Um mar de morros inférteis

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Na última semana assistimos as terríveis imagens dos incêndios em vários pontos da floresta amazônica. Um assunto que veio a tona é o problema do desflorestamento para dar lugar à lavoura extensiva. Vamos analisar o que ocorreu no século 19, nas lavouras de café no noroeste do Estado do Rio de Janeiro. A história do café no Vale do Paraíba fluminense tem alguns antecedentes históricos.

O cafeeiro é originário da Etiópia e domesticado pelos árabes. Os holandeses foram os primeiros a obter a planta dos árabes, aclimatando o arbusto em suas possessões. A seguir, os franceses têm acesso às mudas e plantam cafeeiros em larga escala em suas colônias no Caribe. É nesse momento que ocorre a associação entre a cafeicultura e a escravidão. Quando se deflagrou a revolução escrava em 1790, na colônia de Saint-Domingue, hoje Haiti, a população cativa era de 450 mil indivíduos. Essa colônia produzia cerca de 50% da oferta mundial de café.

No entanto, em 1804, o Haiti independente registra um colapso na produção de café justamente quando havia uma demanda cada vez maior no mercado mundial. Com a vinda da família real e a abertura dos portos, ocorreu a dinamização das atividades agroexportadoras na província do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, o café ainda não era um item de exportação.

As terras do Vale do Paraíba fluminense estavam até então assinaladas como terras proibidas, sertões ocupados por índios brabos, termo usado para afugentar os contrabandistas de metais preciosos de Minas Gerais. Com a exploração do ouro de aluvião nos afluentes dos Rios Grande e Negro ocorre uma imigração significativa para aqueles sertões naturais de província de Minas Gerais e de imigrantes portugueses da Ilha da Madeira e dos Açores.

Em razão disso, foram distribuídas terras a esses pioneiros. Após o esgotamento do ouro, converteram a atividade econômica das fazendas na produção de alimentos como milho, feijão e mandioca. De acordo com o historiador Rafael Marquezi, o ponto chave do deslanche cafeeiro foram as fazendas que surgiram ao longo das novas estradas abertas no período joanino, a Estrada do Comércio e a Estrada da Polícia, que articulavam a região de produção de mantimentos no sul de Minas Gerais ao porto do Rio de Janeiro. Outro fator que contribuiu para a economia cafeeira foi a utilização de mulas, vital para o transporte de mercadorias pela Serra do Mar.

A vinda da família real recrudesceu o tráfico intercontinental de escravos aumentando a oferta da mão-de-obra cativa. A pressão inglesa pelo fim desse comércio não logrou êxito. Tudo isso contribuiu para que, em 1830, o Brasil se tornasse um grande exportador de café. Desde o momento em que foi domesticado pelos europeus alterou-se a botânica da planta. Originariamente um pé de café chegava a seis metros de altura. Os holandeses adotaram a prática de decotar os pés de café para que atingissem uma altura máxima de dois metros para facilitar a colheita.

A topografia do Vale do Paraíba fluminense era conhecida como um “mar de morros”. Adotaram nos morros o sistema de plantio dos pés de café com alinhamento vertical, da base até o topo, com considerável distanciamento entre eles. Nas fazendas os escravos eram divididos por turmas, denominados de ternos. Cada terno, composto entre 15 a 25 escravos, era comandado e fiscalizado por um feitor. Inicialmente a obrigação de cada escravo era cuidar de entre mil a dois pés de café. Isso variava de acordo com cada fazenda. Depois se chegou entre três a quatro mil pés de café. No final do século 19, cada escravo era responsável por cinco mil pés de café.

O sistema de plantio de alinhamento vertical nos morros, com alta inclinação, sem respeitar a curva de nível, provocou com o tempo a erosão do solo. Os fazendeiros naquela ocasião tinham consciência de que esse sistema acarretava o seu empobrecimento. Havia propostas para se plantar em curva de nível, mas o raciocínio dos fazendeiros era de que bastava derrubar matas para novas plantações, abandonando os morros improdutivos. As fazendas eram discriminadas na escritura pelo número de pés de cafés, mata virgem e capoeira, essa última, uma área que não presta para a lavoura.

Considerando a prática de desflorestamento, as terras valiam mais pela extensão das matas do que pelo número de cafezais. A decorrência disso foi uma crise ecológica. Morros inférteis e uma diminuição progressiva de chuvas na região. Quem se desloca pelo noroeste fluminense pode constatar a consequência desse sistema de cultivo do café. A erosão grassa no “mar dos morros” e a paisagem lembra, em muito, a caatinga do nordeste do país.

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    A paisagem lembra a caatinga do nordeste do país

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    A erosão grassa no mar dos morros

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    O plantio dos pés de café com alinhamento vertical.

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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