Os 100 anos do saudoso Dom Clemente Isnard

Comemoração do centenário do primeiro bispo de Nova Friburgo foi celebrada no último fim de semana
quinta-feira, 13 de julho de 2017
por Guilherme Alt
Foto de capa
Dom Clemente Isnard (Foto: Arquivo AVS)

Grande e extraordinário homem, iluminado monge, discípulo de São Bento, notável bispo e ardoroso missionário da Igreja. Assim é descrito o saudoso Bispo Dom Clemente José Carlos de Gouvêa Isnard, pelo padre Luiz Cláudio, de Bom Jardim. Dom Clemente foi o primeiro bispo da Diocese de Nova Friburgo e ficou por mais de 30 anos na liderança dos católicos na região. Nascido no dia 8 de julho de 1917, teria completado no último sábado, 8, 100 anos.

O atual bispo de Nova Friburgo, Dom Edney Gouvêa Mattoso, convocou todos os párocos da Diocese de Friburgo, celebrou uma missa em memória a Dom Clemente e descerrou uma placa alusiva ao centenário na Catedral São João Batista. O presidente da Câmara de Vereadores de Nova Friburgo, Alexandre Cruz, fez uma moção especial de louvor e o abade Dom Justino fez uma leitura com o histórico da carreira eclesial e terminou sua fala convocando Dom Edney a solicitar aos monges o translado dos restos mortais de Dom Clemente para a Catedral São João Batista.

De acordo com Guillaume Isnard, primo distante de Dom Clemente, o desejo do saudoso bispo era ser sepultado em Nova Friburgo, mas perto de seu falecimento, pediu para ser sepultado no local de sua morte para não dar trabalho a ninguém. O bispo foi viver em Recife-PE, aos 90 anos, e passou a se dedicar à defesa do Movimento Litúrgico e do Concílio Vaticano. Dom Clemente faleceu no dia 24 de agosto de 2012, na capital pernambucana.

Segundo Guillaume, Dom Clemente era muito próximo dos pobres, uma pessoa humilde, companheira, conselheiro de muitas famílias. Percorreu todo o munícipio friburguense e sempre estava de portas abertas para ajudar a quem o procurava. “Algumas pessoas que estiveram muito próximas a Dom Clemente contam que após sua jornadas percorrendo os distritos da cidade ele dizia que nessas caminhadas tinha contato com os verdadeiros filhos de Deus”, lembra.

A família, junto com a comunidade eclesiástica e a Diocese, vai começar os trâmites para requisitar o translado dos restos mortais de Dom Clemente para Nova Friburgo. “Era um desejo dele ser sepultado na terra onde muito se dedicou na religiosidade. Vamos tentar realizá-lo”, confia Guillaume.

Artigo:

O centenário de um apóstolo

(Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça)

Quero ressaltar neste artigo o centenário de nascimento de Dom Clemente Isnard, celebrado neste 8 de julho de  2017. Primeiro bispo da Diocese de Nova Friburgo, que também foi ilustre membro de nossa Academia Friburguense de Letras, honrando-a com a sua brilhante intelectualidade, ocupando a cadeira de número 9, patronímica de Casimiro de Abreu.

Dom Clemente José Carlos Isnard: grande e extraordinário homem, iluminado monge, discípulo de São Bento, notável bispo e ardoroso missionário da Igreja. Fui o último padre ordenado por ele para a Diocese de Nova Friburgo, em 14 de agosto de 1993, em Macaé. Nasceu no dia 8 de julho de 1917, no Rio de Janeiro. Homem autêntico, suave e forte, como um verdadeiro apóstolo, determinado, com uma formação espiritual sólida, integradora da realização e salvação da pessoa com a libertação e promoção humana na luta pelo direito total. Teve, na sua educação cristã familiar, o exemplo de seus pais, Ernesto e Zulmira Isnard, sua tia, Ruth Leoni, esposa do poeta Raul de Leoni Ramos, da sua outra tia, Helena Isnard, que se tornou freira redentorista, fundadora e superiora do convento de Itu – SP, dentre outros.

Dom Clemente assimilou conhecimentos e valores no Centro de Estudos Superiores Católicos (D. Vital), presidido pelo dr. Alceu Amoroso Lima, seu amigo e incentivador vocacional; na Ação Universitária Católica, da qual participou ativamente em 1932, como jovem da Faculdade de Direito, no Rio de Janeiro, onde se bacharelou. Mas, a sua grande e decisiva influência mística, litúrgica, teológica e humana, que consolidou a sua vocação para a vida monástica. foi D. Martinho Michler, monge alemão, que, com sua visão de vanguarda, impulsionava e alimentava o movimento litúrgico no Brasil. D. Martinho se tornou o seu pai espiritual. Como monge se manteve sempre fiel ao espírito e a regra Beneditina. Fez a sua profissão solene em 11 de julho 1940, no dia de São Bento.  Assumiu vários cargos de gestão e formação. Foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1942. Nomeado bispo no período preparatório ao Concílio Vaticano II, pelo Santo Papa João XXIII, em 23 de abril de 1960, para a recém-criada Diocese de Nova Friburgo, pela bula pontifícia “Quandoquidem  Verbis”, de 26 de março  do mesmo ano.

