O amor acaba?

Wanderson Nogueira

Wanderson Nogueira

Observatório

Jornalista, cronista, comentarista esportivo, já foi vereador e deputado. Ufa! Com um currículo louvável, o vascaíno Wanderson Nogueira atua com garra no time de A VOZ DA SERRA em Observatório, sua coluna às terças e quintas.

sábado, 18 de maio de 2019

O amor acaba?

O amor se transforma.

Não é por que uma relação chega ao fim que o amor também acaba. Ficam as memórias, as histórias, tudo o que foi produzido, de bom e ruim. Mas é bom se desvencilhar daquilo que só serve para nutrir mágoa e se apegar ao que fez valer à pena.

O amor não é comédia romântica hollywoodiana. Não pode ser vislumbrado como tal. Sua pintura borra e nem sempre as cores se harmonizam. A compreensão dessa natureza imperfeita é que faz o amor persistir, ainda que torne em outro tipo de amor.

Amar é bom demais. Principalmente, no cotidiano. Nunca sabemos bem onde é que nos perdemos. Mas quando se perde, se perde mesmo e nem sempre o outro e si mesmo conseguem se trazer para o caminho de volta.

Eu amei demais. Continuo amando. Percebi que o amor muda na entrega. E, quando não estava mais entregue - cedi a tudo que não quis pertencer. Não sou dos melhores artistas, mas o artista tem que saber a hora de sair do palco, tanto quanto o espectador - o momento de deixar a poltrona. Como artista e como plateia – vou... Amando. Mas sabendo que o amor se transforma e que aquele amor encerrou sua trajetória para não sei o quê.

Muitas vezes do dia sobe pela garganta aquela angústia fervida em ansiedade. A saudade se faz imperativa no processo de cristalizar a nostalgia permanente. O sorriso. O olhar. A fala. O conhecimento quase pleno de saber decifrar a nuance de cada gesto. Essa tal intimidade... É perversa a ausência, principalmente nos domingos e nos instantes de cada dia de olhar para o nada. Como olhar para o nada nos diz tudo!

Egoísta, caio em mim para não ser babaca. E nesse forçado ato de altruísmo, percebo que pactuar com o bem força a deixar ir e me deixar ir. Porque amores grandes assim precisam evoluir para, ao se transformar, não acabar.

A simples pergunta “o amor acaba?” - faz sofrer. Ainda mais quando, espontaneamente, visitamos a história. O primeiro encontro, a primeira vez que se viu e se percebeu e se deu... Vontade de voltar para aquele dia de samba e mirante. O samba atravessou e o mirante nem existe mais. Se pudesse não sair de lá! A visita desse tal de amor... Por que não fica? E se pudesse ficar... E se transformar sem a necessidade de ir embora.

Não, não vá! Apesar dos caroços, das desavenças, das pequenices e imaturidades. Medos. Parte de mim diz para não ir, enquanto nos cobramos ser inteiros.

Mas amar também é deixar ir. Não há outro jeito para se transformar. É aí que o amor maior nasce, pois ele é feito da ausência de egoísmo. Estou tentando expurgar o meu egoísmo de querer estar só pelo fato de sentir falta. O amor pede mais. O amor merece mais. O amor exige sentido.

Eu não consigo dormir, tanto quanto não consigo parar de pensar. E as lágrimas me escapam abundantemente. A saudade é perversa, principalmente quando inicia seu processo de cristalizar nostalgia. Nessas horas de permanente sentir, a resposta se consolida: o amor não acaba. Se transforma.

 

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