O áudio

Massimo

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Coluna diária sobre os bastidores da política e acontecimentos diversos na cidade.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Para pensar:

“Quando nosso coração está repleto de empatia, um forte desejo de eliminar o sofrimento alheio surge dentro de nós.”

Matthew Quick

Para refletir:

“A verdadeira compaixão não significa apenas sentir a dor de outra pessoa, mas ser motivado a eliminá-la.”

Daniel Goleman

O áudio

A máscara da política friburguense escorregou mais alguns centímetros na noite de segunda-feira, 10, quando começou a circular um áudio no qual Tânia Trilha, na condição de secretária municipal de Saúde, se dirige ao ex-diretor médico do Hospital Municipal Raul Sertã, Arthur Mattar Gremion Soares, dizendo o seguinte: "Arthur, meu querido, olha só! Eu preciso só que resolva, que opere o paciente ou que ele morra, entendeu, pra gente se ver livre do problema, mas é só o que eu preciso porque eu tenho que cumprir uma decisão judicial, você me ajuda nisso, por favor? Obrigada, meu querido".

Náuseas

Quem já ouviu o áudio sabe que tão chocante quanto o teor da mensagem é o tom de voz em que tudo isso é dito.

Já faz cerca de um mês que o colunista teve seu primeiro contato com esta gravação, e desde então o único sentimento a respeito é o de profunda indignação.

Claro que conhecer o contexto é imprescindível, mas nenhum eventual atenuante poderá justificar tamanha falta de empatia.

Ética

Por diversas vezes a coluna falou de forma cifrada sobre a existência do áudio, mas não o divulgou por não ter autorização da fonte para isso.

Este colunista jamais apelou para câmeras ou gravações escondidas, nem tampouco usou artifícios como se passar por outra pessoa para obter informações.

Este espaço se sustenta sobre relações de confiança, e não raramente isso significa ter acesso a informações e não ter autorização para as passar adiante abertamente.

Primeiro

A partir do que foi dito na nota anterior a coluna se permite fazer dois apontamentos muito importantes.

O primeiro é de que o médico Arthur Gremion não promoveu ou autorizou a divulgação do áudio, que, vale destacar, foi enviado a um grupo de WhatsApp, com vários destinatários, ainda que direcionado a ele.

Bom entendedor

De fato, Arthur foi bem claro ao explicitar os motivos que o levaram a deixar a administração, e agora fica muito mais fácil entender por que alegou "não compactuar com esta gestão da Secretaria Municipal de Saúde, onde os valores judiciais são mais importantes que os valores humanos".

Ou por que afirmou que nesta gestão "a lei vale mais que uma vida" .

Para bom entendedor, estava tudo lá, tudo já havia sido dito.

Segundo

O segundo apontamento relacionado à postura ética adotada pela coluna é justamente o de que acumula-se conhecimento sobre situações que não foram ou não podem ser divulgadas.

A coluna, no entanto, pode atestar que existem outros áudios chocantes, que comprometem diversos atores de destaque em nossa política, e que muitas destas gravações já se encontram em poder da Justiça, naturalmente sob sigilo.

O que está circulando agora é apenas a ponta do iceberg.

Desdobramentos

De forma inevitável, a divulgação do áudio nos confronta com algumas perguntas cruciais.

Quem é o paciente a que o áudio se refere, e qual foi o seu destino?

A coluna colecionou relatos apontando que a existência do áudio seria conhecida dentro do gabinete do prefeito desde o episódio da exoneração de Arthur Mattar.

Quem sabia da existência do áudio?

Desde quando?

Por que não foi tomada nenhuma decisão antes dele se tornar público?

Silêncio caro

Aliás, que mistério é este que dá tanta autonomia a secretários de Saúde na atual gestão?

Por que foi necessário um afastamento judicial, nos fins de 2017, quando todos sabiam do que se passava por aqui?

Como alguém acumula duas secretarias por mais de seis meses, nomeia dezenas de pessoas, e se sustenta no cargo mesmo quando é evidente que sua atuação está gerando pesados danos ao erário, sobretudo na forma de contratos emergenciais evitáveis?

Seria esta mais uma manifestação do famoso preço do silêncio?

Ecos

Ao longo desta terça-feira, diversas manifestações sociais foram se acumulando.

O Conselho Regional de Medicina (Cremerj) divulgou nota de repúdio ao que chamou de "descalabro" em uma unidade de saúde de Nova Friburgo e anunciou que entrará com ação de improbidade no Ministério Público do Rio de Janeiro por violação do princípio da moralidade administrativa.

Representações

O vereador Wellington Moreira, presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, protocolou representações junto ao Ministério Público Estadual e Federal nas quais requer, após longa justificativa, “cordialmente, que sejam tomadas as medidas cabíveis no sentido de afastamento imediato da secretária municipal de Saúde, e que seja instaurado procedimento de investigação para apurar a situação do paciente envolvido no áudio da denúncia, além do número de óbitos nas unidades de saúde do município.”

Outras manifestações são aguardadas nos próximos dias.

Até quando?

O que causa maior desalento, no entanto, é que os problemas são conhecidos de longa data, e muito sofrimento poderia estar sendo evitado.

Leiam com atenção, por exemplo, o que nos diz o parágrafo 397 de peça protocolada pelos vereadores do chamado G5 (Professor Pierre, na condição de relator; Wellington Moreira; Zezinho do Caminhão; Marcinho e Johnny Maycon) no Ministério Público Federal no dia 24 de outubro de 2017.

Calcule o leitor o volume de informações reunido nos parágrafos anteriores...

Aspas

“Há uma grande e sangrenta tragédia em curso, porém silenciosa e invisível à grande sociedade, a despeito de ensurdecedora àqueles que experimentam as dores cotidianas que dela derivam. Ela é moral, ética e humana, e se alastra pelas instituições e por parte do universo empresarial, (...) pois, na crença maior da impunidade, continuam como ratos a roer os princípios constitucionais e a se alimentar da verba pública destinada a manter e a salvar a vida de milhares de pessoas. Esquecem, ainda que não lhes seja visível, que o egoísta ato da corrupção, ainda que em conluios sem fronteiras, também lhes suja as mãos de sangue.”

Falar e agir

A coluna se encerra hoje com uma ponderação necessária.

É claro que ouvir um áudio como este choca e revolta, com razão.

Há entre nós, todavia, quem talvez não tenha falado, mas agiu efetivamente na contramão dos interesses da rede pública de saúde, contribuindo para a construção deste cenário carente de empatia, no qual mais vale o desperdício canalizado do que o respeito ao esforço social e à dor de quem sofre e depende do funcionamento do sistema.

Por trás

A secretária errou, isso é fato.

Mas não errou sozinha, nem deu início a esta macabra teia que une o egoísmo e a alienação de poucos ao sofrimento e o desamparo de muitos.

Existem pessoas que pretendem pedir votos no ano que vem e que já deveriam ter sido afastadas há tempos dos mandatos que exercem.

Existem provas para tanto.

Hora da Justiça

Reservar à secretária a condição de bode expiatório seria fechar os olhos para a dimensão real do problema.

Resta demandar, na condição de cidadãos que pagam salários muito altos, que aqueles que têm as informações e o poder de agir o façam, e o façam logo.

É a hora e a vez do Judiciário fazer a sua parte, com o que já tem em mãos, e mostrar que não está desconectado da dor de quem sofre e já não tem mais a quem recorrer.

Já chega. Não dá mais.

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