Família Mendes: a elite latifundiária das Terras Frias

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O município de Nova Friburgo possui oito distritos: (sede), Riograndina (2°distrito), Campo do Coelho (3°), Amparo (4°), Lumiar (5°), Conselheiro Paulino (6°), São Pedro da Serra (7°) e Mury (8°distrito). Dentre esses, quase todos são distritos agrícolas com exceção do primeiro e do sexto distrito. Todavia, é Campo do Coelho que possui o maior número de propriedades rurais e responde pela maior parte da produção agrícola friburguense.

No século 19, o atual 3º distrito fazia parte da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Ribeirão da Sebastiana e era conhecida como Terras Frias. Era a entrada de Nova Friburgo para quem subia a serra e a imagem da subida por tropeiros, com as montanhas dos Três Picos ao fundo, está retratada na litografia “Caminho dos Órgãos”, do artista suíço Johann Jacob Steinmann(1800-1844).

Estavam localizadas nas Terras Frias a Fazenda São Lourenço, uma das propriedades do primeiro Barão de Nova Friburgo, e a Fazenda Córrego D’Anta reservada ao Rei D. João VI. Um rio importante, o Rio Grande de Cima, atravessa toda a extensão das Terras Frias. Esse rio nasce no maciço do Caledônia e desce sinuosamente o vale de São Lourenço, recebendo em seu curso a contribuição das micro bacias dos Três Picos, Salinas, Santa Cruz, Centenário e Conquista.

A atividade econômica das Terras Frias era a plantação de batata, mandioca e cana-de-açúcar, com engenhos de fabricação de farinha de mandioca, de açúcar e de aguardente. Plantavam-se igualmente roças de milho e feijão. Por ser o ponto mais alto de Nova Friburgo, com 910 metros de altitude, os proprietários de terras dessa região ficaram à margem da economia cafeeira do Vale do Paraíba fluminense, dedicando-se tão somente à produção de gêneros alimentícios.

Não se cultivava o café em áreas acima de 600 metros do nível do mar, nas denominadas “terras frias”. Porém, tudo indica que a sua principal atividade econômica provinha da criação e comercialização de animais de carga com os tropeiros. Por ser lugar de passagem de tropas e intercâmbio de mercadorias, o povoado das Terras Frias se desenvolveu e em 26 de dezembro de 1862, a lei provincial 1.270, eleva o Curato à Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Ribeirão da Sebastiana.

Em 1872, a população livre das Terras Frias era de 1.828 habitantes, com 548 escravos. Foi para essa região que se dirigiu Antônio José Mendes, originário dos Açores, em Portugal. De acordo com a memória familiar, Antônio José Mendes (1822-1921) era caixeiro viajante e tornou-se muito próspero, possuindo dois mil alqueires nas Terras Frias. Casou-se com Mariana Rime (1835-1914) e tiveram 12 filhos, dos quais seis permaneceram solteiros.

Os Rime são descendentes de imigrantes suíços e parece terem enriquecido em Cantagalo com o plantio de café, um deles tendo recebido o título de Barão de Rime. Em razão de estratégias de casamentos, os Mendes se unem a uma elite latifundiária como os Barbuda, Veiga, Aguiar e Salles. Vemos adiante o resultado dos arranjos matrimoniais entre essas famílias, como por exemplo, Maria Madalena Mendes (1880-1955), Luiza Mendes Veiga (1863-1939), José Alves da Veiga Barbuda (1856-1922), Leonor Mendes da Veiga (1905-1985),  Manoel Veiga (1891-1974),  Cypriano Mendes da Veiga (1907-1979) e finalmente José Alves da Veiga Barbuda (1856-1922), casado com Luiza Rime Mendes (1863-1939).  

Com isso, os Mendes aumentaram significativamente o seu patrimônio. Raramente compravam terras pagando em dinheiro. Aumentavam a extensão de suas propriedades através de permuta, trocando áreas de terras por um rolo de fumo ou um corte de tecido. Como o dinheiro mal circulava nas Terras Frias, predominando internamente o escambo, negociavam dentro dos padrões e práticas da época. O prestígio social de possuir grandes domínios conduzia esses proprietários a ampliar ainda mais a extensão de seus latifúndios.

Já no século 20, os Mendes organizaram um espaço para comercialização dos produtos da lavoura dos pequenos e médios agricultores do 3º distrito, o Barracão dos Mendes, em que o Ceasa faz atualmente esse mesmo papel. A história da família Mendes é de imensa importância na formação econômica de Nova Friburgo. Fica nesse artigo uma provocação para que a nova geração de historiadores pesquise sobre os Mendes e nos conduza a uma das mais instigantes passagens de nossa história.

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    Antônio José Mendes, com seu filho Pedro José Mendes. Acervo Sônia Mendes

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    José Alves da Veiga Barbuda, Luiza Mendes Veiga e os filhos na Fazenda Campestre. 1917. Acervo Joana Mendes.

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    Os Mendes se unem a uma elite latifundiária como os Barbuda, Veiga, Aguiar e Salles. Acervo Sônia Mendes

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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