Quinta é Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos

Silenciosos, invisíveis, mas podem ser piores do que as próprias pragas que invadem as lavouras
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
por Karine Knust
Foto de capa

Eles são silenciosos, invisíveis mas, quando o assunto é saúde, podem ser piores do que as próprias pragas que invadem as lavouras. Os agrotóxicos, também chamados de defensivos agrícolas ou agroquímicos, são produtos utilizados na agricultura, principalmente em produções em larga escala, para controlar insetos, doenças, ou plantas daninhas.

Mas, apesar de defenderem as lavouras, essas substâncias ainda são consideradas as maiores vilãs na busca pelo cultivo saudável de alimentos. E no Brasil a situação ainda é muito pior do que em outros países onde a agricultura é forte. Isso porque, estamos no topo do ranking das nações que mais utilizam agroquímicos em suas plantações.

De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola, mais de um milhão de toneladas de veneno foram jogadas nas lavouras  somente em 2010. Para conscientizar quanto aos riscos causados ao meio ambiente e a saúde pelo uso dessas substâncias, o governo federal criou, há dez anos, o Dia de Controle da Poluição por Agrotóxico, celebrado hoje, 11.

Contaminação oculta

Uma das questões que mais assustam os consumidores quando se fala em agrotóxico é a falta de controle da população sobre a quantidade de “veneno” que chega à mesa. O problema é tão grande que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária iniciou, em 2001, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos, que avalia os níveis dessas substâncias nos alimentos vendidos.

De acordo com a última pesquisa, o pimentão é o campeão das irregularidades: 89% das amostras estavam contaminadas, 84% delas com pesticidas não autorizados para esse tipo de cultura. Os fiscais ainda detectaram 20 agrotóxicos desconhecidos, sendo 17 inseticidas e três fungicidas. E a lista segue com o morango, a abobrinha, a alface e o pepino completando o ranking dos cinco alimentos mais contaminados.

E engana-se quem pensa que basta lavar o alimento com água corrente para ficar livre do perigo. De acordo com o zootecnista e especialista em manejo de solos, Selmo Santos, é preciso apurar o olhar na hora de ir às compras. “Os agrotóxicos são, na maioria das vezes, sistêmicos, então não adianta acreditar que a higienização dos produtos vai fazer com que eles sejam eliminados. Lavar frutas e hortaliças é necessário e ajuda muito, mas não resolve”, alerta ele acrescentando que “frutas e hortaliças esteticamente perfeitas e simétricas podem sinalizar grande utilização de agrotóxicos. Por isso, uma das formas de minimizar o consumo de químicos é observar a naturalidade do produto. Quanto mais artificial parecer, mais agrotóxicos pode ter”, orienta Selmo.

Conscientização crescente

Nova Friburgo é uma das cidades com a maior variedade de produção agrícola no estado. São mais de 2.800 agricultores cultivando 118 itens que vão parar nas mesas não só dos friburguenses, mas de todo o país. Para dar vazão a uma demanda em crescente expansão, muitos cultivos fazem o uso de agrotóxicos. Utilização, entretanto, que tem sido cada vez mais controlada, defendem especialistas e agricultores.

    “De uns dez anos para cá, o consumo aqui se estacionou e, em alguns casos, até diminuiu. Ainda é muito difícil cultivar sem o uso do agrotóxico. Mas controlar, através do agroquímico, a infestação de uma praga em descontrole é uma coisa. Agora você utilizar o produto para acabar com os insetos locais para que nenhum efeito possa existir sobre o alimento não tem o menor sentido. Houve um grande crescimento no que diz respeito a consciência do agricultor”, defende Selmo.

Opinião semelhante tem o presidente da Associação de Agricultores Familiares das Comunidades de Baixada de Salinas, Fazenda Campestre e Três Picos, Dirceu Silvestre Tardem. “Grande parte da produção utiliza produtos químicos, mas de forma controlada. Na verdade, atualmente a quantidade de agrotóxico utilizada diminuiu. Os agricultores tem priorizado produtos biológicos e que afetam menos o meio ambiente e a saúde”, afirma Dirceu, explicando que “a quantidade utilizada depende da incidência de pragas e doenças”.

Para o presidente da associação de agricultores familiares, o agrotóxico ainda é necessário para a sobrevivência das plantações. “Mesmo com a substituição por produtos mais naturais, o químico ainda é uma ferramenta importante para que os produtores consigam permanecer no campo e na produção de alimentos”, acredita.

Orgânicos e agroecológicos: as novas alternativas ao uso de químicos

Não dá para negar. Os orgânicos estão ganhando espaço nos mercados e feiras. Em Nova Friburgo, alguns produtores já aderiram ao movimento que busca cultivar os mais variados alimentos sem a utilização de agrotóxicos ou fertilizantes químicos. Uma das produções mais tradicionais da cidade é a do Sítio Cultivar. Localizada em Amparo, a propriedade do casal Jovelina Fonseca e Luiz Paulo tem seis hectares de plantio e é responsável por fornecer hortaliças naturais para Friburgo e arredores.

Mas ainda existe na cidade uma outra corrente alternativa ao uso de químicos: a agroecologia. Um grupo de produtores de grãos, hortaliças e frutas se uniu para fortalecer o setor criando, há cerca de dois anos, a Associação Agroecológica e de Agricultura Familiar de Lumiar e Arredores, a Alumiar. “A agroecologia é mais do que o cultivo em si. Envolve um modo de vida, de economia, de relações sociais. É uma filosofia de vida e de trabalho”, afirma a presidente da Alumiar, Clarice Donagemma.

“Esses cultivos não usam agrotóxicos ou adubação química. E eles tem mais respeito aos ciclos, a sazonalidade dos alimentos, a aptidão da terra. Funcionam tentando imitar a forma como a própria natureza age. Na floresta, ninguém planta, ninguém aduba, ninguém joga veneno e ela se forma exuberante e suporta muita vida. Então, quando se substitui as plantas da floresta por aquelas que são do nosso interesse, mas consegue imitar a estrutura da floresta, de crescimento, se consegue ter cultivos orgânicos com qualidade e quantidade comparável a cultivos químicos”, explica o biólogo, agricultor e diretor da entidade, Diogo Busnardo.

“Os agrotóxicos e fertilizantes sintéticos são substância químicas que quando ingeridas podem provocar reações alérgicas, alterações metabólicas, distúrbios hormonais, problemas neurológicos e até câncer. Quando o solo é fertilizado com adubos naturais, os alimentos se tornam mais nutritivos e saborosos. Do ponto de vista de responsabilidade social, a produção orgânica também ajuda os pequenos agricultores e a agricultura familiar. Além de contribuímos para a preservação da biodiversidade, conservação dos recursos naturais, qualidade da água, solo e ar”, defende a nutricionista Katerine Sorrentino Knust.

“Alimentos livres de químicos não é uma utopia. O mundo está se voltando cada vez mais para essa preocupação com o bem estar. A demanda pelo orgânico é muito grande e a oferta ainda é pequena”, também acredita Selmo Santos.

 

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