Zuenir Ventura grava 1ª entrevista no estúdio de A VOZ DA SERRA

Na inauguração do novo espaço, mestre da imprensa fala em vídeo sobre o jornalismo nos novos tempos
terça-feira, 31 de outubro de 2017
por Ana Borges
Na última manhã de sábado, 28, A VOZ DA SERRA estava a postos para receber Zuenir Ventura, mestre do jornalismo, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), na inauguração oficial do nosso estúdio, batizado com o nome de nosso vice-diretor e idealizador do novo espaço, Gabriel Ventura Braga. Dizer que foi uma honra é clichê, mas dizemos assim mesmo, porque não poderia ser outra pessoa, a não ser ele, o mestre Zu, neste momento tão significativo para todos nós.  

"Hoje todo mundo é repórter. Mas apuração é fundamental, dá trabalho e deve ser feita por jornalista profissional"

Zuenir Ventura

O papo correu solto, sem roteiro definido, muito menos pauta definida. Deixamos  fluir. Mas, em se tratando de jornalismo, não tem como não falar de redes sociais e noticiário. Impressos versus plataformas, diversidade de mídias, jornalistas versus “eu-repórter”, todo mundo reportando. Então, vejamos como Zuenir vê essas questões.

“O advento da internet trouxe muitas vantagens, possibilidades de externar opiniões, se posicionar diante dos mais variados assuntos. Mas trouxe muitos equívocos também, como, por exemplo, achar que jornalismo é gravar um acidente, descrever o que está “vendo”, o que ele acha que está acontecendo. Nesse momento, esse repórter casual está ligado apenas no imediatismo do acontecimento, sem nenhuma preocupação com as consequências da sua intervenção. Na verdade, a pessoa não está apurando nada, não está assumindo nenhum compromisso com o que está relatando, publicamente. As redes sociais são um mundo sem lei, sem nenhum critério. Há exceções, naturalmente”.

Zuenir ressalta que o jornalista tem por dever profissional apurar, se responsabilizar pelo que vai escrever, relatar, seja qual foi o setor: política, cultura, economia, polícia, flagrantes do cotidiano. O flagrante é o começo, de onde vem, a princípio, a primeira informação. A partir daí, o jornalista tem que sair em campo atrás de quem ele sabe que tem que ir. Quem é a pessoa que efetivamente sabe o que está acontecendo, o que está por trás da notícia? São as fontes, com as quais se tem o compromisso do sigilo e requer o maior cuidado.

Fatos e impressões

O profissional da notícia se expõe. Ele está na rua, a gente vê o rosto dele, sabe como se chama. “Sem apuração não existe jornalismo, existem impressões. Daí a importância do jornal impresso, porque é ele que vai aprofundar e referendar a notícia que saiu primeiro nas plataformas digitais, que também é produzida por profissionais”.

Nesse universo virtual, a velocidade exige atenção redobrada porque ali é tudo instantâneo, a notícia vai se ampliando e sendo publicada à medida que as informações vão chegando. Mas sempre de forma resumida, sucinta. É para consumo imediato, pode ser atualizada, corroborada, desmentida, descartada. Nas redes sociais, o vale tudo acaba por se tornar uma verdadeira torre de babel, com boatos, notícias falsas, bate-bocas inúteis.

“Eu, por exemplo, já fui ‘assassinado’ na internet. Morri e eu mesmo tive que desmentir, porque quem postou não deu a mínima para as consequências. Então, é a gente mesmo que tem que avisar aos amigos que ‘está vivo’. Outro grande problema são as  acusações totalmente irresponsáveis, e não raro, caluniosas. Outra questão muito desagradável é se atribuir textos comprometedores a determinadas pessoas, como ao meu querido amigo Luís Fernando Veríssimo (colunista do Globo), e que ele nunca escreveu. Coisas desse tipo, além de acusações sem nenhum fundamento, podem gerar tragédias, inclusive linchamento de pessoas inocentes. São publicações infamantes que devem ser combatidas de alguma maneira”, argumentou Zuenir.  

