A saudosa e ainda sagrada missão de fazer teatro em Friburgo

De Jaburu a Carlito, relembramos e prestamos homenagens a todos os nossos artistas dos palcos, de ontem e de hoje, pelo dia deles
sábado, 26 de agosto de 2017
por Ana Borges
Foto de capa
Os Saltimbancos, de Chico Buarque, em montagem do Gama (Arquivo pessoal)

Para os estudiosos de Shakespeare, Hamlet usa a palavra "ser" para aludir à vida e à ação, e "não ser", para a morte e a inércia. Emprestando o que há de mais representativo da linguagem universal - sua excelência, o teatro - através do autor mais prestigiado e encenado em todo o mundo, Shakespeare, o Caderno Z saúda a classe artística local, que nunca esmorece, e homenageia os que já partiram.   

Nos últimos anos, perdemos: Augusto Muros, Carlito Marchon, Jorge Saad, Juca Peixoto, Nelmo Ricardo e Paulo Carvalho, entre outros.

A abrangência do teatro não tem limites. É a expressão máxima da criatura, em qualquer lugar do planeta, a qualquer momento. A manifestação mais genuína do homem, que legou à humanidade obras imortais.

Um dos grandes nomes do teatro brasileiro foi João Caetano, ator carioca que estimulou seus colegas a estudar. Em 1833, ele criou a primeira escola de teatro. Desde então, os cursos se sucederam e milhares de profissionais surgiram dignificando a profissão. Em Friburgo, não foi diferente. Vamos ouvi-los. Alguns por eles mesmos, outros pela voz de seus parceiros, no palco, na vida!

Chico Figueiredo, ator, presidente do Gama:

“Falar de teatro em Friburgo é falar do Gama e do Jaburu. Grandes nomes passaram por eles, como o professor Castilho, Jorge Saad, e outros, mas nenhum com tanto entusiasmo como Jaburu. Ele era um furacão e sua alma necessitava de criação e a inquietude era seu mérito. Por mais que consigamos levar adiante o Gama, sempre faltará o nosso mestre e mentor. O desaparecimento de Jaburu

deixa, um pouco, no ar, a sensação de orfandade em atores, figurinistas e cenógrafos. O Gama está aí, vivo, com novas perspectivas, presente, mas infelizmente sem aquela mesma "luminosidade", aquela chama que emanava de sua figura mais forte. Penso que Friburgo sente e ainda sentirá por muitos anos, saudades de Jaburu. Evoé e merda pra todos nós!”

Daniela Santi, atriz e diretora teatral:

“Atriz! Com registro na carteira de trabalho desde 1979. Amadora, desde sempre! Brincava de teatro aos 6 anos. Sonhava com atuação aos 10.

Assim seguiu minha vida, na trilha tortuosa da arte. Nunca trabalhei longe do mundo artístico. É um dragão, que mesmo soltando labaredas de fogo, incentiva a empunharmos a espada a cada dia, não para o matar, mas domá-lo. Corre nas veias a arte, que se realiza no palco. E por quê? Para dizer à sociedade que existe o sonho, que a fantasia pode ser real, que, ainda, há esperança de formarmos seres humanos melhores. Teatro é arte! É consciência, liberdade, cidadania!

Carlito Marchon: o antes, o depois, o eterno

"Havia o teatro friburguense. E depois de 2006, o teatro friburguense sem Carlito Marchon. Mesmo as novas gerações do drama não ignoram sua passagem que nem um cometa - talvez um raio defina melhor - pela cena dramática friburgal.

Totalmente apaixonado pelas artes cênicas, Carlito Marchon dedicou-se de corpo e alma ao teatro ainda na década de 1960 e despontou na área cênica ao atuar nos então badalados grupos cariocas Companhia Jazz o Coração e Asdrúbal trouxe o trombone.

Apresentou-se em várias capitais brasileiras e contracenou com grandes e respeitados nomes das artes cênicas, como Grande Otelo, Caíque Botkay, Analu Prestes, Buza Ferraz, Ângela Leal, entre outros.

Ator, diretor, dramaturgo, poeta, músico, professor, palhaço e salve salve aleluia quanta coisa foi sendo Carlito Marchon em vida.

Em Nova Friburgo, para onde retornou na década de 80, Carlito desenvolveu diversos trabalhos marcantes - “Folias Friburguenses”, “Super Teatrinho”, “Era uma vez um Vale” (a história de Nova Friburgo), entre tantos tantos e tantos e muitos outros espetáculos inesquecíveis e de qualidade inquestionável. Em 1988 criou a Cia. Carla Malcon de Dramas e Pesadelos.

Carla Malcon (que nem precisa ser um expert para constatar que trata-se de um codinome feminino de Carlito Marchon), buscou uma linguagem própria, provocante, nunca dantes vista por essas plagas, e tudo nascido da genialidade de Carla, digo, do Carlito.

Costumava ainda assinar a programação visual de seus trabalhos, desenhista persistente que era (já disse que esse cara era tudo? Concebia, atuava, produzia, dirigia, escrevia, tocava, cantava, desenhava, polemizava e ava ava ava), assim como o texto e a direção.

