Não se deve brincar com figuras marcantes da humanidade

Max Wolosker

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Economia, saúde, política, turismo, cultura, futebol. Essa é a miscelânea da coluna semanal de Max Wolosker, médico e jornalista, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

As últimas semanas foram marcadas por uma grande polêmica provocada pelo site Porta dos Fundos, uma mistura de produtora de mau gosto e geradora de celeumas desnecessárias e inconsequentes, principalmente, quando usam o escudo da censura, para se proteger. Mas, o que é pior, quando são amparados por “autoridades” sem nenhum preparo para exercerem funções da mais alta relevância de um país.

Seja um profeta, seja um grande transgressor dos costumes à época, seja o filho de Deus como é conhecido pelos católicos, Jesus Cristo é uma figura histórica e religiosa ímpar, reconhecida, cultuada e amada ao longo de mais de dois mil anos. Não é a idiotice, por que não babaquice desses comunicadores baratos, donos do malfadado site Porta dos Fundos, que vai denegrir, vilipendiar o maior ícone da humanidade. Aliás, causa-me estranheza que o papa atual não tenha feito um pronunciamento do quilate que o fez, quando se meteu em assuntos totalmente alheios a sua atuação, como foi o caso das queimadas da Amazônia brasileira.

Não vou falar de Jesus, pois ele dispensa comentários, mas sim da celeuma que foi criada com o filme sobre o Natal que o apresenta como homossexual. Vale a pena ressaltar que se esses idiotas do Porta dos Fundos fizessem algo parecido com a figura de Maomé, seriam enforcados, em praça pública e pelos testículos, não pelo pescoço, como é o método tradicional. Os redatores do jornal francês Charlie Hebdo que o digam.

 Mas, o pior é a discussão sobre a interdição causada pelo desembargador Benedicto Abicair, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), determinando que a Netflix suspendesse a exibição do especial de Natal 'Primeira Tentação de Cristo', feito pelo grupo Porta dos Fundos. Como diria Nelson Rodrigues, vários pascácios entraram em ação, combatendo tal ato, pois este seria uma volta da censura dos idos de 1964. Pior, foi a atuação do presidente do STF, que derrubou tal impedimento; Toffoli considerou que a retirada do ar afronta a constituição, que veda toda e qualquer censura, seja por razões políticas, ideológicas ou artísticas (https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/01/09/toffoli-derruba-censura-e-libera-filme-do-porta-dos-fundos.ghtml).

Não acredito nisso, pois tal argumento pode ser utilizado por um advogado, no calor de sua oratória na defesa de sua causa. Um juiz togado, dentro do seu soberano saber jurídico, sabe que a Carta Magna do país veda a censura pura e simplesmente, mas a juíza  Lygia Sampaio, do 3º Cartório Cível de Teresina, menciona que na sua interpretação da Constituição, a censura é permitida se a liberdade de expressão é “exercida sem consciência, responsabilidade, e com a intenção de caluniar, difamar, injuriar, satirizar ou ridicularizar”.(https://www.conjur.com.br/2017-ago-31/censura-permitida-abuso-direito-afirma-juiza). Creio que ela tenha se baseado no dispositivo constitucional que em seu artigo 221 determina que a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios, entre outros: respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

A meu ver esse é o caso, pois apresentar Jesus Cristo de maneira indevida é uma afronta, um desrespeito não só para com a história da humanidade, como para todos aqueles que professam uma crença e se sentem aviltados, vilipendiados por indivíduos cujo único propósito é aparecer. Além do mais, foi uma covardia para com Jesus, pois morto lhe é negado o direito de defesa; ainda bem que a justiça divina não falha, e esses engraçadinhos vão encontrar o que merecem, mais cedo ou mais tarde. É uma afirmação completamente fora de propósito, sem provas, uma verdadeira fake-news que merecia, no mínimo, um repúdio do presidente da mais alta corte do país e não o seu aval incondicional. Mas, ele não é nem juiz e muito menos constitucionalista. Portanto....

Aliás, gostaria de saber como reagiria Dias Toffoli, se o Porta dos Fundos fizesse um filme apresentando-o como “gay” e os demais membros do STF, como viciados em cocaína, como questiona o deputado Bino Nunes. (Leia mais em: https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/18197/e-agora-toffoli-deputado-sugere-filme-de-ministros-do-stf-viciados-em-cocaina).

A constituição de 1988 é muito libertária, pois na realidade foi um contraponto ao regime autoritário implantado em 1964. Ela necessita de reformas urgentes e teria sido muito mais apropriado, se o presidente do STF, ao invés de tomar uma atitude monocrática, tivesse levado esse caso para o plenário daquela instituição e aí formar uma jurisprudência, como foi feito com o malfadado caso da prisão em segunda instância. Mas, seria querer demais.

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