Os tesouros literários das águas mediterrâneas - Parte 3

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 02 de dezembro de 2019

A tragédia ou o canto ao bode

 

Na Grécia antiga, o divino iluminou as manifestações populares que expressavam a admiração pelo heroísmo e pelas divindades, narravam a origem do homem, os significados da vida, as aventuras, os infortúnios e os modos de viver. As práticas ritualistas possuíam caráter explicativo como meio de abordar os fenômenos naturais e mostrar os limites da ação humana, do amor ao ódio extremo.  

Através da evolução dos rituais à Dyonisos, que se tornou o deus do teatro, as procissões foram evoluindo para encenações e ganhando características trágicas e cômicas. A tragédia ou tragoidia, em grego, palavra constituída por tragos (bode) e oidé (canto), significava a reação de Dyonisos ante a perseguição da deusa Hera, mulher de seu pai, Zeus, que, ao ser traída pela mãe de Dyonisos, Sélene, queria se vingar. Primeiramente matou a amante do marido. Depois, desejou a morte deste filho, que afastado para lugar distante, foi criado por ninfas, onde bodes também o protegiam. É interessante dizer que este animal era sagrado na época, além de ser oferecido em sacrifício aos deuses nas cerimônias. Assim, o significado de “canto do bode” é trágico, literário e teatral por excelência.    

Em seus primórdios, a tragédia tinha a finalidade de causar espanto, impacto e sentimentos de terror e piedade no público. Ah, Ferreira Gullar, o poeta do espanto!, que dizia que sua poesia surgia desse sentimento que maravilha, assombra e surpreende.  A dramaturgia deste gênero teatral buscava na fúria da vida e na impiedade do destino modos de construir personagens passíveis de sofrer as piores dores. Também em causá-los.

Este Gênero foi considerado pelos autores clássicos como o mais nobre dos gêneros teatrais, bem como embrionário de toda a produção teatral. Através da compreensão das tragédias, acredito ser possível melhor entender o pensamento filosófico, político e jurídico que o mundo ocidental construiu ao longo do tempo.

Hoje, as tragédias devem ser lidas e refletidas com os olhos da atualidade porque tratam de temas contemporâneos, utilizados, inclusive, no âmbito da psicanálise como o complexo de Édipo, que é descrito a partir da tragédia Édipo Rei, e o complexo de Electra, descrito a partir de Electra. Os textos abordam traição, adultério, vingança, desatino, ruindade, bem como os atos e sentimentos decorrentes. Basta abrir as páginas de jornais ou escutar causos contados nas esquinas para se constatar que os personagens da literatura antiga não são ultrapassados, como a maldosa Medeia.

Os textos são densos, evocam os sentimentos do ser humano e devem ser compreendidos em todos os seus sentidos: políticos, éticos, psicológicos e filosóficos. O gênero dramático foi associado, desde sempre, à ação que imita a vida. A imitação é uma prática natural do ser humano, e a produção literária em todos os tempos é a representação do mundo físico. Deste modo, a arte é uma forma de interpretação do mundo, e as tragédias tiveram a dignidade em mostrar as leis, os deuses, os destinos dos homens.  

 

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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