São José do Ribeirão: outra história esquecida de Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 05 de novembro de 2015

Em artigos anteriores escrevi sobre Sumidouro, que fora freguesia de Nova Friburgo no século 19. Sumidouro conta atualmente com dezenas de casarões históricos, infelizmente desprezados pelo Iphan, Inepac, prefeitura de Sumidouro, e desconhecidos dos friburguenses, daquela que fora a sua mais próspera freguesia no Segundo Reinado. Aproximadamente três décadas depois de sua criação, o termo de Nova Friburgo recebe a anexação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Paquequer e poucos anos depois de São José do Ribeirão. A expansão territorial de Nova Friburgo anexou duas regiões que serão as suas maiores produtoras de café. Qual teria sido o motivo dessas anexações? Algumas décadas antes, colonos suíços e alemães, abandonando as datas de terras do Núcleo Colonial, se instalaram nessas duas freguesias, que ainda eram Capela ou Curato, em busca de terras mais férteis, próprias ao cultivo do café. Pode ser uma explicação.

São José do Ribeirão é um dos mais antigos povoados dos Sertões do Macacu tendo a sesmaria São Simplício, de propriedade João Luiz Ribeiro, como principal latifúndio. Ribeiro ocupou a região e requereu Carta da Sesmaria, em 1802, iniciando atividade agrícola para justificar sua pretensão ao latifúndio. Construiu na região uma capela e um incipiente comércio, destacando-se como fornecedor de gêneros alimentícios aos colonos suíços. Procurou aglutinar a população dispersa das sesmarias vizinhas dando ao arraial dinamicidade, visando criar uma sociabilidade minimizando o isolamento dos latifúndios. Esse arraial, possivelmente com o afluxo de colonos suíços e alemães, se desenvolve de tal maneira que é elevado à categoria de freguesia em 1857, englobando Barra Alegre e Amparo. Há registro de uma vida sociocultural intensa, com o estabelecimento de um colégio, periódicos (jornais) e uma banda de música, a Estrela Fluminense. As lavouras se estendiam pela região sendo essa freguesia, nos parece, a segunda maior produtora de café, depois da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Paquequer. Colonos suíços e alemães se sentiram atraídos por suas terras próprias ao café e para lá se dirigiram provavelmente em proporção maior do que em outras regiões de Nova Friburgo. Os Boechat, os Poubel, os Combat, os Tardin, os Rimes, os Emmerich, os Stutz, os Sardenberg, os Juillerat e os Klein são exemplos da diáspora dos colonos para essa região. Já os colonos alemães Brust, Erthal, Heckert, Miller, Shott e os suíços Marchon, Berçot, Bohrer e Monnerat se dirigiram para onde é o município de Bom Jardim. O guia espiritual dos colonos suíços, o padre Jacob Joye, foi atraído para São José do Ribeirão, lá vivendo desde 1841 até falecer em 8 de julho de 1866, com a idade de 75 anos.  

O censo de 1872 mostra Nova Friburgo com quase metade da população constituída de escravos, sendo que cerca de 80% se concentrava nas Freguesias de São José do Ribeirão e Nossa Senhora da Conceição do Paquequer, onde a produção cafeeira era mais intensa. Percebe-se sua importância política, pois logo após a proclamação da República, São José do Ribeirão ganha status de município, desmembrado, em 1891, do território de Nova Friburgo. Porém, no ano seguinte, revoga-se sua emancipação e volta pertencer a Nova Friburgo. No entanto, em 1892, com a criação do município de Bom Jardim, Nova Friburgo novamente perde São José do Ribeirão para esse município. O distrito de Amparo que se encontrava na circunscrição territorial de São José do Ribeirão é desanexado de Bom Jardim e anexado a Nova Friburgo, em 1911. Recentemente foi localizado em São José do Ribeirão, na propriedade dos Tardin, descendentes de colonos suíços, um cemitério indígena com muitas urnas funerárias. Infelizmente esse rico material foi levado para o Rio de Janeiro impedindo o acesso da população a sua própria história. São José do Ribeirão tem hoje uma praça com alguns casarios antigos em seu entorno, uma linda igreja morro acima e uma belíssima paisagem rural. Vale a pena um passeio a esse esquecido recanto de grande importância na história de Nova Friburgo.

 

  • Foto da galeria

    Boechat,Tardin, Rimes, Emmerich, Stutz, Sardenberg, Klein e etc - colonos europeus que imigraram para São José do Ribeirão

  • Foto da galeria

    São José do Ribeirão se orgulha em ter o Padre Joye enterrado em sua igreja

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