Reflexões reticentes

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 05 de novembro de 2018

As reticências é um sinal de pontuação que indica a interrupção de uma frase. Pode também apontar para uma pausa ou uma omissão. São três pontos entre dois espaços, que suscitam algumas questões interessantes. A primeira é a sua interferência no texto. Depois de pensar e pesquisar um pouco a respeito, observei que seu emprego está relacionado com as percepções e emoções do escritor. Usá-las ou não usá-las... eis a questão.

A princípio, vamos considerar que é o leitor quem constrói o texto durante a leitura, quando o interpreta. Cada releitura, remete-o a novas percepções. Ah, o texto tem seus silêncios, feitos de espaços carregados de possibilidades interpretativas. O silêncio é enigmático; nunca tem ausências, é constituído pelo o que não é dito, nem visto a olho nu. Guarda o que é mais profundo, seja no afeto, na dor ou até na ironia. Decorre do sentimento ante o inacabado. Segundo Lacan, a falta é o que nos define.

Será que é necessário cutucar o leitor para que ele, numa determinada frase, perceba que é necessário parar para refletir, imaginar ou concluir? O modo de olhar, os trejeitos corporais dizem tanto; são as entrelinhas mais contundentes do relacionamento humano e desvelam tudo. Ah, as pessoas perceptivas... conhecem os meandros como ninguém.

As reticências é um sinal gráfico subjetivo, tanto para quem escreve, quanto para quem lê. O ponto único é objetivo. É finalizador. É mudança. Mas os três pontos entre dois espaços guardam uma riqueza de circunstâncias, sempre mescladas pela esperança e desesperança dos inconscientes tanto do escritor, quanto do leitor. O tempo passa... significa finitude ou continuidade? O fato é que o tempo passa e não retorna; a todo o instante, temos que decidir da melhor forma possível. A vida acontece, não hesita. Somos nós, os escritores, quem hesitamos, e é o leitor quem viaja nas nossas reticências, absorve nossos vazios e alimenta-se das nossas hesitações. Ou não, caso decida de modo diferente.

O texto respira através da pontuação. O escritor suspira também através das possibilidades que a pontuação lhe oferece. A força das ideias está na interação entre todos os elementos semânticos, ortográficos e gramaticais que o autor possa recorrer. Se reticente ou não, o importante é conhecer a língua portuguesa e saber a melhor forma de empregá-la. Ponto final e sem reticências.

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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