Sem maquiagem

Massimo

Massimo

Coluna diária sobre os bastidores da política e acontecimentos diversos na cidade.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Para pensar:

“Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura.”

Herbert de Souza

Para refletir:

“Quem nada sabe, de nada duvida.”

George Herbert

Sem maquiagem

Dissemos aqui, na semana passada, que a baixa audiência da TV Câmara no YouTube tem deixado alguns vereadores muito à vontade para reduzir um pouco o uso dos protocolos politicamente corretos, deixando a verdade transparecer um pouco mais.

Quem não é de assiduidade, por exemplo, não tem se esforçado muito por permanecer nas sessões até o fim.

Da mesma forma, aqueles que acalentam desejos que em outro contexto poderiam gerar maiores desgastes, agora parecem confortáveis para os trazer a plenário.

Paradoxo

O editorial de AVS em sua edição de fim de semana foi muito feliz ao descortinar o paradoxo representado pela transparência na gestão da coisa pública.

Afinal, todos sabemos muito bem que vários políticos adorariam reduzir (ou mesmo eliminar) a transparência em torno de seus atos, por razões fáceis de deduzir.

Mas, claro, ninguém jamais irá manifestar isso abertamente.

E é aí que entra o desencontro entre discursos rasos e populistas num dos lados, e medidas de isolamento e opacidade no outro.

Radiografia

A esse respeito, o discurso do vereador Nami Nassif na hora livre da sessão ordinária da última quinta-feira, 19, é daqueles que deveria ser visto por toda a população friburguense (a gravação está disponível no YouTube), por funcionar como uma radiografia nítida do modus operandi de muitos de nossos representantes, que em última análise explica por que estamos sempre tão distantes daquilo que poderíamos ser.

Resumo (1)

Em resumo, o parlamentar lembra que vem da iniciativa privada, e que por isso sabe que em momentos de crise é preciso cortar custos.

Em seguida, recorda as emendas parlamentares que foram destinadas a Nova Friburgo por meio de sua relação de proximidade com o deputado federal Hugo Leal, enfatizando que essas obras “caem na conta do vereador” e “deixam marcado o mandato”.

Resumo (2)

Lançados os pressupostos, Nami finalmente passa a defender a interrupção dos serviços da TV e Rádio Câmara, alegando que quando ambos foram criados não existiam as redes sociais, e portanto eram mais importantes do que são atualmente.

E conclui afirmando que os gastos, que ele avaliou em aproximadamente R$ 850 mil ao ano, seriam mais bem empregados em obras financiadas pela Câmara.

Incrível como ninguém teve ideia tão brilhante antes, não é verdade?

Obtusidade

Em qualquer ambiente legislativo maduro, tal sugestão teria sido veementemente rechaçada em favor da busca por ferramentas e alternativas capazes de aumentar a eficiência dos sistemas existentes, de modo a reduzir custos sim, mas sem jamais limitar a oferta de informações à população.

Em vez disso, no entanto, diversos vereadores apoiaram enfaticamente a ideia - se é que já não a conheciam de antemão - e se disseram prontos a aprovar a iniciativa.

O prefeito Renato Bravo também aplaudiu a mesma proposta, na manhã de segunda-feira, 23.

O tipo de comportamento que explica, com didatismo ímpar, tudo o que estamos vivendo.

A quem interessa

Imediatamente, os párias que ganham a vida como mentirosos de aluguel começaram a exaltar a proposta nas redes sociais, não apenas explicitando quem são seus financiadores, mas também demonstrando justamente por que ferramentas como a TV e a Rádio Câmara são mais importantes na atualidade do que jamais foram.

Afinal, se os difamadores já manipulam informações de forma tão despudorada num contexto em que existem ferramentas disponíveis para os desmentir, imagine o que não aconteceria se esses canais fossem fechados?

Seria o sonho de todo político que gosta de distorcer fatos e editar a realidade...

Analfabetismo político

A nova Lei Orgânica lista nada menos que 32 competências do Legislativo Municipal.

Entre elas, “fiscalizar e controlar os atos do Poder Executivo, incluídos os da administração indireta”, e “dar publicidade dos seus atos na forma exigida em lei, bem como dos resultados aferidos pelas comissões processantes, de inquérito e especial”.

Mas não fala nada sobre a busca de emendas ou sobre a execução de obras, por uma razão muito simples: todas estas competências são reservadas a outros cargos eletivos.

Se o vereador quiser ajudar, ótimo. Mas antes precisa exercer suas próprias funções.

O cisco e a trave

Note o leitor que a coluna nunca bateu na tecla da redução do número de vereadores, por entender que, se todos levassem a sério suas funções, o ganho em representatividade compensaria os significativos custos de cada cadeira ocupada.

Mas se os edis estiverem mesmo preocupados em gerar economia, então devem começar olhando para os próprios umbigos, porque alguns estão saindo muito caros aos cofres públicos.

Sugestões

Afinal, qual é o custo anual das indicações para cargos comissionados, e as gratificações que as acompanham?

E quantos milhões custa o afrouxamento da fiscalização em troca de cargos, influência e subsídios para exercer o assistencialismo?

Ora, somente na alimentação hospitalar - um exemplo entre muitos -, o trabalho de fiscalização de poucos parlamentares já economizou, em apenas nove meses, muito mais do que o valor anual que se pretende “poupar” em transparência!

Caso de estudo

E o que é mais irônico: o mesmo vereador que durante sua desastrosa passagem pelo Executivo foi diretamente responsável pelos contratos emergenciais que redundaram em enorme prejuízo, e que ainda hoje tem assessora nomeada pela prefeitura, é um dos que apoia a “economia” em publicidade dos atos.

Porque, claro, o dinheiro que falta para a realização de obras é sempre aquele “desperdiçado” em transparência e controle social.

O resto vai muito bem, obrigado.

Custo x benefício

Não teria fim a lista de exemplos possíveis, somente aqui mesmo, em Nova Friburgo, e durante o mandato atual, a comprovar que o custo com transparência é muito menor do que os benefícios e a economia que ela traz.

E todos os vereadores sabem, ou deveriam saber disso.

Mas, claro, se as verdadeiras razões para agir como agem fossem bonitas, ninguém precisaria se esforçar para escondê-las, não é verdade?

O que importa

No fim, a proposta em si nos interessa muito mais pelos absurdos que explicita, do que por qualquer possibilidade de vir a ter efeitos práticos.

Afinal, o destino da atual gestão municipal já está traçado, é iminente, e todos os que se omitiram em troca de benefícios pessoais ficarão para sempre marcados por isso.

Daqui a cinco anos ninguém se lembrará dessa ideia estapafúrdia, mas os vídeos ainda estão aí para não deixar esquecer o lado que cada um assumiu diante do que se passava em nossa cidade

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