Mudando paradigmas – A separação entre a razão e o afeto

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

É fácil perceber que o paradigma do passado, ao refletir um período mecanicista, separava tudo o que encontrasse pela frente. Criou-se a ideia de “circunscrição de um problema”, tentando, no caso da razão e do afeto, separar situações afetivas de outras racionais. O racionalismo tornou-se forte desde a era moderna e firmou-se ainda mais com os iluministas Voltaire, Diderot e com a disseminação das repúblicas inspiradas na Revolução Francesa e no liberalismo inglês. Junto a este racionalismo, veio a separação entre razão e afeto.

Há muito que, por influência religiosa, já se fazia outra separação: o corpo da alma. Diante de um corpo perecível e de uma alma imortal, muitas inspirações religiosas trabalharam a alma, deixando o corpo de lado. O corpo, segundo algumas concepções, não deveria receber os cuidados que hoje recebe. Não deveria ser enfeitado com adornos, nem receber banhos perfumados. Tal prática, na Idade Média, atrasou a indústria de cosméticos cerca de 150 anos. Até hoje percebemos tais comportamentos quando muitas pessoas, por questões religiosas, não usam adornos, pinturas ou perfumes.

Tal tipo de compreensão do ser humano provoca um conflito dentro do próprio ser, que, vendo-se dividido, entra em conflito consigo mesmo. Enquanto nos aspectos espirituais leva em consideração sua alma, no campo temporal rejeita o corpo. Dentro das empresas costuma-se dizer que os problemas afetivos devem ser deixados do lado de fora do portão, ou, quando muito, dentro do relógio de ponto ou roleta que registra os cartões magnéticos.

Uma empresa atrasada, que trata seus funcionários desse modo, certamente terá maior número de acidentes e de máquinas quebradas. O ser humano não consegue conviver com essa dicotomia. Os tempos são de consideração global, em que corpo e alma, afeto e razão convivem numa só pessoa.

Uma digestão malfeita pode criar uma atitude de menor empenho ou dificuldade no trabalho. Um doente na família reduzirá a produtividade do trabalhador, porque as suas mãos e pés estão na fábrica; a mente, no entanto, está voando e imaginando a situação distante. Essa angústia divide a pessoa, de modo que ela não se encontra completa no local de trabalho. Assim, as distrações são maiores, as dispersões, contínuas e os acidentes, constantes.

Mas, dirão alguns, para a era industrial surgiu uma grande solução com a descoberta do condicionamento após os estudos de Pavlov. Empregados bem condicionados conviverão com a separação entre a razão e o afeto. Podem estar “longe”, mas os braços e pernas farão o que devem, porque condicionados.

Além de tal consideração ser uma visão mecanicista da pessoa, seria uma grande ilusão pensar que a força do sentimento não cria os atos perturbados ou falhos que podem ser físicos, quando o corpo não nos obedece, ou verbais, quando a palavra é trocada. Freud trata dos atos falhos ou perturbados, o que comprova essa interação entre afeto e razão.

Essa separação em muito atrapalhou a vida e seu progresso, pelo aumento da angústia dos seres humanos dotados de dois tipos de qualidades consideradas estanques, quando, na realidade, são interativas. Posso falar com a boca, com os olhos, com as mãos; posso ouvir com minha pele e posso aprender com meu afeto. É comum conhecermos fatos de alunos que não aprendem porque não gostam do professor, e conhecemos também muitos casos de professores que sofrem por antecipação porque gostam mais de uma classe de alunos que de outra. O que ensinam é a mesma coisa; a carga afetiva, no entanto, é diferente. O que acontece é que essas pessoas emitem pequenos sinais em sua comunicação que produzem um retorno negativo e uma assimilação difícil.

Muitas quedas na produção e muitos acidentes são provocados pela falta de unificação da própria pessoa consigo mesma, uma falta de equilíbrio entre o “eu” profissional e o “eu” pessoal.

Publicidade
Agora Faz
TAGS:

Hamilton Werneck

Hamilton Werneck

Eis um homem que representa com exatidão o significado da palavra “mestre”. Pedagogo, palestrante e educador, Hamilton Werneck compartilha com os leitores de A VOZ DA SERRA, todas as quartas, sua vasta experiência com a Educação no Brasil.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.