Onde está a literatura no mundo encantado da cozinha?

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Eis uma interessante e misteriosa pergunta: onde está a literatura na cozinha? Será nos livros de receitas? Será nas aventuras culinárias que os livros de receitas estimulam? Ou será nos segredos que as paredes da cozinha guardam? Ah... é um mistério para os leigos, mas não uma questão para os mestres das letras. Na verdade, ouso até falar um pouco por eles, e que me perdoem se vou dizer asneiras. A literatura é a arte que se faz com palavras pesquisadas e cuidadas, e os alimentos são elaborados e feitos com ingredientes certos. A cozinha é um laboratório, tal qual o canto de magia, em que bruxos armados de colheres de pau e panelas produzem delícias para o paladar e a alma. Não é misturar arroz, alho, sal e água que se faz um delicioso prato. Pode sair uma gororoba insuportável. O fazer de um arroz pode ser uma aventura, desde o seu planejamento, a compra dos condimentos, até o cozimento e suas circunstâncias. Um prato cheio aos cronistas, contistas e romancistas, como fez Francisco Azevedo ao escrever Arroz de Palma, um lindo romance que conta a história de uma família e das relações entre os familiares enquanto ele prepara um almoço de família, em comemoração ao aniversário de casamento de 100 anos dos seus pais.
A arte culinária é sedutora e atrai pessoas de várias idades e culturas. Certamente, a informação dos ingredientes, a sequência e o tempo de cozimento não é literatura. Entretanto, a elaboração de um prato pode reunir tantas surpresas, recordações, emoções e fatos que oferecem possibilidades ao escritor em vários estilos literários. A literatura é tão mágica que faz misturar o cheiro do alimento sendo preparado com a alma do cozinheiro e com a dos seus admiradores.
Kátia Cantou fez uma pesquisa bem interessante nos contos de fadas e pinçou as receitas encontradas nas histórias, como a torta de morando do Barba Azul, o biscoito doce da Maria, o molho Robert da Bela Adormecida. Através das receitas é possível conhecer um pouco da cultura de um povo, oferecendo um rico material à pesquisa histórica, que é um estilo literário. Há duzentos anos os bolos de chocolate eram feitos de uma forma própria, até porque não havia gás encanado, nem batedeiras elétricas. As cozinhas eram diferentes, e ainda não havia geladeiras. Havia batedores de arame e as vasilhas eram de louça. E, certamente, eram deliciosos.
A cozinha também é um lugar da casa aconchegante, um lugar de magia e prazer. Aliás, os livros de receitas apenas existem porque a degustação do alimento é uma cultura apreciada no planeta, como também compartilhar a mesa com pessoas de quem gostamos, vivenciando momentos inesquecíveis. Literários.  

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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