Fazenda Santa Inês, trabalho e fé - Parte 1

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Visitei a Fazenda Santa Inês, em Paraíso do Tobias, segundo distrito do município de Miracema, no Noroeste fluminense. Trata-se de uma propriedade rural que passou por múltiplos ciclos econômicos como do açúcar, do café e do algodão, além da rizicultura paralelamente ao cultivo desse último. Atualmente sua atividade econômica está voltada para a pecuária de leite e de corte.

A pesquisa dessa propriedade nos permite conhecer, através de uma análise da micro história, todo o processo econômico do Noroeste fluminense. A história da Fazenda Santa Inês tem início com a família Monteiro de Barros, natural de Andrelândia, Minas Gerais, município com base econômica na mineração. No início do século 19, Antônio Bernardino de Barros era proprietário da sesmaria das Três Ilhas, hoje São José das Três Ilhas, distrito de Belmiro Braga, em Minas Gerais.

Ele amealhou imensa fortuna com a atividade agrícola e dois de seus filhos, igualmente prósperos fazendeiros, foram agraciados pelo imperador Dom Pedro II com os títulos de Barão de São José D’El Rey e Barão das Três Ilhas. A partir do final do século 18, houve uma vaga de imigração de mineiros e de portugueses da Ilha da Madeira e dos Açores para o Noroeste fluminense. A família Bernardino de Barros é um desses exemplos.

Aproximadamente em 1870, quatro dos Bernardino de Barros adquiriram propriedades na província fluminense, o que seria hoje o município de Santo Antônio de Pádua. Entre eles, Francisco Bernardino de Barros, proprietário da sesmaria Fazenda Santa Inês. O declínio da mineração em Minas Gerais pode ter sido um dos fatores da emigração dessa família. Francisco possuía ainda outras fazendas como Mantinéia, Pyrineus, Prosperidade, Santana, União, Santiago e São Felipe, administrada por seus filhos.

Na Fazenda Santa Inês, ele possuía lavoura extensiva de café, cana-de-açúcar e de milho. No engenho construído em sua propriedade a usina produzia açúcar e álcool. Residindo em uma morada de pau a pique, iniciou a construção de uma casa de vivenda para maior conforto da família. No entanto, ocorre a abolição da escravidão e a evasão dos escravos da fazenda.

Nos parece que Francisco Bernardino ficou sem mão-de-obra para a colheita das próximas safras de café e de açúcar. Descontente com a maneira como foi conduzido o fim do trabalho escravo, Francisco Bernardino retornou à sua Fazenda Três Ilhas, em Minas Gerais, falecendo pouco tempo depois. Em 1902, a Fazenda Santa Inês passou a ser de propriedade de Antônio Ventura Coimbra Lopes e seu irmão mais velho, José Ventura Lopes, igualmente mineiros.

Antônio Lopes tinha apenas 12 anos de idade quando para lá se mudou com o seu irmão. A Fazenda Santa Inês possuía 120 alqueires geométricos. Os irmãos Coimbra Lopes adquiriram outras terras nas proximidades, anexando à fazenda aproximadamente mais um mil hectares. Naquela ocasião, o trabalho nas fazendas era executado por colonos e o contrato de trabalho em regime de parceria, recebendo o proprietário um terço da produção.

Mais de 100 famílias residiram na Fazenda Santa Inês havendo uma escola para a educação dos filhos dos colonos. A população era estimada em cerca de mil pessoas, distribuídas em aproximadamente 120 casas de colonos existentes ao longo da propriedade. Era uma verdadeira cidadela existindo uma venda onde faziam compras e eram feitos negócios e transações entre os proprietários da fazenda e os colonos.

No campo da sociabilidade havia um salão de bailes, espaço para jogar raia de malha, realizar festas juninas, do boi pintadinho e do mineiro pau. Muitos colonos dessa fazenda se estabeleceram posteriormente como pequenos proprietários rurais autônomos e no comércio, fruto de suas economias no trabalho do campo.

Sob a administração de Ventura Lopes a Fazenda Santa Inês produziu em grande escala café, cana-de-açúcar, milho, feijão e arroz. Na crise econômica mundial de 1929, com a consequente queda no preço do café, a Fazenda Santa Inês passou a ser a grande produtora de algodão, superando as outras culturas agrícolas. Abasteceu as fábricas de tecelagem das regiões norte e serrana do Estado do Rio de Janeiro, inclusive a tradicional Fábrica de Tecelagem São Martino, em Miracema.

Na segunda década do século 20, o segundo distrito de Miracema deu enorme contribuição para os cofres públicos do município de Santo Antônio de Pádua, não recebendo, em contrapartida, investimentos na localidade. Isso acarretou um descontentamento da população daquele distrito e no ano de 1906, iniciou-se uma campanha separatista de Miracema do município de Santo Antônio de Pádua. Continua na próxima semana.  

  • Foto da galeria

    No engenho, a usina produzia açúcar e álcool

  • Foto da galeria

    Casa de pau a pique da Fazenda Santa Inês

  • Foto da galeria

    Francisco Bernardino de Barros, ao centro, sentado, em 1892

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Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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