A horta de Dona Zali

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 07 de novembro de 2019

Instalando-se para ficar definitivamente no Brasil, o português recriou o ambiente familiar, cercando-se de currais, quintais e hortas. A disposição e variedade da horta lusitana introduzida no Brasil indica sua preferência pelos legumes e hortaliças. Fui até o distrito de São Pedro da Serra conhecer a horta de Dona Zali. Ela vende hortaliças para a comunidade local, colhidas na hora, à escolha do freguês.

Filha de Joaquim Albino Barroso e de Fany Caroline Gracini, Zali e seus 11 irmãos nasceram na Bocaina dos Blaudt. Aprendeu com a mãe e a avó as propriedades medicinais das plantas e hortaliças. Percebi que ela possui uma verdadeira farmácia em sua casa. Na antiguidade, os egípcios faziam a ligação entre a dietética e a gastronomia, sendo grandes conhecedores da farmacopeia e das propriedades das ervas medicinais.

Plantas, frutas e ingredientes empregados na alimentação eram também citados nos livros de remédios. Na composição das carnes gordurosas usavam hortaliças para minimizar os efeitos nocivos. No cozimento da carne de ganso, por exemplo, utilizavam o funcho, que ajuda na digestão e combate colites, e a chicória, rica em substâncias depurativas.

Na horta de Dona Zali existe uma particularidade. Um tipo de hortaliça, legume e fruta consumidos no passado, por falta de comercialização no mercado estão desaparecendo. São eles a azedinha, muito boa para o sangue, o tomate dos índios ou tomate da Índia, bom para a próstata e a uvaia, uma frutinha pequena de cor amarela e que dá um suco muito saboroso e nutritivo.

Fui percorrendo a horta de Dona Zali e indagando sobre a propriedade das plantas. Segundo ela, o funcho é ótimo para a cólica de crianças recém-nascidas e pode-se usar a folha ou a semente seca. Alecrim é bom para sinusite, para fazer inalação e também para depressão. Arruda serve para a reza e para inflamação nos olhos. Para que sofreu uma pancada ou torção faz-se um emplastro de saião socado com sal e põe-se a mistura na parte do corpo. Pode ser igualmente bebido, fazendo-se um xarope, para quem tem bronquite. Hortelã é calmante e bom para quem tem vermes.

Dona Zali tomava leite com hortelã, pois no passado os vermes eram muito comuns entre as crianças. O chá de alho também é bom para os vermes assim como a erva de Santa Maria com óleo de rícino. Quanto a marcela branca, o chá da folha é bom para indigestão. Erva doce é um calmante e bom para intestino preso. Malva para dor de dente, gengiva e um excelente anti-inflamatório. O pé de fumo é ideal para banhar erisipela e para combater as pragas na lavoura. Pegam-se as folhas e põem-nas em um latão com água deixando de molho por três dias. Com essa mistura pulverizam-se as hortaliças para matar as pragas.

Com a folha do alevante faz-se o xarope e é muito bom para quem tem problema de pulmão, tosse e principalmente para os bebês. Uma dica é a erva-macaé que as pessoas idosas devem tomar diariamente. Assim fazia a sua mãe e aprendeu com ela. Macera-se a erva-macaé, adiciona-se a um copo d´água, coa-se e bebe-se a mistura. É bom para tudo. Já a raiz da salsinha seca ou fresca é boa para os rins.

Dona Zali me deu uma receita completamente inusitada para se preparar couve. Lava-se a couve, seca-se bem e coloca-a no forno a uma temperatura de 160 graus. Após adiciona-se sal a gosto e ela fica crocante e deliciosa. A preferência por hortaliças é algo recente em nossa história, pelo menos é o que percebemos no estado fluminense. No passado eram consumidos apenas legumes como abóbora, aipim, inhame, batata doce e eventualmente a batata inglesa.

Parece-nos que as hortaliças passaram a fazer parte do cardápio no estado fluminense a partir de meados do século 20, possivelmente pela influência de imigrantes japoneses que introduziram técnicas de cultivo tornando a produção de hortaliças mais rentáveis. Dona Zali também faz sabão em casa como faziam a sua mãe e a sua avó. Ela faz sabão a cada vez utilizando três garrafas pet grandes de óleo usado que ela ganha dos vizinhos.

Coloca-se uma porção de cinza de fogão à lenha sobre um saco de estopa e  joga-se água fervendo sobre essa cinza, como se coa o café. A essa mistura de cinza com água denomina-se barrela. Adiciona-se a barrela ao óleo e bate-se essa mistura até engrossar e dar o ponto de sabão, que é exatamente quando o óleo desaparece. Pode-se acrescentar óleo de eucalipto à mistura para o sabão usado na higiene pessoal. No passado, ao invés de óleo era usado fato (tripas) de boi. Refogava-se o fato e ia-se jogando a barrela por cima.

Zali Barroso Leal está cadastrada no ponto de cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro pela sua sabedoria no manuseio de plantas com qualidades medicinais.

  • Foto da galeria

    A simpatia de Dona Zali ao lado do marido.

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    Dona Zali vende hortaliças para a comunidade local e colhidos na hora.

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    O colonizador português recriou o ambiente familiar, cercando-se de curral, quintal e horta.

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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