Tempos passionais

Massimo

Massimo

Coluna diária sobre os bastidores da política e acontecimentos diversos na cidade.

sábado, 09 de março de 2019

Para pensar:

“Um traficante jamais consome.”

Autor desconhecido

Para refletir:

“O materialismo em excesso destrói o horizonte espiritual do homem.”

Alexis de Tocqueville

Tempos passionais

Após dois dias dedicados a atualizar alguns dos principais fatos ocorridos desde nossa pausa de carnaval, é hora de abrirmos espaço para alguns assuntos um pouco mais analíticos, que igualmente nos dizem respeito.

Crise do discurso

Este espaço tem repetido algumas vezes que vivemos em meio a uma grave crise do discurso, cujo sintoma principal é ver pessoas defendendo, de forma errada, ideias que legitimamente acreditam que sejam certas.

E por que, afinal, dizer que a forma está errada?

Bom, porque, em essência, fala-se para quem já pensa da mesma maneira, em tom geralmente extremista e excludente que apenas reforça as convicções e rejeições de quem está fora da bolha.

Gol contra

Na prática, portanto, trata-se de uma defesa meramente ilusória, posto que presta um desserviço à causa em tese defendida.

Serve para dormir bem à noite, para que seja possível dizer no futuro “eu avisei”, mas não serve em nada para que a ideia ganhe força e eventualmente se torne viável.

No máximo, reforça com camadas de medo e desprezo as membranas da bolha que impede a oxigenação, de modo a evitar que os “convertidos” troquem de lado.

Mas a porta, claro, se tranca para os dois lados.

Emoção

Certo, mas por que falar sobre isso agora?

Porque o episódio recente da nomeação da friburguense Ilona Szabó como suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária - e a subsequente revogação da mesma nomeação - expôs de forma cristalina algo anterior a esta crise, algo ainda mais básico: nós estamos vivendo tempos passionais.

Trincheiras

É importante notar, por exemplo, que a chuva de críticas não se limitou à ala mais extremista do suporte ao atual governo federal, mas também partiu do extremo oposto, da oposição mais aguda, onde muitos consideraram que ela de forma alguma poderia ter aceitado tal nomeação.

A julgar pelo teor das manifestações, os extremos concordam nesse ponto: diferentes não deveriam se misturar.

Devem apenas resistir, ou aceitar.

Foco

Tal lógica, no entanto, só pode fazer sentido a quem se deixou governar por emoções, e Ilona é essencialmente racional.

Mais que isso, é dela a voz racional de maior alcance no Brasil na atualidade, e também uma das mais respeitadas entre as jovens lideranças internacionais.

Em meio a tantos problemas clamando por esforços conjugados e urgentes ela jamais irá perder o foco com discussões infrutíferas e apaixonadas.

Se houver a chance de debater e atuar em meio a pontos de interseção, ela estará lá.

Mordaça

Moro sabe disso, e sabe também que este é o jeito certo - se não o único - de conduzir políticas públicas efetivas.

De fato, sua posição pessoal ficou bastante marcada no episódio, ainda que tenha se sentido obrigado a voltar atrás.

O mais importante, todavia, é observar que Ilona não teria qualquer poder de decisão que justificasse a reação coletiva.

Todo este barulho foi apenas para a impedir de argumentar, para limitar o alcance de sua voz.

Ouvidos tapados

A emoção nunca gosta de ouvir a razão, até mesmo porque ela não se prende a lógicas.

Para a emoção é perfeitamente possível adotar pesos e medidas diferentes para avaliar determinado comportamento, a depender de quem o praticou.

Ela não se prende a coerências.

A emoção não se importa em perguntar, por exemplo, para que serve um conselho desprovido de representatividade.

E geralmente irá reagir com agressividade quando confrontada com evidências contrárias.

Matrix

Imagine se quem vive a ilusão sedutora de acreditar-se um herói, se quem saboreia o sabor de se imaginar agente de uma luta do bem contra o mal, irá abraçar facilmente a racionalidade, tanto mais quando se corre o risco de descobrir que estejamos sendo divididos por quem quer conquistar, que estejamos sendo manipulados pelo medo, e, mais importante: que a defesa que fazemos de nossas ideias ou crenças tem sido estéril na melhor das hipóteses, e autofágica na maioria das vezes.

