O toque literário e o peso de papel da dona Lourdes

Tereza Malcher

Tereza Cristina Malcher Campitelli

Momentos Literários

Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

O verbo tocar possui significados que vão desde o encostar a mão em
alguém até a execução de uma música por um instrumento musical. O verbo
tocar possui um universo de sentidos que reúne ideias relacionadas a
impressionar, comover, avisar, assinalar, dizer, sensibilizar, atingir, dentre
outros. Em todos os sentidos, é uma ação que contém uma característica em
comum: é intencional, mesmo que inconsciente.

O ato de tocar é decorrente de uma necessidade, da vontade de transmitir
uma mensagem ou simplesmente de chamar a atenção. No ponto de vista
literário, possui uma característica estrutural. Será que poderia conceituar a
literatura como a arte da palavra que toca o leitor porque o escritor foi tocado
por um sentimento e uma ideia? Haveria literatura caso não houvesse este
“abstrato” toque? Um escritor preencheria folhas de papel em branco para
escrever algo que não o tocasse? Ah, sim. Trabalhos literários podem ser
encomendados. Porém se o escritor não estiver tocado por algum motivo, seja
até uma necessidade financeira, não terá motivos para elaborar um texto
durante um longo tempo. Literatura não é produzida com magia, mas com
trabalho, dedicação e determinação. Por sua vez, o leitor se entrega à leitura
por estar tocado por ela ou por algum motivo especial.

O tocar literário é individual; escritores e leitores são tocados pela vida de
uma forma especial. Está na minha frente um peso de papel que recebi de uma
amiga, cuja mãe, recentemente falecida, foi minha vizinha, amiga e grande
parceira. Certa vez, Leda, sua filha, me disse que gostaria de me dar algo da
dona Lourdes. Eu estava no rol de entrada da sua casa e vi um peso de papel.

Quero ele, eu disse. Mas é tão simples, exclamou Leda. Não, respondi, ele vai
me iluminar para escrever, pois sua mãe tinha uma inteligência viva que eu
admirava. Eu o trouxe para a minha escrivaninha e sempre que começo a
escrever olho para ele. Aliás, escrevi esta coluna inspirada nas margaridas do
seu fundo.

Da mesma forma são os livros. Em cada momento da vida, um livro nos
toca, entretanto existe um que nos é mais significativo. Eu acredito que no final

de cada leitura nos tornamos pessoas diferentes, da mesma forma que as
crianças precisam ter contato com os heróis dos contos de fadas para se
fortalecerem diante dos desafios da vida. Odisseia, obra literária que narra o
retorno de Ulisses para Itaca, é trabalhada nos cursos de Psicologia e em
empresas. Posso dizer o mesmo de Alice no País das Maravilhas.

E as crônicas de Marta Medeiros? Como são relevantes ao universo
feminino ou melhor ao humano, uma vez que são gestadas por uma escritora
que se permite ser tocada pelos acontecimentos do dia a dia e tem capacidade
literária para tocar seus leitores.

E Shakespeare? Suas peças e seus poemas têm o poder de tocar a alma
de qualquer um. Ele construiu Otelo, Iago, Hamlet, Júlio César, personagens
que todos nós devemos conhecer e nos deixarmos ser tocados por eles para
que possamos compreender um pouco melhor a natureza humana. Inclusive a
nossa.

Ah, o peso de papel da dona Lourdes!

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Tereza Malcher é mestre em educação pela PUC-Rio, escritora de livros infantojuvenis, presidente da Academia Friburguense de Letras e ganhadora, em 2014, do Prêmio OFF Flip de Literatura.

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