Ele salienta que o verdadeiro jornalismo não está nas redes sociais e não se deve nunca esquecer a ética que rege a profissão. “Jornalismo é apuração, investigação, confirmação, reafirmação, portanto, é uma coisa muito trabalhosa”, reiterou.

E repetiu o que um jornalista americano disse: Você leva um minuto para criar uma notícia falsa e leva dias para desfazê-la. “Uma calúnia pode destruir a reputação de uma pessoa. É preciso ter cuidado, não confundir novidades, como redes sociais, com um novo tipo de ‘jornalismo’. Por enquanto, o que sabemos é que há algo diferente, a ser ainda avaliado, para então se concluir se pode ser considerado um veículo de notícia”.  

“Não podemos achar que sabemos tudo, porque não sabemos. Por viver no universo da comunicação, temos o privilégio da informação em primeira mão, mas ainda assim aprendemos todos os dias, a cada dia, uma nova lição. Por isso, quando vamos produzir uma reportagem, procuramos quem seja capaz de nos dar a informação que buscamos”, reafirmou.

Mídias que se complementam

Por outro lado, continua Zuenir, é importante acompanhar a evolução dos diversos formatos de informação para que se complementem. Ele não acredita que o jornalismo impresso, acabe. “Podem inventar todo tipo de comunicação, mas o impresso, volto a repetir, é o que fica para a posteridade. Ele está aí desde os primeiros tempos. Começamos nos comunicando através da pedra, madeira, barro, pergaminho, até evoluir para o papel. Hoje, está até na nuvem (diz, rindo), imagine! O que existe é isso, evolução. Mas acabar, não acredito”.

Também lembrou a repercussão internacional que teve o jornal americano The Boston Globe (Massachusetts), há uns 15 anos, com a série de reportagens sobre os casos de abuso sexual na Igreja Católica, que resultou no premiado filme Spotlight (2012).

“Aquele trabalho fortaleceu o jornalismo investigativo. Penso que o impresso deve caminhar cada vez mais para esse tipo de reportagem, que só funciona no impresso. Apurar denúncias, investigar e divulgar, requer profissionais bem preparados, sérios, éticos e responsáveis. E esse tipo de editoria precisa de tempo, de dedicação integral. O Washington Post, o The New York Times estão investindo cada vez mais nesse tipo de reportagem. Essa é a diferença para o online, que trabalha com a coisa instantânea, sem tempo para apurar”.

Sem antagonismo entre as diversas plataformas, Zuenir acredita na convergência. É o que está acontecendo aqui em A VOZ DA SERRA, citou, se referindo à iniciativa de Adriana Ventura, a diretora, e Gabriel Ventura, filho e vice-diretor, que decidiram partir para nova experiência. “Adriana tomou uma decisão acertada no sentido de fortalecer a empresa”, comentou. Com o site funcionando há 20 anos, está no Facebook, Youtube, Twiter, e reformulou o suplemento de fim de semana.

“E agora inaugura esse estúdio. Bom caminho para enfrentar novos desafios. Eu fico particularmente feliz e honrado de estar aqui participando desse momento, inaugurando esse novo espaço. Principalmente se lembrarmos que se trata de um jornal de interior, onde tudo é mais difícil. As pessoas pensam que é fácil fazer um diário numa pequena cidade. Pois eu sempre digo, fácil é fazer numa cidade grande, onde as notícias estão ali acontecendo todo o tempo, o trabalho é ir lá apurar. Aqui não, botar um jornal na rua todos os dias, é um grande desafio”.  

Para encerrar, Zuenir destacou o conteúdo do jornal. “Eu sempre observo que A VOZ DA SERRA é todo voltado para a sua comunidade, para os seus moradores. É a cara do friburguense que está nas fotos, são as ruas, as praças, as questões locais, o cotidiano da cidade, que o leitor, seja daqui ou de fora, vê retratados no jornal. Esse compromisso é muito importante. Porque o jornal resiste? Porque está aí até hoje, com mais de 70 anos? Porque tem credibilidade. É o jornal da cidade, goste-se dele ou não, tem que ser respeitado. A história do município está escrita em suas páginas. Esse é o principal legado do jornal, seu maior patrimônio”.

 

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