A pesquisa histórica pode ser um ponto de partida

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 01 de janeiro de 2018

Aqui não vou fazer um tratado sobre a pesquisa histórica, apenas quero refletir um pouco a respeito desse importante tema para o escritor.  A pesquisa história é um método científico de análise dos fatos passados que nos permite conhecer e compreender os fenômenos naturais, culturais, psicológicos e sociais de uma época, situada num determinado espaço geográfico. Olhar para o momento atual, mesmo tendo conhecimento mínimo do passado, é enriquecedor. Até porque o presente possui vínculos intrínsecos com o passado, da mesma forma o futuro com o presente. Não existe um tempo espontâneo; os acontecimentos têm raízes e justificativas anteriores.

Além do mais, a pesquisa história amplia a percepção dos fenômenos, na medida em que os fatos podem ser tomados a partir de vários pontos de vista. Digamos que eu queira romancear a história de um jovem casal que vem aos domingos à Praça Presidente Getúlio Vargas fazer malabarismos. A história da praça, certamente, dará um sentido especial à narrativa, que poderá ser enriquecida pela expectativa das crianças que esperam o final de semana chegar para vê-los. A percepção dos transeuntes e moradores das redondezas não podem ser excluídas, nem tão pouco a história da cidade. Tudo está intricado. E o escritor nada mais fará do que deflagrar um incidente crítico com todos esses elementos.

A pesquisa história é uma obra literária, entretanto com uma proposta bem diferente da do romance. De certo modo, o romance, quando bem fundamentado, revela uma história passada, como o Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo.

Os fatos reais ao serem romanceados atraem a atenção do leitor e estimulam a reflexão sobre a vida, cujos personagens desafiam sua percepção. Mesmo cuidadosamente descritos, tornam-se ficção; nenhuma narrativa consegue ser fidedigna, como o Conde Drácula, baseado no Príncipe Romeno Vlad lll. A ficção oferece liberdade ao escritor para imaginar, e, aí está uma das belezas da arte literária.

Quando comecei a escrever, adquiri o hábito de pesquisar. Agora posso até dizer que sou viciada em querer ir além. Sempre mais. A história real me encanta porque quando escrevo vejo a vida, o que me dá imenso prazer. Sinto que meu texto é vazio quando fico nas percepções superficiais. Não que elas não tenham seu valor. Ah, como tem! Se, agora mesmo, escrevendo esta coluna, olho para uma árvore no meu jardim que dança com os pingos da chuva. Esta árvore me remete à minha mãe que a plantou porque gostava de flores brancas. Do meu filho que não queria que as árvores fossem podadas porque elas choravam através da seiva que escorria sempre que um galho lhe era cortado. Aí, a história da casa toma conta de mim. Então, escuto risos e revejo tantos pores do sol. De repente, olho para a minha vida que foi acontecendo perto da árvore.

E, por aí, vai o valor da pesquisa que também poderia revelar a percepção da árvore de flores brancas que presenciou a vida de uma família acontecer.

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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