá é o lugar que vivo! Em proporções ampliadas é claro! Se desfaz.

Uma casa. Um castelo. O castelo daquele rei que eu achei que era um abacaxi. É o dono daquelas terras daquele mapa que se desfez. Onde aquele lugarzinho que estava desenhado mais à direita? Centro direita. Compreendo. Sou de centro esquerda. Se desfaz. 

Rápido demais. É preciso estar atento, se não as cenas se desfazem mesmo e a imaginação não acompanha.

Um golfinho. Uma ovelha. Uma vaca. Uma fazenda inusitada. Tem pato, porco, cachorro, urso e até girafa. Tem gente? Bicho homem. Homem bicho. Se desfaz.

Um pé. Uma mão. Uma grávida. O bicho homem de novo. Não, é o mesmo bicho homem de todo lugar. Que desfaz? Se desfaz. Se faz?

Uma régua. É a linha do tempo traçada por um arranha-céu. Logo se apaga. Se desfaz... Como as nuvens no céu.

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