Fragmentos de tempo

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sábado, 23 de novembro de 2019

As pessoas têm a estranha mania de achar que podem mudar tudo ao final de um ano. Ano novo... Vida nova... Novos tempos. Por que se fazer tal mudança somente após um ano?

Um ano é o conjunto absurdo de doze meses. Cada mês é uma oportunidade, tanto quanto é o semestre, trimestre, qualquer conjunto de meses agrupados ou mesmo semanas, dias, horas... Imagina se tivéssemos a mania de, ao invés de celebrar feliz ano novo a cada doze meses, celebrássemos apenas feliz década após 10 anos? Não se trata de contagem do tempo. Mas de esperança.

Esse sentimento de se prometer e fazer promessas. Muitos desejos não se consumaram e nem tudo que se quer se realizou ou se realiza. Ao olhar pra trás, perguntas nos consomem. O que houve? Por que? O que fiz ou deixei de fazer? Não é difícil dizer, ainda que nem sempre seja fácil aceitar: não temos controle de tudo!

Viver um dia de cada vez. A gente não consegue, ainda que tente. Traz o passado pro presente e o futuro por ambos. Somos fãs da confusão. Somos combustão.

Tenho sorte de estar aqui e agora. O que está na vitrine do passado nos trouxe até aqui. E é nesse agora que experimentamos a ação que visa o futuro. Mas é preciso sentir prazer e perceber que talvez tenhamos pouco tempo ou nenhum tempo para além desse instante. Ficamos assim entre o ontem e a pretensão do amanhã graças a esse agora. O que seria mais sagrado?

Olhar o outro. Dar o melhor de si. Produzir raridade. Olhar o outro pra se identificar consigo mesmo e alcançar a humildade da necessidade da existência dos demais. Dar o melhor de si com altruísmo, mas também para se descobrir e se presentear com o melhor que dá também para si mesmo. 

Produzir raridade. Num mundo de tantas invenções parece tão difícil produzir raridade. Mas é raro o desenho que se faz no espelho, no vapor da água quente. Raridade num mundo tão cheio que consegue conceder a você o título de ser raro.    

O tempo... Tão concretamente dividido em antes, agora e depois. Compreendemos, mas há de se admitir: engraçada essa coisa do tempo. A gente acha que tem pouco tempo, mas já tem muito tempo. A gente acha que ainda falta tanto tempo, mas há tão pouco tempo cá estamos. O tempo está passando tão depressa que parece que tem pouco tempo, ao mesmo tempo tem tão pouco tempo que parece que há muito tempo que a gente já tem tanto tempo. Na gincana dos trocadilhos, fragmentos... 

As pessoas têm a estranha mania de agrupar a vida na lógica de um ano. E não me incluo fora das pessoas. Até porque, até onde eu saiba, não nasci em Marte, Júpiter ou Plutão. Tampouco no planeta recém descoberto ou naquele a um milhão de anos luz. 

Sou como você. Tenho a estranha mania de agrupar a vida no tempo que tenho em anos, meses, semanas, dias ou horas. Ontem, hoje e amanhã. O fato é que um minuto muda tudo e a gente pode mudar o ano em um segundo. O que ficou é passado, o que tenho é presente e o que virá, se virá, será futuro ou fragmentos de tempo.

 

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