Bom, isso seria quase tão traumático quanto o despertar da Matrix.

Quem quer debater?

Quando se toma esse caminho, a verdade não apenas deixa de ser boa o bastante, como também pode se tornar verdadeiramente inconveniente.

E foi exatamente isso o que aconteceu com Ilona.

Se os posicionamentos fundamentais irão continuar os mesmos - uma vez que não se sustentam em razões -, quem vai querer ouvir o que não se poderá rebater?

Por aqui

Por aqui o carnaval de 2019 ficou marcado pela narrativa de episódio análogo, ao menos sob alguns aspectos.

Um boletim de ocorrência foi registrado ao longo desta semana, tornando formal a denúncia de que teria ocorrido um caso de violência policial relacionado a posicionamento político em nossa cidade.

Algo, claro, que se vier a ser confirmado, é seríssimo.

O que diz a PM

Diante da denúncia, a redação de A VOZ DA SERRA entrou em contato com o 11º BPM, que se manifestou sobre o caso.

De acordo com o major Mattos, relações públicas da PM, "houve uma confusão generalizada no local em que populares solicitaram a presença da polícia. Chegando lá, os policiais foram hostilizados por determinadas pessoas de um bloco, gritando palavras de baixo calão e agredindo verbalmente os policiais.”

Segue

“Quanto a ação dos policiais se fez necessário o uso moderado da força devido à proporção que a confusão estava tomando. Nesse sentido, foram tomadas as medidas cautelares no local mesmo. Ninguém foi preso. Não houve registro. A intenção do bloco não era se divertir. Também não é de nosso conhecimento que alguém teria sido agredido nessa ocasião. Tudo se resolveu no local. Apesar de tudo, os policiais optaram por não registrar desobediência e/ou desacato".

Contraditório (1)

A versão da PM diverge bastante dos relatos colhidos junto a quem sofreu a abordagem.

"Estávamos na [Rua] Portugal, aproveitando o show de uma banda. Quando a mesma parou de tocar, conseguiram ligar um celular na caixa de som e entoávamos, volta e meia, gritos de ordem contra o atual governo. A certa hora, alguns transeuntes deram trabalho para que um morador entrasse em seu prédio. Pelo que ficamos sabendo, o mesmo chamou a polícia. Era por volta de 2h do dia 4, e não ligávamos que estava chovendo! Estávamos todos felizes, dançando e cantando.”

Contraditório (2)

“Quando a PM chegou, mandou desligar o som e não desrespeitar o atual presidente. Nos proibiu de continuar os gritos de ordem. Não crendo na atitude autoritária em pleno carnaval, uma pessoa do bloco gritou novamente. Foi contida com um ‘mata leão’ e posteriormente algemada. Uma mulher, com menos de 1,60 metro! As pessoas que estavam no bloco, sem crer em tamanha truculência, se exaltaram e começaram a pedir que a soltassem. A polícia revidou com cassetetes, deixando hematomas em pelo menos cinco pessoas.”

Interesse de todos

Existe ao menos um vídeo feito durante a ação.

A coluna também pode assegurar que existem entidades se mobilizando na busca por respostas a alguns questionamentos.

O Massimo - que sempre reconheceu o valoroso e difícil trabalho prestado pela imensa maioria da corporação - tem certeza de que a PM jamais chancelaria excessos como os que têm sido narrados, e que a entidade é a primeira interessada em não deixar dúvidas a respeito do ocorrido.

Protesto

A coluna registrou, dias atrás, que a ex-prefeita Saudade Braga seria uma das agraciadas com a medalha Heloneida Studart, durante a tradicional sessão solene que anualmente marca o Dia Internacional da Mulher.

Pois bem, horas antes da cerimônia chega a informação de que o ex-presidente da Câmara Municipal, Jorge de Carvalho, estava se desfiliando do MDB por não concordar com o voto favorável a esta homenagem, por parte dos parlamentares da sigla.

Efeito cascata?

A coluna entende que outras desfiliações, notadamente entre a ala remanescente dos governos de Paulo Azevedo, devem vir em seguida.

As principais argumentações dizem respeito ao malfadado concurso de 1999, e à Nitcoop.

Esta não é a primeira vez que Jorge de Carvalho deixa o MDB.

Em 2012 ele foi candidato a prefeito pelo PT do B.

 

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