Imigrantes italianos: os Zagni

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 05 de setembro de 2019

Nas últimas décadas do século 19, a imigração de europeus foi uma das mais importantes mudanças socioeconômicas ocorridas no Brasil. Cerca de 3,8 milhões de estrangeiros imigraram para o Brasil entre 1887 e 1930, em decorrência da forte demanda de trabalho nas lavouras de café, em substituição ao trabalho escravo. O período de 1887 a 1914, concentrou o maior número de chegada desses imigrantes, com aproximadamente 2,74 milhões de pessoas. Os italianos formavam o grupo mais numeroso a fornecer mão de obra para a economia cafeeira, vindo a seguir os portugueses e por último, os espanhóis.

Os imigrantes italianos Zagni são provenientes de Módena, cidade histórica que na Antiguidade era conhecida como Mutina. Em Módena nasceram o cantor de ópera Luciano Pavarotti e Enzo Ferrari, fundador da Scuderia Ferrari. O Ducado de Módena era um estado italiano cujo núcleo se situava no que são as atuais províncias de Módena, Régio da Emília e Ferrara, região da Emília-Romanha. Os Zagni são originariamente húngaros, os Zago, que imigraram para o norte da Itália tendo o nome de família sofrido uma corruptela.

Partiram do Porto de Gênova em 4 de agosto de 1898, no navio francês Les Alpes da Sociétés Générale de Transports Maritimes a Vapeur. O patriarca Flamínio Zagni (40 anos), casado com Felomena Tranchini Zagni (38 anos) viajou no vapor com seus oito filhos, Virgínia (19 anos), Bonfiglio (15), Nicodemos (14), Magdalena (12),  Teresina (9), Beatrice (8), Luigi (6) e Clarice (4). Apenas Clarice faleceu durante a viagem, pois os navios eram insalubres e a mortalidade era natural nessa circunstância.

Chegando ao Brasil e instalados no alojamento da Ilha das Flores, os Zagni, assim como muitos imigrantes italianos, acharam o Rio de Janeiro uma cidade extremamente quente. Em razão disso, muitos seguiram viagem para a Argentina, pois se dizia que o clima se aproximava mais do europeu onde se plantavam macieiras e oliveiras. Nessa ocasião, três países estavam recebendo imigrantes italianos, o Brasil, os Estados Unidos e a Argentina.

A passagem era paga pelo governo brasileiro ou pelo próprio fazendeiro que os cooptara. Eram na maioria imigrantes pobres e agricultores. Alguns eram carpinteiros, chamados de carapinas e outros entalhadores de pedra. Agenciadores percorriam o pavilhão dos imigrantes na Ilha das Flores oferecendo vagas nas fazendas. A família Zagni optou pelas terras de São Sebastião do Alto, no Noroeste Fluminense. Assim como eles foram para São Sebastião do Alto os Bianchini, Segalotti, Latini, Pietrani, Bolorini, Temperini, Boquimpani, Stanísio, Topini, Montechiari, Chimini, Polloni, Topini, Broglia, Angelis, Giampaoli, Storani, Tambesi, Baldoni, Forconi, Tacconi, Cimini, Pianesi, Bartola, Moriconi, Lelli, Temperini, Fratani, Badini, Sagretti, Talarico, Castricini, Pietrani, Bonan, Bollorini, Campagnucci, Bochimpani, Margaratini.

A fazenda que mais concentrou imigrantes italianos em São Sebastião do Alto foi a Fazenda São Marcos, do coronel Cornélio de Souza Lima.  Os italianos vieram na condição de colonos e o contrato de trabalho era de parceria, recebendo o proprietário um terço ou metade da produção. Os Zagni foram para a Fazenda Bom Jardim pertencente ao coronel Antônio Gonçalves Jardim, um latifúndio com mais de cinco mil hectares com plantações de café.

A Fazenda Bom Jardim começava desde a saída de Valão do Barro, no Morro do Tuna, irmão do coronel Jardim, estendendo-se até a ponte do Rio Negro. A casa de vivenda era de pedra e tinha um moinho d´água, um açude, um alambique e um terreiro de pedra para secagem do café. Os Zagni receberam uma pequena área para fazer suas roças e criar pequenos animais. Os colonos estranharam as ferramentas da lavoura no Brasil, bem diferentes às da Itália, bem como o hábito de tomar banho todos os dias.

O filho do coronel Jardim, Ulisses Gonçalves Jardim, apaixonou-se pela filha do colono Flamínio Zagni, Virgínia, sendo que desse casamento nasceram oito filhos: Vitória Gonçalves Jardim, Alice Gonçalves Jardim, Antônio Zagni Jardim, Grimaldino Gonçalves Jardim, Genésio Gonçalves Jardim, José Gonçalves Jardim, Maria Gonçalves Jardim e Bibiana Gonçalves Jardim. Virgínia, devido aos duros trabalhos na lavoura, contraíra uma tuberculose mal curada e faleceu precocemente. O apaixonado Ulisses se suicidou seis meses após a morte de Virgínia.

Havia naquela época a promessa do governo brasileiro aos imigrantes que depois de trabalharem por alguns anos como colonos para os proprietários das fazendas de café, receberiam terras próprias. Os Zagni, e nos parece, as demais famílias de colonos italianos jamais receberam um quinhão de terras. No Livro dos Estados, os Zagni aparecem em meados do século 20, como fazendeiros proprietários, com o nome de família alterado para Zague.

Oscar Arêas Jardim, bisneto do patriarca Flamínio Zagni, exibiu com orgulho o Centro de Memória  família Zagni, criado por ele. Situado em um sítio no Alto do Catete, a fachada é a representação de um castelo em estilo medieval, um tributo à memória de seus antepassados.  

  • Foto da galeria

    Bonfiglio Zagni casa-se com uma linda cabocla

  • Foto da galeria

    O filho do proprietário da fazenda apaixona-se pela colona italiana Virgínea

  • Foto da galeria

    Oscar Jardim construiu um Centro de Memória da família Zagni

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