Por nostalgias futuras

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sábado, 02 de novembro de 2019

Às vezes, me faz bem, outras me faz mal. Às vezes, me faz procurar o que perdi, outras me mostra que não há mais como encontrar a não ser nas memórias de tempos bons que não voltam mais.

E ainda que repita tudo da mesma forma, com as mesmas pessoas, a saudade arrebatará meu coração para me comprovar que nada do que foi será... Exatamente como diz a música. É. “A vida vem em ondas como um mar, num indo e vindo infinito”. Cada instante se constrói de uma maneira e o mundo tem sua própria forma de diferenciar e nos fazer distinguir cada tempo.

Nada se repete, ainda que exista o ingênuo sonho de reconstruir. Fazer tudo da mesma forma... Mas, não. O corpo é outro. A alma evolui. As outras pessoas também envelhecem e suas almas amadurecem. Os encontros se reestabelecem. Os pensamentos têm marcas que nos guiam a seguir em frente para não se perder nem esquecer.   

Só pode ter nostalgia quem escreveu boas histórias, mas não se pode flutuar apenas na nostalgia, sob o risco de não construir nostalgias futuras. Assim, as lembranças são como tinta fresca, mas o cheiro passa porque de fato acabou ou porque nosso olfato se acostumou com o cheiro. É nessas horas que faz bem se afastar para poder sentir de novo o cheiro da brincadeira, da meninice, do risco de ser adolescente, da insanidade de crescer... Cheiro de tempos bons.   

A aventura não termina nunca e é bom ter a nostalgia como companheira. Não podemos parar, há que se ter esperança em reencontrar no novo o que nos fez feliz ontem. Porque esse ontem é esperança fantasiada ávida por se deparar com novas formas de alcançar a felicidade.

O velho passado pode e deve estar presente quando convidado. Há que recordá-lo com sabor e sabedoria. Há que derramá-lo em boas rodas de conversas, vivendo intensamente essa saudade que é prova de que houve intensidade... E o contrário também. Porque houve e há amor pelo simples resgate de memórias que não nos fogem por serem pilares bem fincados em nossas histórias. .

Ah! Nostalgia! Nostalgia que enche os olhos de boas lágrimas por momentos idos. São os momentos que se destacam na nossa linha do tempo e não é à toa. Os momentos criam as canções que assoviamos. E as lembranças dos momentos, distantes ou frescos, é que criam os versos, as artes, os monumentos que não são necessariamente coisas físicas e materiais. 

Momentos que nos permitem avançar para tê-los de novo, de maneiras diferentes ou parecidas, nunca iguais. São os momentos que até nos fazem parar para recobrar o que fomos e o que queríamos e queremos ou não ainda... Pequenos ou grandes, nos fazem redescobrir nossas loucuras e razões.

A vida tem uma dança muito própria, cujo repertório se faz naquilo que foi, no que é e no que será. Com todos os passos confabulando e se completando, sempre e para sempre, para antes do passado, além do presente, do futuro e da própria nostalgia seja ela já feita, sendo ou por ainda ser sem saber se será.      

 


 

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