Fazenda da Cachoeira do Amparo: O coronel Chon-chon - Parte 1

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A Fazenda da Cachoeira do Amparo é histórica. Está localizada no distrito de Amparo e começou suas atividades ainda no século 19, sob o comando de uma das famílias mais importantes de Nova Friburgo, os Neves. A história dessa região tem início com a Fazenda de São Simplício, um latifúndio que possivelmente naquela ocasião tinha uma extensão de 2.178 hectares. Há divergência entre os historiadores se teria pertencido a Elias José Caetano ou a João Luiz Ribeiro.

De qualquer forma, a história de Amparo tem início a partir da Fazenda de São Simplício. No ano de 1858, foi criada a Sociedade Fundadora da Freguesia de São José do Ribeirão com o objetivo de vender ou aforar glebas de terra da Fazenda de São Simplício. Desmembrado, esse latifúndio daria origem não só a muitas outras fazendas como igualmente a freguesia de São José do Ribeirão.

Transformar-se em freguesia era resultado do crescimento demográfico e econômico. Isso ocorreu principalmente pela migração de colonos suíços e alemães para essa região em busca de terras mais quentes para o cultivo do café. No ano de 1879, uma dessas glebas de terras da outrora Fazenda de São Simplício foi adquirida por José Antônio Marques Braga, denominando-a de Fazenda da Cachoeira do Amparo.

Normalmente as fazendas tinham o nome de um santo ou de uma indicação geográfica, e no caso dessa propriedade, recebeu o nome de uma belíssima cachoeira que existia no local. Marques Braga vendeu essa propriedade para o seu meio irmão, o coronel Galiano Emílio das Neves Junior. Posteriormente outras glebas de terras foram sendo adquiridas e anexadas à Fazenda da Cachoeira do Amparo, passando a propriedade a ter 250 alqueires ou 680 hectares, aproximadamente 30% da extensão da outrora Fazenda de São Simplício.

A história da família Neves teve início com os irmãos Galiano Emílio, Galdino Emiliano e Joviano Firmino. No século 19, deixaram a Vila de São João del Rei, em Minas Gerais e se estabeleceram na Vila de Nova Friburgo. O coronel Galiano Emílio das Neves foi quem primeiro residiu na vila serrana. Nascido em São João del Rei em 1826, foi para o Rio de Janeiro ingressando no Curso de Medicina. Vítima da tuberculose interrompeu os estudos na faculdade e fixou residência em Nova Friburgo, cujo clima salubre ajudava na convalescência dessa doença.

Os irmãos Galdino Emiliano e Joviano Firmino das Neves seguiram os passos do irmão. O coronel Galiano Emílio das Neves casou-se com a viúva Josephina, filha de família franco-suíça, proprietária do Hotel Salusse. Trocou o amanho da terra pela educação e pela política. Adquiriu na vila o Instituto Colegial, do inglês John Freese, e lecionava nesse estabelecimento de ensino. Foi vereador em diversos mandatos participando da política local.

Galiano Emílio das Neves faleceu no ano de 1916, aos 90 anos de idade. Seu filho Galiano Emílio das Neves Júnior o sucedeu na política local. Galiano Júnior, conhecido como coronel Chon-chon, era um político influente e um fazendeiro dedicado ao plantio do café. Além da Fazenda da Cachoeira do Amparo possuía a Fazenda de São Bento, que na ocasião fazia parte de uma freguesia de Nova Friburgo e que hoje pertence ao município de Sumidouro.

Na Fazenda de São Bento, por se situar nas Terras Frias, Galiano Júnior não pôde cultivar o café, mas aproveitou a baixa altitude de Amparo para plantar esse tipo de cultura. Tudo indica que a Fazenda da Cachoeira do Amparo se tornou a mais importante unidade produtiva de Nova Friburgo. No ano de 1920, registrou uma produção de 12 mil arrobas de café, além do cultivo de cana-de-açúcar e cereais, conforme o Caderno Terra Fluminense.

Galiano Júnior realizou diversas benfeitorias na propriedade. Mandou construir em cantaria as banquetas que conduziam a água para o engenho de café, importou da Inglaterra uma enorme roda d’água que tocava as roldanas e beneficiava o café que descia pelas peneiras. Sua administração na fazenda foi no período de 1890, até o seu falecimento em 29 de agosto de 1922.

Após a morte de Galiano Júnior a Fazenda da Cachoeira do Amparo passou a ser administrada por seu filho José Galiano das Neves. Esse último acrescentou um andar superior na casa-sede da fazenda, realizou diversas benfeitorias e deu continuidade a atividade econômica da propriedade. Com o decorrer dos anos passou a administrar somente a Fazenda de São Bento, deixando a administração da Fazenda da Cachoeira do Amparo com a sua mãe Dona Vitalina Fontes das Neves.

Em uma foto no ano de 1935, podem-se ver os dois terreiros de secagem de café repletos de grãos. Isso significa que a família Neves resistiu ao colapso de 1929, crise essa que provocou a falência de muitos fazendeiros nesse ramo de negócio. No entanto, com o passar dos anos as lavouras de café na Fazenda da Cachoeira do Amparo foram sendo reduzidas e dando lugar a culturas de flores, banana, feijão e milho. Continua na próxima semana.

  • Foto da galeria

    Coronel Galiano Emílio das Neves Junior

  • Foto da galeria

    Galiano Junior além fazendeiro participava da política local

  • Foto da galeria

    Sede original da Fazenda da Cachoeira do Amparo

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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