Por que o “Ouviram do Ipiranga” toca fundo o coração do povo

Quando o autor da letra nasceu, o compositor havia morrido cinco anos antes
quinta-feira, 12 de abril de 2018
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Foto de capa

A história do Hino Nacional do Brasil é recheada de fatos interessantes, mas pouco divulgados. Portanto, menos ainda conhecidos. Tradicionalmente, o que sabemos sobre o hino é referente aos autores da letra e da música. Como, por exemplo:

Sua letra, escrita por Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927) em 1909, completa 109 anos este ano. Já a música, de Francisco Manoel da Silva (1795-1865), foi composta em 1823, isto é, quase 200 anos antes. Portanto, não foi uma parceria, como muitos de nós pensamos. Seus autores sequer viveram na mesma época. Quando o autor da letra nasceu o compositor havia morrido cinco anos antes.

Criado em 1831, a composição teve diversas denominações antes do título, hoje, oficial. Foi chamado de Hino 7 de Abril (em razão da abdicação de D. Pedro I), de Marcha Triunfal e, por fim, Hino Nacional. Cem anos depois, em 1931, foi executado em comemoração ao centenário da abdicação de Dom Pedro I. Mas a letra da época, não durou muito, pois continha frases agressivas à colonização portuguesa.

Com o advento da Proclamação da República e por decisão de Deodoro da Fonseca, que governava de forma provisória o Brasil, foi promovido um grande concurso para a composição de outra versão do Hino. Trinta e seis candidatos se inscreveram, entre elas, Leopoldo Miguez, que venceu o concurso. Mas o povo não aceitou o novo hino, já que o de Francisco Manuel da Silva já era extremamente popular. Diante da comoção popular, Deodoro da Fonseca, para não contrariar Miguez, decidiu denominar a nova composição como Hino da Proclamação da República.

A partir de 2009, lei federal tornou o Hino Nacional obrigatório em escolas públicas e particulares de todo o país. Nova Friburgo teve a sua lei sancionada antes, em 2007. Nesta entrevista, a pedagoga Marcia Lobosco aborda a questão da relação dos estudantes com o hino:

Como se explica uma letra como a do nosso hino para uma criança?

A letra do Hino Nacional pode ser trabalhada desde as séries iniciais do Ensino Fundamental. Para tanto, é necessário trabalhar os versos separadamente, tirando-os da ordem sintática em que se apresentam e apresentando-os em ordem direta, o que facilita a compreensão. Além disso, identificar as palavras desconhecidas e buscar seus significados no dicionário é um bom recurso para entender a letra e ampliar repertório vocabular. Um estudo interdisciplinar também é importante: ler trechos das letras associando-os a acontecimentos históricos e a conhecimentos da geografia e da ciência contribui para o entendimento da letra do Hino tornando-o mais significativo. Ao mesmo tempo, adequadamente a cada faixa etária, é possível levantar questões que provoquem a reflexão crítica dos estudantes, relacionando passado e presente. Se bem orientadas e instigadas, as crianças são capazes de pensar.

É importante que os alunos saibam a origem do hino e como ele se tornou oficial?

Para turmas das séries finais do Ensino Fundamental, narrar as histórias sobre a origem do Hino pode ser boa oportunidade de se compreender os contextos sócio-políticos passados.

Por que o hino só foi oficializado em setembro de 1971, no governo do general Médici?

Na década de 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura militar. Educar sob esse regime significava ensinar sobre uma pátria que se queria mostrar, e não necessariamente sobre o que o país era. A ênfase nos símbolos pátrios como meio de demonstração de amor à pátria foi estimulada pelo governo e incluída em leis educacionais. A ideia de que respeitar esses símbolos é amar o próprio país foi disseminada em propagandas oficiais e tornou-se obrigatoriedade nas escolas, no hasteamento da bandeira e canto do Hino Nacional.

Com letra "ufanista" e música 'triunfante", apesar de longo e difícil de decorar, o Hino emociona. Por que?

No Brasil, o Hino emociona principalmente por causa do evento do futebol. De modo geral, esse esporte tornou-se um símbolo ufanista e as disputas futebolísticas visam à vitória triunfante - em geral, expressa em gritos e gestos exagerados.

