Turismo rural na Fazenda Ribeirão Dourado

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Cantagalo, região da província fluminense para onde imigrou João Antônio de Moraes, futuro primeiro Barão das Duas Barras. Nascido em 1810, João Moraes era originário da província de Minas Gerais. Casou-se com a cunhada Basília Rosa da Silva, viúva de seu irmão Antônio Rodrigues de Moraes. Encarrega-se da administração dos negócios da família, dos cinco sobrinhos e dos quatro filhos que teve com Basília.

Nessa ocasião, o patrimônio da família consistia nas fazendas Santa Maria do Rio Grande, Macabu e a propriedade de 50 escravos. Tornou-se um rico fazendeiro-capitalista acumulando um patrimônio em terras, escravos, pés de café, dívidas ativas e dinheiro em espécie, o que lhe rendeu, em 1867, o título de primeiro Barão das Duas Barras.

Além das fazendas Santa Maria do Rio Grande e Macabu, ao longo dos anos adquiriu outras 20, sendo elas Barra, Bonança, Boa Esperança, Canteiro, Coqueiro, Córrego Alto, Engenho da Serra, Engenho Velho, Freijão, Glória, Grama, Monte Café, Neves, Olaria, Paraíso, Nossa Senhora dos Prazeres do Ribeirão Dourado, Rio São João (em Minas Gerais), Sant’Alda, São Lourenço e Sobrado. Aproximadamente mil escravos trabalhavam nas fazendas da família.

Antevendo o fim da escravidão, a família Moraes acreditando poder mantê-los trabalhando em suas propriedades, libertou-os antecipadamente evitando a evasão como ocorreu em outras fazendas. João Antônio de Moraes, o primeiro Barão das Duas Barras faleceu em 1883. Visitei a Fazenda de Nossa Senhora dos Prazeres do Ribeirão Dourado, hoje no município de Cordeiro. A família inscreveu essa propriedade no sistema de turismo rural. Um Centro de Memória foi instalado na fazenda com acervo de peças antigas da propriedade.

Ao percorrê-lo me chamou a atenção um leque com inscrições em francês utilizado para troca de recados entre os enamorados. Transcrevo uma das mensagens contidas no leque. “Mimi ma cherie, ni le temps, ni la distance n’auront jamais le pouvoir de t’éffacer de mon couer. Ton amie pour la vie. Y.., 2 de março de 1894.” Que em português quer dizer, “Minha querida Mimi, nem o tempo e nem a distância terão o poder de afastar você do meu coração. Teu amante para a vida toda.” O amado não se identifica colocando apenas a primeira letra do nome seguido de pontinhos.

São muitos os recados com diferentes datas escritos nesse leque mostrando a astúcia do casal de amantes. O francês era um idioma comumente falado entre a elite. Até mesmo quando se queixava da canícula a sinhazinha dizia quelle chaleur. Estávamos em uma época em que os namoros eram muitas vezes furtivos, já que os casamentos eram escolhidos pelos pais, atendendo a equivalência social do casal ou mesmo a arranjos políticos. Carruagens e tróleis fazem parte do rico acervo do Centro de Memória.

A família Moraes, além dos barões das Duas Barras, gerou outros nobres na família. José Antônio de Moraes, filho de Basília e do primeiro marido Antônio Rodrigues de Moraes, recebeu o título de Barão de Imbé, em 1884, e cinco anos depois, de visconde. A divisão geopolítica da província do Rio de Janeiro iria alterar bastante com a proclamação da República. Neste arranjo político estiveram envolvidos membros da família Moraes.

Neste contexto foi criado o município de São Francisco de Paula, que recebeu posteriormente o nome de Trajano de Moraes, que era filho de José Antônio de Moraes e Leopoldina das Neves, os viscondes de Imbé. O notório político de Nova Friburgo, Galdino do Valle Filho era bisneto do barão das Duas Barras.

Os Moraes diversificaram sua atividade econômica ainda no período do ciclo do café. Anteciparam-se com a criação de gado antes mesmo da crise do setor cafeeiro, importando matrizes do gado europeu. Introduziram em suas fazendas a raça indiana zebu, o holandês, normando, o semental e o schuwitz. Dedicaram-se igualmente à criação de cavalos, adquirindo exemplares das raças andaluz, campolina, percheron e manga-larga.

Em Nova Friburgo, dos Moraes herdamos o belíssimo palacete edificado no final do século 19, que infelizmente, o governo municipal fez a doação do prédio para a Universidade Federal Fluminense, nos privando desse prédio histórico local. Os Moraes estão na sétima geração e preservam cinco das 22 propriedades rurais da família.

A Fazenda Nossa Senhora dos Prazeres do Ribeirão Dourado, de 500 alqueires, atualmente possui 50 alqueires mineiros. A propriedade possui algum gado, mas a família entende que sua atividade econômica será mesmo voltada para o turismo rural. Aderiram ao roteiro turístico promovido pela Prefeitura de Macuco que inclui igualmente as fazendas Bonsucesso, Benfica e Boa Vista. Faz-se um tour por essas fazendas no mesmo dia pagando um preço único. Vale a pena fazer esse passeio.  

  • Foto da galeria

    Fazenda Nossa Senhora dos Prazeres do Ribeirão Dourado, 1805

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    Interior da Fazenda Ribeirão Dourado, aberta a visitas

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    Nesse leque a astúcia do casal de amantes

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