Lutero e a economia

Gerson Acker

Gerson Acker

O jovem capixaba é o novo pastor da Igreja Luterana de Nova Friburgo - a mais antiga da América Latina - e, no 500º aniversário da reforma protestante, escreve sobre temas que envolvem história, religião e sociedade numa linguagem jovem e dinâmica.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Lutero e a economia

Martim Lutero viveu em dias de capitalismo incipiente. O comércio que se desenvolvia foi transformando a economia, até aquele momento baseada na troca de bens, dando lugar à economia do dinheiro. Como resultado, o poder econômico acabou concentrando-se nas mãos de uma minoria formada, sobretudo, por banqueiros e comerciantes, dos quais ficavam dependentes toda a população.

Com o surgimento monetário, no final do século 15, surgem os primeiros diplomas legais que estipulariam os valores cobrados pelo empréstimo de dinheiro. Passou-se então a distinguir juro de usura. O juro era a taxa cobrada dentro dos valores estipulados em lei, ao passo que a usura seria o termo utilizado para se referir à cobrança de taxas superiores ao limite máximo permitido legalmente.

A população na época da Reforma Protestante via-se cada vez mais empobrecida e endividada. Essa situação e o clamor do povo por justiça desafiaram Lutero a posicionar-se claramente contra a exploração e as práticas abusivas praticadas pelos banqueiros e comerciantes. Em diversos escritos, o reformador pregou e escreveu sobre temas ligados à economia, criticando a usura, a ganância e a má conduta dos grupos financeiros da época: “Pequeno sermão sobre a usura” (1519), “Grande sermão sobre a usura” (1520), “À nobreza cristã de nação alemã” (1520), “Sobre as boas obras” (1520), “Sobre comércio e usura” (1524) e “Aos párocos para que preguem contra a usura, Admoestação” (1540).

No escrito “Comércio e Usura” de 1524, Lutero vai afirmar: “Alguns [comerciantes] não têm problema de consciência em vender sua mercadoria mais caro a prazo do que à vista. Inclusive alguns nem aceitam vender mercadoria à vista, mas a prazo, só para ter lucro maior [...]. São todos uns ladrões, assaltantes e agiotas públicos”. A principal crítica de Lutero centrou-se na fixação do preço das mercadorias, que era determinada pelo comerciante, bem como a maneira de pagamento. Defendendo, de forma inovadora na época, que o Estado regulasse as atividades comerciais e financeiras, fixando preços, controlando as mercadorias e proibindo a especulação financeira. Era imprescindível reprimir a exploração da população indefesa.

Em questões que envolvessem dinheiro, Lutero com certa dose de ironia, dizia que havia quatro maneiras cristãs de lidar com o próximo: 1. Permitir que tomem e roubem os nossos bens (postura completa de abnegação); 2. Dar gratuitamente a cada qual o que necessita (seria o ideal dentro da perspectiva cristã); 3. Emprestar meus bens, recuperando-os quando fossem devolvidos e dando-os por perdidos quando não fossem (a maneira cristã de emprestar seria justamente correr o risco da não devolução!); 4. Comprar e vender à vista ou pagando mercadoria com mercadoria (Lutero rechaçava negócios a prazo).

Além de suas críticas ácidas ao sistema, Lutero propôs também modelos alternativos de organização para uma sociedade igualitária voltada para o atendimento das necessidades básicas da população. Uma alternativa bem concreta e que funcionou por séculos foi a criação de caixas comunitárias (associações). Tratava-se de uma proposta bastante ambiciosa e revolucionária para época: um amplo sistema de seguridade social mantido pelo Estado e pelas classes mais abastadas financeiramente para auxiliar professores, idosos, doentes, órfãos, viúvos, desempregados e todas as pessoas de alguma forma desamparadas. Precisamos lembrar que quando houve a imigração alemã (evangélico-luterana) para o Brasil no século 19, essas “caixas” (Gotteskasten) foram responsáveis pelo envio e manutenção de pastores e professores aqui no país.

Lutero não ficou enclausurado no mundo da teologia, percebemos em seus escritos a importância do cristão desenvolver postura crítica diante de questões socioeconômicas – isso nada mais é do que ser cristão! O reformador fez duras críticas ao novo modelo econômico emergente, dentre as quais, muitas são atuais e refletem muito o que vivemos hoje. Suas colocações influenciaram pensadores que apostam numa sociedade mais igualitária a partir do coletivo, do comunitário (viver em comunidade é uma característica do ser luterano). Podemos até considerar o reformador utópico, porém, é impossível não detectar sua luta por uma ética econômica. Dada a situação econômica brasileira, penso que poderíamos nos inspirar na voz profética de Lutero e abraçar a gigantesca tarefa de construir um sistema econômico centrado nas necessidades básicas da população.

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