Palavra, palavrinha, palavão

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

 

Parece que o tempo da delicadeza se perdeu no tempo

Quando eu era criança não se falava palavrão, pelo menos não em se tratando de pessoas educadas e religiosas. No seio da família, nunca ouvi a palavra sexo. Aliás, também nunca ouvi a palavra seio. Imagine então os palavrões de verdade, desses que atualmente qualquer moça fina usa com o namorado ou mesmo em sala de aula. As paredes dos banheiros públicos masculinos, preferencialmente os de botequim e rodoviária, costumam ser verdadeiras antologias pornográficas. Pois coisas que antigamente só ali podiam ser encontradas agora fazem parte da conversa de qualquer grupo de senhoras de boa família.

Parece que o tempo da delicadeza se perdeu no tempo, embora Albert Schweitzer tenha dito que a delicadeza é a suprema manifestação do espírito humano. Não que eu seja a fina flor da boa educação, ai de mim, mas também não sou chegado a grosserias e vulgaridades. No capítulo das palavras chulas, sou um fracasso. Às vezes estrago uma piada por omitir um palavrão que seria o perfeito arremate da história.

Isso me lembra de um programa em que Jô Soares e Paulo Silvino interpretavam dois pintores de parede. Enquanto este pintava o teto, aquele segurava a escada. Quando Silvino deixou cair tinta no olho do colega, os dois se desentenderam e foram parar na delegacia. Diante do delegado, cada um apresentou a sua versão dos fatos. Não me lembro das palavras, mas o teor foi mais ou menos o seguinte:

- Senhor delegado, Não adiantou pedir desculpa. Esse meu colega me ofendeu com todos os palavrões que Vossa Excelência conhece e outros que ele inventou na hora. Aguentei até minha mãe entrar na conversa. Se o senhor tem mãe, vai entender meu procedimento, me liberar e mandar prender esse desbocado.

Ao que Jô, com a cara mais séria do mundo, contra-argumenta:

- Nada disso, Excelência. O que eu falei foi o seguinte: “Nobre companheiro de trabalho. Tendo em vista o desagradável incômodo que a tinta de parede pode provocar nos olhos alheios, solicito-lhe o obséquio de, nas futuras ocasiões em que felizes circunstâncias profissionais nos colocarem a ganhar juntos o pão de cada dia, as honradas mãos do ilustre colega procurem evitar que da broxa escorram eventuais gotas de tinta, as quais possam causar danos a quem as recebe na face.

Está visto que a graça da história, além da cara sonsa do personagem, é a total improbabilidade de que um pintor de paredes, com os olhos cheios de tinta, tenha aquele discurso tão polido, longo e articulado. O mais provável é que ele tenha mandado o outro para... Bem, paremos por aqui.

O fato é que outro dia ouvi um cavalheiro usar uma expressão que, além de horrorosa, certa vez me deixou numa situação bastante delicada. Conto-a na esperança de que não haja crianças na sala e que os adultos não me considerem, como se dizia antigamente, um boca suja.

Eu trabalhava num colégio de freiras e uma delas, de tradicional família mineira, dava aula para a 5ª série. Um dia, um grupo de crianças veio reclamar comigo que a professora dizia “coisas feias” quando se zangava com a turma. Depois de muitas idas e vindas, consegui que eles me dissessem que “coisa feia” era aquela. E era feia mesmo.

Fui conversar com a freira e, vacilando com ela mais do que as crianças comigo, contei toda a história, inclusive a tal “coisa feia”. Muito surpresa, ela me garantiu que nunca tinha falado aquilo, e que apenas repetia uma expressão que já tinha ouvido várias vezes em nossa cidade:

- Vocês estão fundidos!

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