As cadeias de Nova Friburgo

Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A partir do século 19, sabe-se mais sobre as cadeias públicas. Geralmente eram situadas em um cômodo no prédio da Câmara Municipal. A alimentação dos presos deveria ser provida pelos seus parentes não sendo uma obrigação do governo. Como muitos detentos não tinham familiares para alimentá-los, a Irmandade do Santíssimo Sacramento fornecia uma refeição diária a esses desamparados. Vale destacar que as cadeias eram muito mais um depósito de escravos fugitivos, que ali permaneciam até que serem resgatados por seus proprietários, do que por criminosos. Provavelmente em razão disso, a Câmara Municipal da Vila de Nova Friburgo se referia à ela como libambo.

Em 1822, uma das casas dos colonos suíços no centro da vila foi transformada em cadeia. Tratava-se de uma casa de pau-a-pique com paredes de acabamento sarrafeado em cal e saibro, sem forro e sem assoalho. Posteriormente a cadeia foi se estendendo às outras casas desocupadas pelos colonos suíços que se dirigiram para as suas glebas. O material utilizado na construção era tão precário que as fugas eram constantes, sendo suas paredes de estuque arrombadas.

Há situações do passado que hoje nos parecem curiosas. Como as grades da cadeia se voltavam para a rua era comum o povo dar cachaça aos detidos, o que provocava muita balbúrdia entre os mesmos. Outra situação curiosa na Vila de Nova Friburgo vem descrita no ano de 1901, no periódico A Sentinela. No edital de licitação de víveres para o rancho das praças do regimento policial, além de gêneros básicos incluía-se bacalhau, vinho tinto ou branco de Lisboa.

Já no fornecimento de comedorias aos presos da cadeia a dieta consistia em leite, caldo de galinha, canja, ovos, pão, feijão, carne seca, arroz, toucinho, carne fresca, chá, café e bacalhau às sextas-feiras. Um luxo se comparado aos padrões atuais. Em 1851, uma cadeia foi construída pelo Governo da Província no centro da vila. Esse estabelecimento de detenção ali permaneceu até o final da década de 1920, quando foi demolido o prédio para dar lugar à abertura da Rua Monte Líbano.

O solar do Barão de Nova Friburgo, prédio que existe até hoje e abriga a Fundação D. João VI, havia sido adquirido pela prefeitura municipal. Foi para o porão nesse solar que foi transferida e estabelecida a cadeia. No início do Rio Bengalas, na confluência dos rios Santo Antônio e Cônego, havia um lindíssimo palacete construído possivelmente pelo imigrante italiano Giovanni Giffoni. Nos anos de 1930, o palacete foi adquirido pela sociedade de mútuo socorro italiana de Nova Friburgo para abrigar a Casa de Itália. Em razão de esse prédio ter servido não apenas como escola e espaço de sociabilidade, mas igualmente como sede do Partido Fascista Italiano, foi desapropriado após a Segunda Guerra Mundial.

Com essa medida, a cadeia foi transferida do antigo porão do solar do Barão de Nova Friburgo para esse prédio desapropriado. Anos depois, a associação dos imigrantes italianos conseguiu retomar o seu imóvel e as atividades na Casa de Itália. Infelizmente, o suntuoso palacete foi derrubado para dar lugar ao edifício Itália.

Para onde iria então a delegacia e a cadeia de Nova Friburgo? Depois de passar por dois elegantes prédios históricos no centro da cidade, como o porão do solar do Barão de Nova Friburgo e o palacete na avenida outro não menos belíssimo imóvel iria abrigar a delegacia e a cadeia de Nova Friburgo, a mansão da Vila Amélia.

Essa belíssima propriedade foi construída em uma chácara às margens do Córrego do Relógio pelo português Antônio Alves Pinto Martins, natural do Minho, em Portugal.  Ele montou nas proximidades um quiosque para a venda de laticínios, verduras, legumes, frutas, defumados e vinho, conhecido como Mercado da Vila Amélia. Após a sucessão hereditária da chácara os herdeiros alienaram a propriedade. A gleba que continha a casa de vivenda passou a pertencer a Afape, a Associação Friburguense de Pais e Amigos do Educando.

Essa instituição alugou o prédio ao governo do Estado do Rio de Janeiro para abrigar a delegacia de polícia (151ªDP) e a carceragem. A delegacia ocupava a casa de vivenda e foi construído um anexo junto ao prédio principal para a reclusão dos presos. Durante décadas a Polícia Civil e a carceragem ficaram ali instaladas.

No entanto, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente, reconheceu os danos causados ao palacete de valor histórico-cultural e obrigou a sua desativação. Atualmente a delegacia de polícia funciona na Avenida Presidente Costa e Silva, em prédio próprio e nos parece que sua permanência nesse local é definitiva.

  • Foto da galeria

    A mansão da Vila Amélia serviu como delegacia

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    Carceragem anexa a mansão da Vila Amélia

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    A Irmandade do Santíssimo Sacramento fornecia refeição aos presos desamparados

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A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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