Tragédia ou crime?

Dom Edney Gouvêa Mattoso

A Voz do Pastor

Buscando trazer uma palavra de paz e evangelização para a população de Nova Friburgo, o bispo diocesano da cidade, Dom Edney Gouvêa Mattoso, assina a coluna A Voz do Pastor, todas as terças, no A VOZ DA SERRA.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Caros amigos, acompanhamos com pesar o terrível acontecimento na cidade mineira de Brumadinho, ocorrido no final de janeiro. As cenas de horror fazem ecoar em nossa memória outras tantas que nossos irmãos sofreram, e sofrem, por consequência da exploração ambiental desregrada e irresponsável, extraindo da terra suas riquezas esquecendo-se do verdadeiro tesouro: a criação.

Em 2003, o rompimento de uma barragem na cidade de Cataguases–MG, espalhou uma grande quantidade de material orgânico na Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul, gerando mortandade de peixes, interrupção do abastecimento de água em vários municípios dos estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Quatro anos depois, outro incidente aconteceu na mesma região. O rompimento de duas barragens pertencentes à mineradora Rio Pomba-Cataguases deixou desabrigadas pelo menos quatro mil pessoas e, assim como em 2003, provocou a morte da fauna e destruiu áreas agrícolas.

Lembramos ainda o desastre acontecido em Mariana, também em Minas, conhecido, até então, como a maior tragédia ambiental na história do Brasil. O evento causou muita destruição, contaminando rio, solo e deixou 19 mortos. Dois anos após o ocorrido, o procurador da República, José Adércio Sampaio, como um verdadeiro profeta desabafou: “O que nós podemos dizer, dois anos passados, não houve nenhuma lição aprendida pelo poder público, especialmente Executivo e Legislativo, e parece até que esperam que outra tragédia aconteça” (G1, 6 de novembro de 2017). Lamentavelmente foi o que testemunhamos com o ocorrido em Brumadinho.

Para entendermos o que implica a nós, herdeiros da criação, quanto a reponsabilidade nestes fatos, evocamos a encíclica Laudato Si, na qual o Papa Francisco recorda que falar em ‘meio ambiente’ é falar da relação existente entre a natureza e a sociedade que a habita. “As razões, pelas quais um lugar se contamina, exigem uma análise do funcionamento da sociedade, da sua economia, do seu comportamento, da sua maneira de entender a realidade. (...) Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental” (nº 139).

Quando a ordem divina de submetermos a terra é pervertida unicamente na intenção de nos satisfazer e dela obtermos lucros (cf. Gn 1,28), a atividade humana converte-se em exploração e não corresponde ao genuíno bem da humanidade querido pelo criador (cf. Gaudium et Spes, 35).

O Concílio Vaticano II convoca a Igreja à ‘superação da ética individualista’, considerando e respeitando as relações sociais como um dos principais deveres do homem. “Quanto mais o mundo se unifica, tanto mais as obrigações dos homens transcendem os grupos particulares e se estendem progressivamente a todo o mundo” (Gaudium et Spes, 30).

À luz desta reflexão, o Santo Padre denuncia a lei da competitividade e do mais forte, que veem toda a criação como um bem de consumo, que pode ser usada e depois jogada fora, dando início à cultura do descartável (cf. Evangelii Gaudium, 53). Esta dinâmica inevitavelmente volta-se contra o próprio homem, que “por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação” (Octogesima adveniens, 21).

Diante da responsabilidade ecológica que cabe a cada um de nós, vale o questionamento: os fatos aqui narrados, unidos a tantos outros, devem ser considerados tragédias ou crimes contra a humanidade que poderiam ser evitados?

Precisamos tomar consciência de que todo e qualquer ato de violação da natureza, da terra e da criação pode ter consequências graves que podemos não perceber à primeira vista.

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