É possível imaginar Friburgo sem as bandas de música?

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 06 de dezembro de 2018

Prática cultural presente no cotidiano da cidade, é difícil imaginar um evento em Nova Friburgo, no final do século 19, que não tivesse a presença das bandas de música tocando retretas, polcas, mazurcas e schottisches. Muito diferentes das bandas que nos dias de hoje limitam a execução em espaços fixos, as bandas de outrora tinham mobilidade e circulavam tocando dobrados e retretas pelas ruas da cidade.

Estavam presentes nos casamentos, aniversários, comícios, leilões, circos, passeios campestres, procissões religiosas, carnaval, teatro e nos funerais. As bandas de música pontuavam os acontecimentos e estavam presentes nos momentos e espaços de sociabilidade. Das soirées mais elegantes como no mais popular dos bailes não havia um momento em que não houvesse a presença das “furiosas” abrilhantando o evento.           

A banda de música é uma prática cultural herdada da colonização portuguesa. A charamela foi um instrumento europeu trazido pelos portugueses muito utilizado pelos escravos, os escravos charameleiros, que formavam geralmente ternos e quaternos de charamelas, agrupamentos muito comuns em Portugal, no século 17, e que se multiplicaram pelas fazendas e vilas do interior do Brasil.

Tudo indica que os conjuntos de charameleiros formados por escravos foram os antecessores das bandas de música tal como a conhecemos hoje. Manter um conjunto musical era para os fidalgos, sinal de abastança e bom-tom, à maneira das cortes europeias. No Brasil Colônia, fazendeiros mantinham bandas formadas por escravos para entreter seus convidados, sendo considerado um indício de civilidade do anfitrião. Há ainda a referência às antigas bandas de barbeiros formadas por africanos libertos.

Em Nova Friburgo existem duas bandas que remontam ao século 19: a Euterpe e a Campesina. A Sociedade Musical Beneficente Euterpe Friburguense é a banda de música civil mais antiga do país em funcionamento ininterrupto. Fundada em 26 de fevereiro de 1863, de acordo com a memória oral, tem origem na perseverança e fé do maestro português Samuel Antônio dos Santos.

Em travessia marítima e diante de uma forte tempestade, devoto de Santo Antônio, prometeu que se sobrevivesse a essa intempérie, fundaria uma banda de música e ergueria uma igreja ao santo protetor. Instalando-se na Vila de Nova Friburgo, com apoio do Barão de Nova Friburgo, Samuel fundou a Sociedade Musical Euterpe Friburguense. A promessa de construir o templo também foi cumprida com a participação da banda que animava quermesses e arrecadava recursos. Inaugurou a capela de Santo Antônio, em 1884, na Praça do Suspiro.

Já Sociedade Musical Campesina foi criada em 1870, tendo como seus fundadores o major Augusto Marques Braga, o coronel Galiano das Neves, entre outros. Igualmente de acordo com a memória oral, surgiu da necessidade de os músicos tocarem nos comícios dos republicanos pois como integrantes da Euterpe não poderiam fazê-lo, por estarem comprometidos com os monarquistas. Em razão disso, passou a ser conhecida como a banda dos republicanos. Seus instrumentos foram doados pela família Galiano das Neves do extinto Colégio Freze, e por isso, o nome Campesina Friburguense é uma adaptação das iniciais C.F. daquele colégio, estampadas nos instrumentos musicais. Nas últimas décadas, a Campesina passou a ser considerada como de utilidade pública federal e elevada ao status de orquestra sinfônica.

Há quem afirme que a longevidade dessas duas bandas durante décadas, permanecendo até os dias de hoje, deve-se à animosidade e concorrência existente entre elas. Bailes, casamentos, aniversários, picnics, teatro, circo, soirées dançantes, leilões, procissões, funerais, comícios políticos, homenagens, carnaval ou o “passeio” banal pelas ruas da cidade.

No passado, era impossível imaginar qualquer forma ou espaço de sociabilidade em Nova Friburgo sem a presença das bandas.

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    A bandas circulavam tocando dobrados e retretas pelas ruas

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    Banda Euterpe no século 19

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    Impossível imaginar qualquer forma ou espaço de sociabilidade sem a presença das bandas

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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