Geração bendita. É isso aí bicho! - Parte 1

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Caminhando, no Quiabo’s vou chegar

Uma comunidade hippie se instalou em um sítio em Vargem Alta, em Nova Friburgo, no final da década de 1960, do século 20. Isso deu o que falar na cidade. Em dois artigos vamos narrar o que representou esse acontecimento e sobre os seus principais atores. Assim como os outros grupos da contracultura, o movimento hippie teve seus primeiros registros nos Estados Unidos entre os anos 50 e 60, do século passado.

A contracultura designava um conjunto de manifestações culturais que se opunha à situação vigente. Os precursores dos hippies foram os beatniks formado em sua maioria por poetas boêmios como Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg que nos anos 50, criaram um novo estilo de contestação. Já os hippies eram em sua maioria jovens das classes altas e médias dos centros urbanos. Adotavam a vida em comunidade fugindo das regras de comportamento estabelecidas e buscando a construção de uma sociedade alternativa. A liberdade, o psicodelismo e a pacifismo eram os seus paradigmas.

No final dos anos 60, mesmo sendo o pai proprietário de um dos maiores hotéis da cidade, o Hotel Sans Souci, Karl Kohler, conhecido como Carlinhos, se mudou para o sítio Quiabo´s, de propriedade da família, e lá vendia os produtos de sua lavoura. O sítio Quiabo´s era localizado em Vargem Alta, no distrito de São Pedro da Serra. 

Com o tempo foram chegando outros adeptos da filosofia hippie e se instalaram nas três casas de colonos do sítio Quiabo´s. Eram aproximadamente 70 e formavam uma das primeiras comunidades hippies no Brasil. Todo esse acontecimento deu origem ao filme que se tornou um cult na historiografia do cinema nacional, “Geração Bendita”. Para sobreviver plantavam flores de corte, como rosas e palmas e faziam artesanato vendendo no centro de Nova Friburgo.

Um dos hippies da comunidade Quiabo´s era Carlos Roberto Bini, friburguense, 29 anos, que havia abandonado a carreira de advogado para viver nessa comunidade. Carlos Bini, que já havia realizado dois curtas-metragens, “Cristo Afogado” e “Erotismo”, começou a fazer registros filmando o cotidiano no sítio. A partir dessa iniciativa, Kohler teve a ideia de produzir um longa-metragem. O roteiro foi autobiográfico da vida de Bini contando a história de um advogado que resolve abandonar a carreira e se juntar à comunidade hippie. O protagonista vive um romance proibido com uma moça de classe média e de família tradicional que estava noiva. Com muita dose de humor os hippies são perseguidos pelas insistentes catequeses de um pastor da igreja Batista. A produção do filme é de Karl Kohler e Carlos Doady e a direção de Carlos Bini.

O francês Fritz Meldy Lucien Mellinger, ex-assistente do cineasta francês Claude Deluxe foi contratado como diretor de fotografia. O filme começou a ser rodado em agosto de 1970, tendo como elenco a comunidade hippie Quiabo's interpretando o seu próprio estilo de vida. Além deles, contou com a participação secundária de friburguenses como Augusto Spinelli, os irmãos João e Renato Côrtes Teixeira, Carlos Rosemberg, José Carlos Thurler Ruiz, Carlinhos Guimarães e Paulo Carvalho, pessoas que mais tarde seriam muito conhecidas e respeitadas na sociedade friburguense.

O filme “Geração Bendita”, além de ser um relato sobre o estilo de vida hippie aborda a sua difícil relação com a sociedade friburguense. O filme é documental, daí o seu inestimável valor, pois mostra fielmente a cultura hippie da época. No entanto, as filmagens começaram a incomodar a elite friburguense. Três meses depois de iniciadas, o delegado Amil Nei Richard prendeu os participantes durante uma cena realizada no centro da cidade. O policial determinou que fossem cortados os cabelos longos dos homens e a barba escanhoada. Proibiu-lhes igualmente de usar roupas coloridas e exóticas.

Os hippies que não eram friburguenses foram obrigados a deixar a cidade em cinco dias. Houve protestos da população contra a arbitrariedade do delegado. Amil Richard declarou temer que os hippies estivessem aliciando jovens friburguenses para a sua comunidade e ordenou a sua prisão “para defender a cidade de tipos exóticos, sem sexo definido que estavam infestando a região”. Os diretores e produtores foram  presos.

De acordo com uma reportagem do jornal O Dia, o delegado não admitia jovens cabeludos portando trajes exóticos, falta de asseio e com vaidades próprias do sexo feminino como o uso de cordões e pulseiras. Ainda segundo ele, a apologia ao amor livre e a promiscuidade era incompatível com as tradições e valores cristãos da população friburguense.

Continua na próxima semana.

  • Foto da galeria

    Friburgo abrigou uma das primeiras comunidades hippies do Brasil

  • Foto da galeria

    O francês Fritz Mellinger foi o diretor de fotografia

  • Foto da galeria

    Os hippies plantavam flores de corte e vendiam no centro de Friburgo

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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