Destino: saudades

Wanderson Nogueira

Palavreando

Aos sábados, no Caderno Z, o jornalista Wanderson Nogueira explora a sua verve literária na coluna "Palavreando", onde fala de sentimentos e analisa o espírito e o comportamento humano.

sábado, 17 de agosto de 2019

Vivo num tempo de saudades. Saudade de minha mãe, do meu pai, dos amigos mestres, dos amigos irmãos. Tenho saudade de quando era criança, mesmo que tenha sido difícil a minha infância. Talvez seja saudade daquela pureza de quem não sabia propriamente definir mazela. 

Tenho saudade daqueles momentos típicos que entram na biografia. E não imagine que é saudade de grandes vitórias ou acontecimentos. Esses também entram, mas não são necessariamente dos que sinto mais saudade. 

Tenho saudade de paixões e de cada vez que me peguei apaixonado. Desde a primeira à última. Saudade de amores que não estão mais ao meu lado, mas que continuam sendo amor. Saudade de minha irmã que está do outro lado do oceano. Ah! Saudade de amigos que estão longe mesmo morando perto.

Saudade doída por saber que não mais verei alguns rostos ou ouvirei suas vozes ou terei o aperto de seus abraços. Você também deve sentir. Admita: ninguém está imune a sobreviver há um tanto de gente que se ama. É o ciclo da vida que gira e nos determina um destino de saudade.

Saudade da escola, das férias escolares e do retorno às aulas. Dessas fases da vida que a ansiedade pede para que passem rápidas, mas que depois nos dão a vontade de ter o poder de reviver cada uma delas. Saudade de ser criança, adolescente, jovem sem grandes responsabilidades, protegido dessas caduquices que o mundo nos enfrenta. 

Saudade do passeio no parque ou da brincadeira de pique com os primos. Saudade de catar morangos selvagens no mato ou ameixas no quintal do vizinho, da guerra de mamonas. De deitar na calçada da rua e observar o sol se pôr ou de ficar na laje de casa contando estrelas com a prudência de não as apontar para evitar verrugas. Saudade dessas crendices contadas por vó. 

Tenho saudade, especialmente, das cocadas feitas por meu pai ou do cheiro de biscoito amanteigado do primeiro amor. A saudade desses feitos cotidianos escapa da banalidade, mais até do que os instantes de formatura, emprego novo ou troféus recebidos.

Como eram bons aqueles amassos adolescentes de faculdade. Melhor ainda o beijo daquela boca que seria a única que teria disposição para casar. Saudade daquela cumplicidade. Daquele sorriso nocauteando o drama. Tenho saudade de todos esses amores e paixões que me moveram e me concederam brilho aos olhos. 

Saudade e amor estão associados diretamente a quem a gente junta e a vida une por razões variadas. Agradeço aos amigos que seguem comigo fabricando as tais saudades futuras que tanto insisto em meus textos e preces. Aos que por motivos diversos não estão mais junto ou perto - agradeço a oportunidade de ter dividido tempo e espaço. Quem sabe um dia não voltamos a fabricar saudades como essas?

Saudade é esse suspiro fundo que o corpo sente, mas é a alma que alimenta. É esse passado sendo presente e que pede ao presente que produza mais saudade para o futuro. Sabemos, mas recusamos que o tempo separe aquilo que o mesmo tempo une. Posso dizer apenas, saudade... Esse sentimento tão indissociável do movimento vida.

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