Cervejas de Friburgo - uma herança da imigração alemã?

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

sexta-feira, 03 de maio de 2019

Nova Friburgo recebeu em 1824, imigrantes germanos para substituir os suíços que abandonaram as terras recebidas pelo Rei Dom João VI, em razão de sua má qualidade. Lembrando que a Alemanha somente seria unificada em 1871, e antes disso, era constituída por 39 estados divididos em reinos, ducados e cidades livres. Por determinação de D. Pedro I, em 3 de maio de 1824, chegaram à Vila de Nova Friburgo 342 imigrantes germanos, sendo 214 homens solteiros. Os germanos trabalharam como agricultores e alguns como artífices, ferreiros.

Na primeira metade do século 19, a cerveja consumida no Brasil era importada da Inglaterra. Com a chegada de imigrantes germanos ao Brasil naquele século, o país passa a ter a produção de cerveja em escala industrial. Em 1861, o alemão Pedro Gehart solicitou à Câmara Municipal da Vila de Nova Friburgo licença para abertura de uma fábrica de cerveja, mas desconhecemos sobre o seu negócio. Foi o descendente de suíços Albano Beauclair quem instalou, em 1893, uma fábrica e igualmente uma cervejaria na Vila de Nova Friburgo.

Albano de Beauclair era mestre cervejeiro formado pela Escola de Cervejaria de Worms, na Alemanha. Possivelmente abriu esse negócio em razão da notória qualidade da água da vila serrana, conhecida notadamente por suas características medicinais. Lembrando que 90% da cerveja é constituída por água. Beauclair importara o maquinário da Alemanha e adotava o sistema de Munich no processo de fabricação.

De acordo com o jornal O Friburguense, ele produzia em média 22 mil garrafas mensalmente. No verão utilizava o resfriador Patent de Neubecker, um engenhoso aparelho para manter a cerveja gelada. A marca da cerveja era Friburgo Brau e muito exaltada no jornal. Além da fábrica, podia-se desfrutar da Cervejaria Beauclair, um tipo de biergarten situada em um sítio aprazível à margem do Rio Santo Antônio na entrada da cidade.

O conceito de cervejaria que se difundira no século 19, as denominadas biergartens, eram geralmente situadas em áreas arborizadas, com jardins e próximas a um rio onde se espalhavam mesas e bancos de madeira. Em 1907, Albano Beauclair arrenda a fábrica a Bernardo Dias, mas continua a prestar seus serviços. O novo proprietário muda a razão social para Fábrica de Cerveja Germânia. A germânia era descrita como de cor topázio e espuma argêntea. Há o registro de que possuía máquinas de pasteurização, lavagem das garrafas, arrolhamento etc. As garrafas tinham rótulos litografados em letras art noveau com o nome de Germânia impresso em vermelho. As rolhas de cortiça presas por arame foram substituídas pelo sistema teutônia. Nos parece que a Fábrica Beauclair funcionou até a década 1930, tendo como seus últimos proprietários Lima Jaccoud & Companhia.

Outra cerveja produzida em Nova Friburgo no final do século 19, foi a Cerveja Suspiro, de propriedade de Gonçalves & Bastos, fabricada até os anos de 1940, e depois a marca passa a pertencer a Vaz Corrêa & Cia. Essa mesma empresa fabrica a cerveja com a marca Pátria, de sabor adocicado. A partir de 1911, empresários alemães investem em indústrias têxteis e metalúrgicas em Nova Friburgo, colocando o município na era industrial.

Desde então há uma constante imigração de técnicos alemães para trabalhar em Nova Friburgo. No distrito de Mury, com forte concentração desses imigrantes, existia uma fábrica de cerveja que levava o nome do bairro. O pesquisador Jayme Jaccoud nos informa que o alemão Ernst Kappel, executivo da fábrica Rendas Arp, instalou uma fábrica de cerveja no centro da cidade.

Nova Friburgo tem se consolidado nos últimos anos como produtor das denominadas cervejas artesanais. Cervejas em Friburgo, uma herança da imigração alemã? Podemos afirmar seguramente que a consolidação do município como polo de moda íntima está relacionada com a formação de mão obra especializada fornecida pela Fábrica de Filó. Porém, quanto à cerveja não podemos ainda estabelecer essa relação. Mas o que importa nesse momento para o turismo no município é fazer uma ligação entre a cerveja e o povo alemão. Possuímos os dois, a fabricação desse produto e uma relação histórica com os alemães que deram uma grande contribuição na economia de Nova Friburgo. 

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    A fabricação de cerveja pode estar relacionada com a imigração alemã.

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    A qualidade da água de Nova Friburgo incentivou a fabricação de cerveja

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    No bairro de Mury, com forte concentração de alemães, existia uma fábrica de cerveja que levava o nome do bairro

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