Ousava e genializava como poucos. A montagem de “A Grande Tragédia de Macbeth”, em 1988, não era “A Grande Tragédia de Macbeth”. Apenas um chamariz na tentativa de atrair o friburguense (como se ele estivesse aí pra Shakespeare...) e falar, na verdade, a sua verdade, a nossa verdade, a verdade da cena local. No palco, de fato, ele e uma atriz literalmente enrolavam a plateia com bobeiras reflexivas, depois de anunciar, de cara, que o grande elenco da peça não tinha chegado porque eram do Colonial 61 e o ônibus os deixara a pé.

Escreveu Carlito sobre Carla Malcon no programa do dito espetáculo: “...Teatro de cabaré e sem personagens, porque o personagem, xuxu, aliena a inteligência (...) Fundaram a Cia. Carla Malcon de Dramas & Pesadelos, já que nenhuma outra companhia os contrataria, sujos que estavam na liça e Carlito era procurado pela KGB-NF (...)".

Carlito persistiu no drama até a morte. Agora segue por aí, no coração de quem conheceu esta grande figura, ou de quem assistiu a seus espetáculos, performances, musicais, shows como guitarrista, letrista, vocalista, baterista... Era um cara de ação, sempre em ação, com seus gestos kamikazes, sua teatral genialidade...

Nos últimos anos de vida, dedicou-se de corpo e alma à palhaçaria. Encarnou com maestria o enigmático e hilariante Palhaço Gavião, ave de rapina pela qual sempre nutriu uma misteriosa admiração e que serviu de inspiração para seus altos voos no mundo da arte.

Ícone do teatro friburguense, Carlito Marchon marcou época na cena friburguense e foi incansável na busca e aprimoramento de uma linguagem teatral própria. Seu último trabalho foi "Sem dúvida - o pior espetáculo da Terra", criado a partir de profunda pesquisa acerca do palhaço, da sua função social e suas infinitas relações com a realidade da cena, contando a história da vida de um palhaço, suas peripécias para garantir a sobrevivência, seus relacionamentos amorosos, seu envolvimento com a religião, a política e sua morte.

Apoiando-se na graça que existe nas atitudes de transgressão, no mau comportamento, na arrogância, na mentira, no lado negro da inteligência da imaginação, no lado oculto da personalidade do ser humano, realizava uma investigação que adentrava os domínios do proibido e do segredo, para revelá-los, sem pudor, à plateia.

Professor de teatro e também de matemática, e de uma inteligência e perspicácia invejáveis, Carlito morreu num acidente de carro aos 51 anos, em 15 de dezembro de 2006. Foi o último voo do eterno Gavião." (Angela Pedretti, jornalista, ex-mulher de Carlito, com quem teve uma filha)

Fernando Bohrer:

Convidado a nos dar um depoimento, o expoente do teatro da região, Fernando Bohrer, com uma carreira de 40 anos, como ator, diretor e professor, foi o homenageado do V FIT do Colégio Nossa Senhora das Dores, em 2015. Impossibilitado de nos atender, por problemas de saúde, mandou a seguinte mensagem:

“Que bom saber de todo esse movimento em prol da arte e de sua divulgação e o alerta à sua importância cada vez mais premente nesta fase atual de mundo-planetário. Parabéns!

E continuem sempre, promovendo essa maravilhosa atividade do CNSD.

Infelizmente não vou poder participar.

Assim que puder, contem comigo.

Um grande e saudoso abraço em todos vocês com todo meu carinho e amizade, Fernando.

Muito além do espetáculo da vida... homenagens póstumas

Para o artista, o teatro - uma das mais antigas e importantes formas de representar a vida e as emoções humanas - é mais do que uma profissão, é uma forma de viver. E quando eles partem, deixam em nós a marca indelével de uma manifestação artística preciosa. Imortal. Assim como suas obras, a história de suas vidas permanecem em cada um de nós. A eles, esses mágicos que vivem em nossas mentes e corações, nossa eterna gratidão.  

Gama estreia “O Assalto”, de José Vicente, com Paulo Carvalho e Augusto Muros

“Seguramente, os mais jovens nunca ouviram falar de José Vicente, um dos autores mais premiados do teatro brasileiro. Esse possível desconhecimento deve-se ao fato de o autor, bem antes de sua morte - de enfarte, em 22 de setembro 2007 -, ter optado por um exílio voluntário dos palcos, depois de uma fecunda atuação no período que vai do final da década de 1960 até os anos 1970. Autor de “Assalto”, “Hoje é Dia de Rock”, “Os Convalescentes” e “Ensaio Selvagem”, entre outras peças, Zé Vicente, como os amigos o chamavam, é, sem dúvida, um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos, segundo todos aqueles que tiveram acesso à sua obra.” (Fauzi Arap, diretor da peça morto em 2013).

Hoje é dia de Rock*

"José Vicente é um artista livre. Ele escreve sem se preocupar com técnica, crítica, público ou até mesmo com uma coerência, formal ou temática. (…) Acontece que José Vicente é um ser mutante, e se assume como tal. Por isso, em cada peça ele nos entrega apenas uma faceta de sua complexa estrutura humana - aquela faceta que no momento de escrever calhou ter aflorado à superfície da sua sensibilidade. (Yan Michalski, crítico de teatro do Jornal do Brasil, morto em 1990.

 

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