Vida caipira na toca de pedra

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

No princípio do século 19, uma parte do recém-criado distrito de Cantagalo foi desmembrada para receber colonos suíços, dando origem a Vila de Nova Friburgo. Para tanto, foram demarcados lotes de terras e doados a esses imigrantes para se dedicarem ao cultivo da lavoura de mandioca, milho, feijão e arroz, bem como na criação de animais domésticos.

Os lotes foram distribuídos para grupos em média de duas a três famílias. Como boa parte dos lotes era imprópria para a agricultura, os colonos suíços começaram a abandonar o núcleo colonial e se dirigiram para as cabeceiras do Rio Macaé, para outras freguesias e até mesmo rumo a outros distritos. Entrevistei o senhor Moacyr Marchon, nascido em 1921, para conhecer a história de uma família imigrante nas cabeceiras do Rio Macaé.

Naquela época era muito comum casamentos entre famílias suíças. Igualmente entre esses e colonos alemães, que chegaram em 1824, à Vila de Nova Friburgo. Formavam uma rede de solidariedade nos tempos difíceis de assentamento do homem na mata. Uma mulher que ficasse viúva e tivesse muitos filhos se casava novamente dentro de arranjos matrimoniais no grupo familiar, como foi o caso da mãe do sr. Moacyr que viúva se casou com o cunhado.

Filho de João Theodoro Vieira e de Emília Marchon, o sr. Moacyr inicialmente nos traz um dado interessante sobre a presença de índios na região. Sua avó Luíza Marchon foi pega a laço e raptada pelos índios quando morava em Conceição de Macabu. Descreve sua mãe como uma cabocla. Pesquisadores assinalam a presença de tribos indígenas saruçus, coroados e goitacás nesse município até o século 18, quando a partir de então se deslocam para outras regiões.

Emília Marchon casou-se com o cunhado Pedro Schuabb e juntando os filhos de ambas as relações anteriores a família foi composta por 17 pessoas. Quando o velho sobrado de “tabuinha” que residiam desabou a família foi morar numa toca de pedra, em São Pedro da Serra. Recorda-se que havia na caverna ossadas e machado de pedra dos índios. Segundo o sr. Moacyr, os índios foram para “aldeia velha, para baixada, aldeia dos índios”, um possível aldeamento em Conceição de Macabu.

Nas proximidades da toca de pedra o seu padrasto Pedro Schuabb derrubou com o machado a mata de pau de lei, cedro, tapenoã e camboatá. A seguir, tocou fogo na terra e preparou lavouras de inhame de gruta, milho e mandioca. Havia uma luta do homem com a natureza pela sobrevivência. De início, animais como porco do mato, caititu, quati e macaco comiam a lavoura de milho. Mas na medida em que o seu padrasto foi derrubando a mata os animais foram desaparecendo.

Para assustar as onças durante a noite, o padrasto fazia uma fogueira do lado de fora da toca. A família consumia além dos legumes plantados o palmito e o sr. Moacyr se recorda que a mãe cozinhava banana verde, depois amassava e adicionava caldo de macaco. Carne nunca faltava e comiam paca, macaco, jacu e caças do mato que a mãe cozinhava no fumeiro e que ajudava igualmente a espantar os mosquitos. Mesmo assim as crianças estavam sempre com caroços de picadas de insetos pelo corpo todo. A farinha de mandioca e o sal eram comprados.

A família dormia na esteira e o travesseiro era de saco de farinha que enchiam de palha de milho e capim gordura. A roupa, uma camisola feita de saco que a mãe tingia na panela, dando-lhe coloração. Não tinham sapato e muito tempo depois puderam ter um tamanco português, depois a malandrinha e finalmente um chinelo. Banho, somente aos sábados.

As crianças eram iguais ao caboclo no mato, só chegavam no final do dia na toca. Caçavam passarinho com bodoque e matavam cobra com ouriço no pau. O castigo era o chicote ou correia na perna. Quando uma das crianças fazia uma peraltice apanhava todo mundo, pois um teria que vigiar o outro. Como a camisola era lavada somente uma vez por semana, parecendo um couro de boi, o chicote pegando na roupa não machucava muito, relata o sr. Moacyr Marchon. Mas quando o padrasto suspendia a camisola doía mais, pois não usavam nada debaixo da roupa.

Quando as crianças tinham bichas ou lombrigas a barriga ficava muito inchada e provocava um apetite imenso. Nada matava a fome. Os vermes se embolavam um com o outro provocando calombos na barriga. Tinham que esfregar a barriga ou comer qualquer coisa para desembolarem. O padrasto socava erva Santa Maria e misturava com óleo de rícino dando para as crianças beberem e os vermes saíam todos nas fezes.

Moacyr Marchon trabalhou como tropeiro durante quase dez anos, tocando os burros do Júlio Manhães, Aristão Martins e João Bonn. Levavam para o centro de Nova Friburgo batata inglesa, feijão, palmito, capado e ovos. Recorda-se de escorar bruacas (sacos de couro) de 60 quilos no ombro. Cada mula suportava duas bruacas de 60 quilos de cada lado. Saíam nas primeiras horas da manhã e arranchavam no Colonial 61. Tiravam a carga dos animais, lavavam os lombos feridos e os colocavam na campina para pastar.

O rancho oferecia o pasto e uma estrutura como o fogão. Cozinhavam carne seca, arroz, batata e coavam café. Quando chovia, geralmente os animais derrapavam e caíam e então tinham que tirar a mercadoria de cima deles e arrumar toda a carga novamente no animal. Traziam de Nova Friburgo sal, lata de querosene, açúcar e sacas de arroz. E o sr. Moacyr Marchon, aos 98 anos de idade, continuou contando sem parar histórias interessantíssimas e deixo aqui um pequeno registro.

  • Foto da galeria

    Moacyr Marchon aos 98 anos é um contador de histórias

  • Foto da galeria

    Durante muitos anos Moacyr Marchon morou em uma toca de pedra com a família

  • Foto da galeria

    Erva de Santa Maria com óleo de rícino matava vermes das crianças

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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