A palavra se fez carne (Jo 1, 14)

Dom Edney Gouvêa Mattoso

A Voz do Pastor

Buscando trazer uma palavra de paz e evangelização para a população de Nova Friburgo, o bispo diocesano da cidade, Dom Edney Gouvêa Mattoso, assina a coluna A Voz do Pastor, todas as terças, no A VOZ DA SERRA.

terça-feira, 03 de setembro de 2019

Caros amigos, o mês de setembro tradicionalmente é um tempo referencial para o estudo e a contemplação da Palavra de Deus. As sagradas escrituras sempre estiveram muito presentes na vida do povo de Deus. Mas, após o Concílio Vaticano II, a bíblia passou a ocupar um espaço privilegiado na vida cotidiana dos cristãos, passou a ser mais lida na família, nos círculos bíblicos, na catequese, nos grupos de reflexão e em tantas outras reuniões, que se tornaram lugar oportuno para ouvir a voz de Deus.

Contudo, a acelerada dinâmica evolutiva da sociedade não pode ser desconsiderada na ação evangelizadora. O Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, volta o olhar de toda Igreja para esta realidade. Refletindo, o pontífice alertou que se não considerarmos a atual velocidade atingida pelas comunicações e a interessada seleção das informações a serem divulgadas pelos grandes meios de comunicação, a mensagem do evangelho corre, mais do que nunca, o risco de parecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secundários.

“Convém sermos realistas e não darmos por suposto que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do evangelho que lhe confere sentido, beleza e fascínio” (Evangelii Gaudium, 34).

Serve-nos de exemplo e meta a seguir a comunicação de Deus à humanidade, que em sua infinita bondade e sabedoria, se deu a conhecer por meio de Cristo, verbo encarnado. O concílio Vaticano II, ensina que em virtude desta revelação, Deus fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admiti-los à comunhão com ele.

Esta comunicação divina se “realiza por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido” (Dei Verbum, 2).

O anúncio da verdade evangélica só será eficaz quando se tornar vida em nossa vida. A palavra de Deus, ouvida e pregada por nós deve, assim como o verbo divino, encarnar-se neste mundo ferido pelo pecado.

É preciso seguir os caminhos que Cristo indicou ao assumir nossa humanidade, de modo especial a via da humildade, da justiça e da caridade. É neste sentido que as enormes e rápidas mudanças culturais influem diretamente no modo de pensar a evangelização. Exigem uma constante atenção ao exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade. “A renovação das formas de expressão torna-se necessária para transmitir ao homem de hoje a mensagem evangélica no seu significado imutável” (Ut Unum Sint, 19).

A palavra já encarnada e sempre procurando encarnar-se, é essencial à evangelização, para a credibilidade do discurso da fé. Isto nos impele a uma vida coerente, conjugando o discurso com o testemunho de todos os dias, buscando realizar obras de justiça e caridade. Não pôr em prática, não levar à realidade a palavra, é construir sobre a areia, permanecer na pura ideia, com discursos frios, vazios e distantes.

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