Para as visitas, café e um buquê de alface: o encanto das hortas urbanas

Saúde, economia, sustentabilidade, terapia: o que leva friburguenses a cultivarem verduras, temperos e até legumes no quintal
sábado, 07 de outubro de 2017
por Adriana Oliveira
Era uma vez uma gleba, ou uns vasos, algumas mudas, uma imensa vontade de cultivar e pronto. Todas as hortas começam assim: meio por curiosidade, meio por tentativa e erro, às vezes por teimosia de uma plantinha que brotou sem ninguém perceber.

“Uma horta ensina muito sobre isso: você vê ali, todos os dias, as mãos do Criador”

Juliana Dantas

“É um investimento na sua saúde física e mental. Devido ao contato com a terra, a beleza de cada detalhe da natureza, você fica atento ao movimento, aos ciclos, a toda a dinâmica do universo. Uma horta ensina muito sobre isso: você vê ali, todos os dias, as mãos do Criador”, emociona-se a psicóloga Juliana Dantas ao falar do seu canteiro de dez metros por dois no Stucky, onde, há quatro anos, vem colhendo brócolis, almeirão, couve, mostarda, vários tipos de alface, erva-doce, manjericão, babosa, coentro, cebolinha, salsa, jiló, capim limão, anis, salsa peixinho, agrião, pimentão...

A lista é infindável, sobretudo nos bairros e distritos mais distantes do centro de Nova Friburgo, onde não falta espaço e a existência de tantas lavouras, mais que inspiração, é quase uma obrigação. “Quase todas as verduras eu tenho ou já tive, pois de tempos em tempos a gente muda. Umas morrem, já outras dão super certo... Mas quase todos os dias a gente consegue tirar algo para comer. É só descer e pegar na horta”, orgulha-se.

Juliana, que conta com a ajuda de um jardineiro para cuidar da horta, só não abandonou a feira totalmente porque as plantas têm, cada uma, sua época. Além disso, a quantidade de bocas também regula o número de idas ao quintal.  “Às vezes, quando tem muita gente em casa, a horta não consegue suprir a demanda. Mas ela já fez diminuir muito as minhas compras de verduras”, diz ela, que se gaba de presentear as visitas com um buquê de alface.

O jardineiro cuida da horta de Juliana uma vez por semana. Durante a semana, a responsabilidade é dela. “Dá trabalho, mas é uma delícia. Tem que aguar todos os dias, acompanhar sempre. As hortas falam”.

Em Friburgo como em outras cidades, muitas hortas prosperam nos apertados espaços da área urbana. Moradora do Bairro Ypu, em frente ao Condomínio Serraville, Luciana Ligiéro aproveita cada centímetro quadrado para colorir de verde seu pequeno quintal. “Tenho um pouco de cada coisa: couve, taioba, almeirão, couve chinesa, aipim, cana de açúcar,  cebolinha, salsa, rúcula, agrião,  amora silvestre, maracujá, pimenta, manjericão… Estamos começando agora com brotos de alho, cebola, uva, maçã. É pouco espaço e muita vontade de ter coisa demais”, diverte-se.

A horta de Luciana também faz a felicidade de amigos e parentes, que, no lugar de livros e garrafas de vinho, uma vez sim, outra também, ganham lindas mudas de presente. “Amamos tudo o que é planta, e a horta nos ensina diariamente a respeitar o tempo das coisas. Nos ajuda a ter paciência e a controlar essa praga chamada ansiedade. Não temos técnicas,  só paixão e curiosidade. O restante o “Tio Google” ensina para a gente”, comenta.

Tamanho também não é documento para Claudia Correa, moradora do Cônego. Na hortinha de seis metros por um e meio, cultivada há cinco anos (foto acima), Claudia tem mudas de alcachofra, laranja-Bahia, alecrim, couve, coentro, cebolinha verde, tomilho, orégano, capim limão, manjericão e hortelã. Ela não deixou de fazer feira porque o que mais cultiva são temperos. Quando recebe amigos, também sempre doa algo da horta.

Na glebinha 100% orgânica não entram agrotóxicos. Claudia destaca o trabalho de viver podando, regando, ficar de olho nas pragas, usar adubo de qualidade. As hortaliças e leguminosas, lembra, têm época correta para plantar, colher, podar. “Ora temos cenoura, ora pepinos. Neste momento o orégano foi podado, o pepino e a cenoura acabaram. Mas o coentro está em fase de crescimento”, explica, como se falasse de filhos.

Apesar do trabalho que a horta dá, a dica dela é: tenha! “Ao cozinhar, nada melhor do que colher na hora tudo fresquinho”, justifica.

Outro belo exemplo de horta urbana vem de Tatiana Montechiari, que mora com os avós na Vila Amélia, pertinho da feira mais importante da cidade, o Mercado Central. A horta da família tem a mesma idade da casa: 32 anos. Ela conta que o avô, de 91 anos, cuida dos canteiros até hoje. “Ele já trocou itens da horta com feirantes”, orgulha-se. Também, pudera: o início de cada canteiro tem flores plantadas por interferência da avó, de 88.

No momento as  árvores frutíferas estão sem folhas. Nas palavras dela, “não fica tão bonito”. Mas a horta dos Montechiari é coalhada de temperos, ervas para chá, cana, milho, couve. Ali ninguém sabe o que é comprar caqui, lichia, cebolinha, alecrim. Alguns itens são sazonais e o  avô faz um rodízio para preservar o solo. Todo o resíduo orgânico da casa é aproveitado como adubo natural.

Sete razões para ter horta

No ranking das razões para manter uma horta em casa, mesmo em pequenos espaços, a campeã é relacionada à saúde. Afinal, quem não quer ter à disposição, a qualquer hora, alimentos frescos, com o carimbo de “procedência mais do que conhecida”?

Outra razão, óbvia, é a economia, não só de dinheiro como de um artigo cada vez mais precioso na vida moderna: o tempo. Além da redução dos gastos com feiras e dos  deslocamentos até hortifrutis, mudas e sementes costumam custar bem mais barato. Isto quando não são doadas.

O prazer de escolher umas folhinhas de manjericão para finalizar aquele prato italiano também conta, e muito.

O contato com a natureza, que ajuda a relaxar a mente e reduzir o estresse, pode ser uma excelente terapia, inclusive familiar, agregando casais, pais, filhos e irmãos que estariam tratando de outras atividades individualmente. Para crianças difíceis de entreter, pode ser um meio de desenvolver novos processos de aprendizagem.

O conceito de sustentabilidade, tão em voga, também pesa - ou melhor, alivia a responsabilidade de cada ser humano pela preservação do planeta. Cultivar alimentos em casa gera menos desperdícios, menos lixo, não polui solo e rios, é uma forma indireta de desestimular o desmatamento e, por tabela,  o aquecimento global. Sobretudo se aproveitar o lixo orgânico como adubo.

Sem falar que o clima de Nova Friburgo, com estações mais marcadas, é um convite extra ao cultivo. Não por acaso, a cidade tem hortos por toda parte.

 

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