Os 195 anos da imigração alemã em Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 03 de outubro de 2019

A imigração dos alemães para o Brasil está relacionada com a organização do Exército nacional, após a independência. As tropas brasileiras eram milícias formadas em sua maioria por delinquentes recrutados na base do “pau e da corda”. Não havia exercícios militares e a cachaça corria solta nos quartéis. Diante desse quadro, a solução encontrada por D. Pedro I foi a contratação de mercenários europeus. Como os países restringiam a emigração de ex-combatentes, as autoridades brasileiras dissimulavam misturando agricultores e artífices aos mercenários.

Dos dois primeiros navios com imigrantes alemães embarcados no Brasil, uma parte foi destinada a Vila de Nova Friburgo para ocupar as terras abandonadas pelos colonos suíços. Já a partir de 1911, empresários alemães começaram a investir em indústrias têxteis e metalurgia em Nova Friburgo. Eram eles Julius Arp, Maximilian Falck, Otto Siems e Hans Gaiser que instalaram respectivamente as fábricas Rendas Arp, Ypu, Filó e Ferragens Haga.

O município se transformou de uma bucólica cidade veranista para uma urbs com um grandioso complexo industrial. Na Primeira Guerra Mundial vários navios alemães da Marinha Mercante foram detidos nos portos brasileiros. Nova Friburgo foi uma das cidades escolhidas para a detenção de uma parte dos tripulantes. Para abrigá-los, escolheu-se o Sanatório Naval que era muito mais um estabelecimento hospitalar do que uma base militar propriamente dita. Muitos deles foram cooptados pelos empresários alemães para trabalhar nas indústrias locais.

A Segunda Guerra trouxe um grande incremento nas indústrias do município. Mas por outro lado, dividiu a comunidade alemã. Entre os industriais, Julius Arp, Otto Siems e Hans Gaiser eram contrários ao movimento nazista. Já Maximilian Falck apoiava o Partido Nazista criando a Sociedade Alemã cuja sede funcionava em um prédio histórico na Rua Augusto Spinelli.

O Pastor Schlupp foi designado para Nova Friburgo com a missão de dissipar as tensões entre os luteranos. A questão parecia tão grave que acabou estabelecendo domicílio na cidade. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, executivos e técnicos alemães das fábricas foram detidos no Sanatório Naval e a seguir conduzidos para a penitenciária de Niterói por suspeita de participação no Partido Nazista.

Para ficar em apenas um exemplo, a Fábrica Filó foi invadida por uma turba enfurecida e peças de seu mobiliário jogado para o lado de fora. Os alemães ou seus descendentes eram agredidos fisicamente nas ruas e o culto religioso foi proibido. No ano de 1968, a empresa alemã Triumph passou a ter o controle acionário da Fábrica de Filó. Houve uma mudança na fabricação de seus produtos. A indústria passou a produzir lycra, peças íntimas femininas e masculinas, roupa esportiva e moda praia.

Uma crise financeira posterior acarretou a demissão de inúmeros funcionários, em sua maior parte de mulheres. Muitas das demitidas começaram a fabricar e a comercializar peças íntimas femininas em confecções denominadas de “fundo de quintal”. Foram tão bem sucedidas que legalizaram suas atividades e surgiram prósperas empresas nesse ramo. Nova Friburgo passou a ser conhecida no país como a capital da moda íntima e se consolida como polo econômico desse setor. Como bem definiu o sr. Oscar Bertand, a Fábrica Filó foi a universidade da moda íntima.

No que concerne à metalurgia, Hans Gaiser, que emigrara para o Brasil em 1923 e se estabeleceu em Nova Friburgo, tornou-se o precursor da indústria metal mecânica. Instalou uma fundição de ferro para a fabricação de componentes para a construção civil como chaves, trinco, lingueta, gonzo e tranquetas, entre outros. Além da fundição possuía seções de estamparia, usinagem, oficina de ferramentas, cromagem, anodização e niquelagem.

O crescimento e reconhecimento da Ferragens Haga foi de tal ordem que na década de 1960, a indústria produzia componentes para motores, compressores, fechaduras e maçanetas para as indústrias automobilísticas de São Paulo, dando início a fabricação de autopeças em Nova Friburgo. A Ferragens Haga capacitou uma mão-de-obra e qualificou-a de tal forma que atraiu para o município outras indústrias no mesmo setor.

Francisco Faria, ex-funcionário da Haga e fundador da próspera Stam Metalúrgica é um exemplo típico de como essas indústrias qualificavam os seus operários. O Centro Cultural Teuto Friburguense, sob a presidência de Edmilson Schneider, inicia a partir de hoje uma programação em memória dos 195 anos da imigração alemã em Nova Friburgo. O evento ocorre hoje, 3, e amanhã, 4, na Associação Comercial. Na programação, dança folclórica, mesa de debates e palestras. Vale a pena conferir.    

  • Foto da galeria

    Os alemães transformam a cidade veranista em um polo industrial

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    Hans Gaiser o precursor da indústria metal mecânica em Nova Friburgo

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    Membro da família Cleff que imigrou para Nova Friburgo

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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