Quando fui um ET no carnaval

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Não é sempre que eu sonho. Mas na noite passada sonhei que era um alienígena que pisava no Rio de Janeiro no meio do carnaval. Meu poder de me colocar no lugar do outro foi tão grande (talvez façamos isso melhor dormindo) que conseguia ver a cidade como algo completamente novo pra mim. Me vesti completamente de ET e, pelas lentes dele, me deslumbrei com cores e corpos tão vivos.

O movimento daqueles corpos que brilhavam feito escamas ao sol me encantava. Eu (ou ele, o ET) vinha de outras terras, mais sóbrias e racionais - jamais imaginaria chegar num lugar tão cheio de cores, explosão de emoções e movimentos. Que lindos são os habitantes do planeta em ondas de ritmos e sons. Passados alguns minutos e sobrevoando alguns fenômenos carnavalescos localizados, tentava entender o que se passava entre os terráqueos. Tanta coisa não entendia!

1- Nas mesmas áreas em que eles riam e dançavam, eles também sofriam e choravam. Nas regiões de festa também havia violência, furto, maldade. Mas o que acontecia com muitos, não abalava a festa. Era como se ninguém percebesse ou se abalasse pelo outro. Era como se fossem cegos e surdos a uso o que não fosse aquele ritmo, aquela bateria, aquele som e aquela alegria toda.

2 - Parecia-me que os ditos humanos, uma espécie diferenciada no planeta, que viviam no Brasil, em especial no Rio, eram bastante sofridos, faltando-lhes muito para seu bem estar e vida plena. E isso explicava o cenário de tanta alegria nesta festa que parecia não acabar nunca: era uma maneira de se alegrarem e esquecerem suas mazelas. Alguém outrora teria dito ser aquela festa o ópio do povo. E era.

3 - A festa que vimos parecia ser algo como a migração regular de algumas espécies ou período fértil obrigatório de tantas outras espécies - me pareceu algo instintivo, involuntário, automático, ou seja, as multidões estavam ali, por impulso, seguindo um fluxo muitas vezes insano de outros humanos sem pensar no que faziam ou se dar conta do que se tratava.

4 - A cidade do Rio, especificamente, me provocou grande espanto: muita matança sem razão aparente acontecendo antes, durante e depois dos bailes, blocos e desfiles de carnaval. Crianças inocentes morrendo, armas sendo usadas sem treinamento e matando pessoas (inocentes todas, pois não há como ver culpa no caos) mas ainda assim todos continuavam pulando e dançando e muitas vezes se preparando para a cópula sem que a matança tão perto lhes alterasse o torpor dos instintos e desejos.

5 - Pessoas frenéticas usando câmeras instantâneas (e furtando as de outros) chamadas popularmente de celular. Os terráqueos registravam todo e qualquer movimento, todo e qualquer sorriso ou encontro, em foto ou em vídeo. Era impressionante! Muitos celulares, muitos registros. Eles registravam coisas simples, cotidianas, em tese, de interesse único deles próprios, para milhares, às vezes milhões de pessoas numa vitrine digital sem fim: as plataformas sociais, as chamadas redes. Na Terra a privacidade tão universalmente valiosa é vendida por uma coisa simples e muitas vezes barata chamada "like" ou curtida. Basta um clique para comprar o que nem diz respeito a você e que nem vai mudar a sua vida em nada. Os humanos querem ter suas vidas devassadas e isso é bastante curioso. Por que será?

6 - Percebi que os terráqueos precisam de vestimentas e ornamentos. Não vivem ou se locomovem ao natural como os demais animais do planeta Terra: eles põem proteção nos pés, cobrem pernas, barriga, genitália, tetas, braços, mãos (especialmente em baixas temperaturas) e alguns até mesmo o rosto. E isso os diferencia dos demais seres vivos de maneira singular. Mas parece que não estão tão confortáveis e felizes com tal costume. Durante a festa do dito carnaval, eles procuravam tirar tudo o que podiam e deixar o máximo de seus corpos ao natural, como devem ser. Há quem corte camisas para colocar suas tetas de fora, há quem quase não cubra sua genitália e há quem as esconda muito bem. É intrigante. Será isso parte do ritual de acasalamento dos humanos e essa festa o período da fertilidade então? Sim, deve ser.

7 - Vi campanhas inéditas pedindo respeito às fêmeas do planeta. Bati palmas de onde estava pois, ao que parece, os machos dessa espécie não tratam ou respeitam as fêmeas com a naturalidade harmônica que vemos nos biomas por aqui. Há até alguns machos na Terra como os elefantes marinhos e besouros que maltratam suas fêmeas quando se trata de copular, mas os humanos machos distratam e desvalorizam suas fêmeas antes mesmo de copularem. Deve ser porque eles acham que pensam. Isso deve ser combatido, pois não me parece ser parte dos instintos da espécie. 

8 - Falando em instintos, nesse tal carnaval, vendo as multidões aqui de cima, percebe-se que há, potencializada por psicotrópicos como o álcool, uma movimentação multidirecional e bastante agitada em busca de beijos e de sexo. Todo e qualquer sexo. Deve ser por conta desses hormônios todos em ebulição que os terráqueos brasileiros estão tão felizes e não percebem o ambiente hostil e distópico em que estão mergulhados. A natureza humana é mesmo curiosa. Uma espécie comandada por tantos instintos e manipulações, mas acha que está pensando tudo "sozinha". É bem divertido observá-los.

Acordei no susto. Vi meus gatinhos me observando enquanto dormia e passeava pelo carnaval do Rio. Como é bom acordar e conviver com espécies mais racionais que nós. Tenho certeza de que o alienígena que se foi com o meu sonho entenderia com facilidade a lógica dos meus gatos.

E segue o baile em 2019.

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Bia WIlcox

Bia Wilcox

Bia Willcox sempre escreveu.Professora e advogada por formação, sua grande paixão é conteúdo, texto, assuntos diversos pra trocar e enriquecer.assina a coluna Amores Cariocas na Rádio Bandnews e um blog sobre cultura e entretenimento no Portal R7

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