Haja coração!

Robério Canto

Escrevivendo

No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

quarta-feira, 02 de maio de 2018

O coração é apenas um sino que bate sem saber por quê

Você não tem coração! reclama o rapaz com a namorada, se ele lhe pede algo mais do que o coração, e ela nega. Mas só mesmo como metáfora alguém pode deixar de ter coração. Esse pequeno músculo, do tamanho de um punho fechado (a menos que seja o punho do Hulk) é o nosso mais fiel e constante companheiro por toda a vida. E até mesmo quando o cérebro se cansa de tanto pensar e para, o coração ainda teima em bater por uns minutinhos. Os cientistas – essa gente que sabe tudo e mais alguma coisa – calculam que esse tamborim escondido no peito humano repica até 100 vezes por minuto, desde o instante da concepção até o último suspiro. Faz a conta e vê se não dá mais de 300 milhões de vezes até os 50 anos. E se você insiste em viver além dos 50, é porque não tem pena nem do próprio coração. Já nos gatos, o tique-taque chega a 140 por minuto. Talvez seja por isso que eles conseguem ter sete vidas.

Sim, não é fácil a vida do coração. A cada 50 segundos, percorre 97 mil quilômetros, que é a extensão das veias e artérias que temos escondidas dentro de nós. Irriga tanto o corpo de um bebê quanto de um lutador de sumô (nesse caso com um pouco mais de esforço), mas em geral ele mesmo não passa de 340 gramas nos homens e 280 gramas nas mulheres (deve ser, portanto, que é por terem o coração menos pesado que elas conseguem levar a vida com mais leveza e graça).

Tivesse eu algum leitor cardiologista, por certo ele censuraria que eu me meta a falar de um assunto do qual não entendo nada. A minha desculpa é que não estou escrevendo um tratado científico, mas apenas enrolando o leitor com a habitual conversa fiada. Posto que o leitor já começa a leitura sabendo que vai ser enrolado, acho que não cometo crime nenhum. Entre quem escreve e quem lê existe sempre uma cumplicidade sem a qual o melhor dos textos não valeria coisa nenhuma.

Os antigos, e bota antigo nisso, achavam que o coração era o centro de memória. Daí a expressão saber de cor, isto é: saber com o coração. Hoje se sabe que o coração não sabe nada, apenas se confrange ou se expande com as ordens que lhe envia o cérebro, esse grande computador onde tudo está arquivado (e onde, para nossa sorte ou azar, muitas coisas ficam escondidas). O coração é apenas um sino que bate sem saber por quê, ainda que esteja cumprindo o santo ofício de chamar o povo para rezar. E para os apaixonados que temem sofrer um enfarto por causa de um grande amor, fica a consoladora lição de Noel Rosa, em seu Samba Anatômico: “Eu afirmo/ Sem nenhuma pretensão/ Que a paixão faz dor no crânio/ Mas não ataca o coração”. Apesar disso, é bonita a expressão saber de cor, porque é bonito pensar que as nossas melhores lembranças, assim como nossas melhores intenções, nascem e repousam não lá dentro da fria cabeça,  e sim dentro do peito, pulsante e caloroso,

 O coração não é mais que um pedaço de carne com menos de meio quilo. Mas não vivemos sem ele, e vivemos falando nele: Meu coração é seu. Coração de pedra. Você mora no meu coração.  Coração de ouro. Ele feriu meu coração. Te dei meu coração para  sempre. Meu coração não aguenta mais. Coração de mãe sofre! O coração dele, ó, pifou. Um coração vascaíno. Coração rancoroso. É feia, mas tem bom coração. Nova York é o coração do mundo. O coração do povo brasileiro.

Haja coração!

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No estilo “caminhando contra o vento”, o professor Robério Canto vai “vivendo e Escrevivendo” causos cotidianos, com uma generosa pitada de bom humor. Membro da Academia Friburguense de Letras, imortal desde criancinha.

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