Rodrigo, o Velho Chico e Manaus: a bela história contada pelo esporte

Paratleta treina forte para, no dia 3 de dezembro, transpor nadando os 8,5 km da prova Rio Negro Challenge, em Manaus
sábado, 04 de novembro de 2017
por Vinicius Gastin
Foto de capa
Rodrigo Garcia: limitações jamais o impediram de lutar pelos sonhos e traçar objetivos (Arquivo pessoal)
Rodrigo Garcia é mais um daqueles exemplos de quem transformou dificuldade em vitória, tornando-se exemplo através do esporte. A cada braçada concluída ou quilômetro vencido dentro da água, a certeza de que os limites não existem quando a vontade de superá-los é maior. Rodrigo, o Velho Chico e Manaus: parece nome de livro ou documentário. E não só poderia ser, mas de fato é mais uma bela história da vida real.

"Não há superação. Temos obrigação de honrar a vida e fazer aquilo que queremos"

Rodrigo Garcia

“O significativo encurtamento congênito na perna esquerda, que me obrigou a aprender a andar aos 14 meses já usando uma ortoprótese, nunca me impediu de praticar esportes, incluindo futebol, natação, boxe, tênis e outras atividades para pessoas com ou sem deficiência”, conta.

As limitações, entretanto, jamais o impediram de lutar pelos sonhos e traçar objetivos. A trajetória de Rodrigo no mundo esportivo começa aos 14 anos, quando se tornou paratleta. Em um período de aproximadamente seis anos, portanto até os 20 anos, foram muitas as conquistas e premiações. Logo no primeiro ano, com apenas uma hora e 40 minutos de natação, atingiu a marca dos seis quilômetros, e alcançou diversas premiações nacionais e regionais. Outro momento marcante foi a conquista de várias medalhas nos I Jogos Paradesportivos Brasileiros, realizados em Goiânia, dentre tantas outras competições que preenchem o currículo de Rodrigo.

Depois de um tempo sem praticar atividades, retornou à modalidade aos poucos em 2015. Desta vez, mantendo o foco na natação. Geralmente desafiando a própria resistência, percorrendo cidades e águas brasileiras, em busca de reafirmar a si próprio a sua capacidade de superar as limitações. Rodrigo Garcia voltou às competições no ano passado, quando disputou provas curtas de mil metros no mar, duas provas médias de três mil metros em Brasília e Manaus e uma prova de 12 quilômetros no Rio São Francisco, mas que tem equivalência de seis quilômetros, por conta da correnteza a favor.

“As pessoas entendem que há uma superação pelo fato de eu nadar e ter uma deficiência física. Eu me sinto me superando a cada dia, mas não por causa da deficiência. Na verdade, costumo dizer que ter um braço ou perna a menos não muda muita coisa na vida. Cheguei a esta conclusão por conviver com muitos paratletas, e também pela minha experiência. Não há superação em nadar e ter deficiência. Acredito que temos obrigação de honrar a vida e fazer aquilo que queremos”, afirma Rodrigo.

O grande desafio neste novo caminho acontecerá no dia 3 de dezembro, quando ele irá percorrer os 8,5 quilômetros da prova Rio Negro Challenge, em Manaus. De acordo com o regulamento, o percurso, batizado como Travessia Almirante Tamandaré, terá largada próximo à Ponta do Camaleão e chegada à Praia da Ponta Negra. Haverá premiação com troféus para os cinco primeiros colocados gerais e para os três primeiros colocados de cada categoria. A exigência física da prova é tão grande que cada atleta deverá obrigatoriamente apresentar um guia, que o acompanhará durante todo o percurso, de caiaque ou stand up paddle. “Cumprir os 8,5 quilômetros do Rio Negro será inesquecível e uma vitória. A prova tem limite de aproximadamente três horas. A água é turva, quente, e difícil de flutuar, o que torna tudo mais difícil”, avalia o nadador.

Para cumprir a missão e se transformar na primeira pessoa com deficiência e o primeiro friburguense a disputar esta prova, Rodrigo treina desde setembro. Ele cumpre um programa de treinos diários de quatro mil metros na piscina do Educandário Miosótis. “A escola se tornou uma parceira do meu desafio, e facilita os horários e condições para eu treinar. Sinto que me supero, pois não sou um atleta profissional, estou com sobrepeso, gosto da boemia e para poder completar esta prova eu mudei minha rotina de vida. Agora eu acordo cedo para treinar todos os dias, estou perdendo peso aos poucos, e reduzi drasticamente as saídas à noite.”

A experiência será nova em termos de quilometragem, mas não em matéria de maratonas aquáticas ou cenários históricos. Pelo segundo ano consecutivo, Rodrigo saiu de Nova Friburgo e percorreu mais de 1.500 quilômetros com destino a Piranhas, cidade símbolo do cangaço, no interior de Alagoas, às margens do Rio São Francisco, o “Velho Chico”.  O atleta nadou pelo Riacho do Talhado, uma área represada do rio São Francisco, junto com dezenas de nadadores de todo o país, percorrendo dois mil metros em meio a cânions, águas profundas, e cenários de gravações de novelas.

 “Me inscrevi nessa prova por dois motivos. O primeiro pela natação. O segundo motivo era o sertão nordestino, tema pelo qual sou apaixonado. Sou leitor de Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, e em 2011 cheguei a passar noites na cidade de Canudos, palco da homônima guerra. Fui para conhecer os cenários da batalha, e aproveitei para fazer incursões pelo Nordeste. As provas do Rio São Francisco em 2016 e 2017 foram algumas das coisas mais emocionantes que fiz na minha vida”, revela.

E as ambições de Rodrigo são ainda maiores para o próximo ano. De acordo com o atleta, os objetivos principais em 2018 são disputar uma prova de cinco quilômetros no Pantanal e uma de seis quilômetros na Grécia, no belíssimo Canal de Corinto (foto). Para tanto, é preciso manter o espírito que o acompanha desde os 14 anos, e superar a já conhecida dificuldade pela falta de apoio. “Eu arco com todos os custos para as competições: passagens aéreas, estadia, suplementos, musculação, programa nutricional e equipamentos. A exceção é o treinamento da piscina, que é apoiado pelo Miosótis”, conta o nadador.

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