Importante lembrar que a Copa do Mundo de 1970, eternamente lembrada pelos brasileiros, ocorreu em plena ditadura militar. Enquanto estudantes manifestantes continuavam a ser perseguidos, presos e mortos, bem como professores, sacerdotes de religiões diversas, intelectuais, artistas e pensadores, a população vibrava pelo futebol, emocionando-se ao cantar o Hino no início de cada disputa. Na realidade, trata-se de uma emoção construída culturalmente e, ao que me parece, não se relaciona propriamente com um sentimento patriótico, como temos a impressão ao vermos outras nações manifestando-se com seus símbolos pátrios.

Poesia? Ideologia? Utopia?

​Por Ricardo Lengruber:

"A música foi composta em 1831, mas só na República é que se abriu um concurso para oficializar a letra do Hino. Quem ganhou foi Leopoldo Miguez, mas havia uma recusa de segmentos da população em cantar a letra vencedora – "Liberdade, liberdade! Abre as asas sobre nós!"

Com essa confusão, o escritor Joaquim Osório Duque Estrada, integrante da Academia Brasileira de Letras, compôs a letra que conhecemos hoje. Nosso hino foi comprado, então, (isso mesmo: comprado!) por cinco contos de réis pelo então presidente Epitácio Pessoa. E se tornou oficial em 1922, no centenário da Independência.

A primeira observação com relação ao hino nacional é que suas palavras são muito diferentes das que usamos no dia a dia. Isso é verdade para hoje, mas era verdade também na época em que foi composto. Nosso hino tem palavras e expressões que o povo brasileiro desconhece.

Plácidas, brado retumbante, fúlgidos, vívido, impávido colosso, fulguras, florão, garrida, lábaro, flâmula, clava forte.

Há quem afirme que o hino, com letra influenciada pelo parnasianismo, é mais para impressionar do que para comunicar. Se assim o é, missão cumprida; com esse vocabulário, impressiona mesmo!

Mais sério, entretanto, é a forma como essa letra enxerga nossa história. Por exemplo, sobre a independência do país: “Ouviram do Ipiranga ... de um povo heróico o brado retumbante.”

Esse trecho dá a ideia de que nossa independência se deu por força do povo. Infelizmente, não é verdade: o grito de independência foi dado pelo filho do rei, que ficou no lugar do pai.

“E o sol da liberdade ... brilhou no céu da pátria nesse instante.”

A emancipação que ocorreu no Brasil serviu apenas aos “grandes” que se viram livres das amarras econômicas e políticas de Portugal. Aliás, o país pegou até empréstimo para indenizar Portugal pela independência. Não houve de fato liberdade para a população brasileira.

Outro trecho que merece destaque, sobre igualdade: “Se o penhor desta igualdade conseguimos conquistar com braço forte”.    A desigualdade no Brasil é profunda. Se hoje ela é tão presente, imagine no início do século XX, quando negros, indígenas, mulheres e analfabetos foram deixados à margem da primeira carta constituinte republicana. O hino faz crer no que não ocorreu jamais por aqui.

E sobre a justiça: “Mas, se ergues da justiça a clava forte”.

O Brasil já teve oito Constituintes e só foi conhecer a democracia – precariamente - na última, de 1988. Nossas leis não são aplicadas da mesma forma para todos as pessoas. São leis que geram interpretações dúbias, e que são criticadas por sua ineficiência, por sua morosidade e pela falta de imparcialidade.

Tudo isso, porém, poderia ser lido sob a ótica da utopia. Não se trata de uma memória do que ocorreu (porque não ocorreu assim), mas esperança do que se deseja para o país. Tomara seja isso mesmo. Tomara o hino consiga produzir um fôlego de mobilização para uma real transformação da sociedade.

Como ocorre com qualquer hino nacional pelo mundo, é nítida a intenção de engrandecer a pátria, mostrar sua força social, sua beleza natural e sua união patriótica. Todo hino é carregado de ideologia.

Infelizmente, não é isso que temos por aqui. O povo sempre foi muito desmobilizado. A natureza sempre foi explorada indiscriminadamente e há uma profunda falta de unidade em termos de cidadania. Há um abismo cada vez maior entre ricos e pobres, por exemplo.

Por isso, talvez, o hino tenha se tornado popular apenas nos jogos de futebol, por exemplo. É porque antes dos jogos nossa preocupação não é exatamente interpretar textos difíceis, tampouco problematizar nossa história tão controvertida.

E aí a gente entende melhor até aquele fatídico 7 x 1."

 

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