O ego é o hospedeiro que mata quem o hospeda

Wanderson Nogueira

Wanderson Nogueira

Observatório

Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e agora é deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna diária.

sábado, 21 de abril de 2018

Por ser imperfeita que a vida é perfeita. Ao olhar para trás, vai perceber que dificilmente todos os setores da vida estiveram em dado momento perfeitos. Pode até estar bem, mas necessariamente nem tudo estará perfeito. Quando o amor está ótimo, na família algo pode estar destoante ou entre os amigos uma pendência ou no trabalho um desajuste. Mesmo que tudo esteja equilibrado, ainda sim temos ânsia por mais, sempre se quer mais. É exatamente isso que torna a vida fascinante e não um fardo. Por ser imperfeita que perfeita é. Viver nos ensina isso e refletir sobre o que vivemos nos prepara, nos evolui.

Aprendemos na entrega e ensinamos aos desafios que eles são parceiros na jornada e não empecilhos. Ao observar bem, esquece que os minutos correm e se abandona a aflição advinda da amargura do passado ou da ansiedade do futuro. Melhor mesmo é fazer passado presente - quando é nostalgia, e futuro agora - quando é motivação.

Saber dessas coisas nem sempre significa ter sapiência. A sabedoria só se adquire na prática, no fazer e experimentar. Mas paciência. O amor vem e a felicidade também, quando dispensamos a lógica contemporânea da obrigação de ser feliz em tudo e o tempo todo. Pois a perfeição da vida vem da sua natural imperfeição. São as questões a se responder que nos fazem se entremear na floresta das descobertas. De lá trazemos frutos invisíveis que dão possibilidade à alma de voar. A alma vai de encontro ao espírito e explode em luz. Iluminado, você vê melhor ao ponto de entender que não são as coisas, mas é como você vê as coisas com os seus olhos de agora.

Percebe? Estamos aqui para descobrir e a descoberta nos impõe romper com os preconceitos. Tudo é relativo. Todo fato tem pontos de vista diversos e até a utopia realiza. Nada constrói mais que a utopia. Assim, todo conceito, fechado e terminado, é preconceituoso. A vida até pode se conceituar, mas viver não. Portanto, a pergunta essencial é se responder: o que eu faço aqui? Sim, o que você faz aqui nesse mundo nem sempre justo, solitário e repleto de multidões? Você está aqui para descobrir e, acima de tudo, se descobrir. Não precisamos de mais nada. Descobrir é prazer, libertador, é revelar-se para si mesmo e de repente inventar um universo que extrapola a estratosfera e até a imortalidade. Mas reconheça a finitude que te brinda.  

O ego é o hospedeiro que mata quem o hospeda. O ego nos confunde, cega. Meu ego talvez não deixe eu enxergar até o que é óbvio. O ego nos impede de ser parte e individualiza o coletivo. Ter razão é a maior besteira de todos os tempos. Quem sempre quer ter razão perde tempo de ser feliz e eu não tenho razão alguma nisso. Convencer para apenas vencer pode ser traição a si mesmo. Serenidade: apenas um pequeno passo para a sobriedade que nos liberta do mortal pecado da vaidade.     

Admitamos a imperfeição que faz da vida perfeita. Só o presente existe. Essa é a experiência magna. Eu sou o presente e nada mais. Faça o que é para fazer, faça o que tem que ser feito. Fica nesse presente e deixa o coração comandar. Sem vergonha, envolto numa coragem sem prudência. Descubra a alegria e a tristeza nas suas intensidades libertadoras. Mais do que abrir os braços é preciso soltar a mente; fluir o coração da energia que se renova através dele; encontrar o que vem após o desejo para despertar a necessidade de dar asas à alma e luz ao seu espírito que já é de luz clamando para iluminar.

Eu posso ver além do horizonte. Eu posso caminhar para onde o sol se põe. Todos nós podemos. E esse desafio é menor que se olhar no próprio espelho. É preciso muita audácia para se olhar no espelho. Mas é inspirador de poético perceber que se desvendar é a melhor e a mais legítima das utopias.    

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