Sua ordenação episcopal foi no dia 25 de julho, no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, presidida pelo núncio apostólico do Brasil, na época, Dom Armando Lombardi. Tomou posse no dia 7 de agosto.  Iniciava um fecundo ministério, no pastoreio episcopal de tantas ovelhas, espalhadas pelo imenso território de dez mil quilômetros, desmembrado das Dioceses de Niterói, Campos e Valença, e que se estenderia por 33 anos. Participou do Concílio Vaticano II (1962-1965), que renovou toda a vida pastoral da Igreja Católica Apostólica Romana. Dom Clemente viu e ouviu com alegria a visão teológica e eclesiológica da liturgia de Dom Martinho, do movimento litúrgico e de outros grandes teólogos no mundo inteiro ser confirmada, condensada, na Constituição Sacrosanctum  Concilium. Nomeado após o Concílio pelo Papa Paulo VI para o Conselho de Execução da Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium (1964-1969) e depois como membro da Congregação para o Culto Divino, órgão da Santa Sé responsável pela liturgia (1969-1975).

No Brasil foi presidente por 19 anos da Comissão Nacional de Liturgia da CNBB. Em todos os trabalhos refletia os seus profundos conhecimentos, vastíssima cultura e grande erudição, aliados à forte sensibilidade pastoral. Foi ainda vice-presidente da CNBB (1979-1982), presidente do Departamento de Liturgia e vice-presidente do Celam-Conselho Episcopal da América Latina (1983-1987).  Participou do Sínodo dos Bispos de 1967 e das Conferências Latino-Americanas de Puebla (1979) e Santo Domingo (1992). Delegado no Brasil para os Congressos Eucarísticos Internacionais. Membro do Conselho Nacional de Cultura, do Conselho Estadual de Educação, recebendo títulos de cidadania de vários municípios, inclusive de Cidadão Fluminense. Mas, o grande título, profundamente alinhado com o seu carisma de bispo beneditino, era “Pastor de Nova Friburgo”.  Não descuidava da diocese um só instante.

Organizou as diretrizes pastorais da Diocese, à luz do Concílio Vaticano II, trabalhando com os conselhos que foi criando e que teriam a função de elaborar o Plano de Atividades Pastorais. As primeiras diretrizes foram lançadas em 11 de fevereiro de 1969. Organizou ao todo 15 assembleias diocesanas a partir de então, para a definição das metas pastorais, sempre publicadas junto com os planos e divulgadas em toda a Diocese, criando uma unidade eclesial e fomentando uma pastoral de conjunto.

Todo esse trabalho culminou no Sínodo Diocesano que consolidou os Estatutos Sinodais. A Diocese ia evoluindo. Novas paróquias sendo criadas. O bispo zeloso conseguiu diversos auxílios de órgãos nacionais e internacionais para as necessidades socioeclesiais, dentre estes, A Adveniat, desde 1963, a Cáritas, a Misereor e o FAC – Fraterno Auxílio Cristão. Fundou logo a Cáritas Diocesana em 1960, com Maria Damasco Mouta e o pré-seminário vocacional em Lumiar.  A dificuldade de vocações sacerdotais era grande.  Até os 25 anos da Diocese, ordenara 14 padres. Ordenou mais uma dezena até a sua saída e deixou encaminhados vários seminaristas, ordenados depois. Dom Clemente foi uma grande voz dos mais fracos, dos sem voz, contra as injustiças e o duro e cruel regime da ditadura militar, defendendo os posseiros em Papucaia ou a vida de refugiados e perseguidos políticos, recebendo-os na casa episcopal e depois deslocando-os para Lumiar, com o apoio da professora local e grande colaboradora, Maria Mouta.

Tudo isso Dom Clemente fazia contra os critérios sombrios da chamada “Lei de Segurança Nacional”, que atropelava os direitos humanos, civis e sociopolíticos.  Assim também em Trajano de Moraes, Cantagalo, Quissamã, em diversos municípios da Diocese. O efeito de tanto bem plantado circula até hoje nas veias e na memória de um povo numerosíssimo, sempre capaz, na sua simplicidade santa, da belíssima virtude da gratidão. Deixou como obras de testemunho e ensinamento: Magistério Episcopal (1989); Dom Martinho (1999); Na Porta do Mosteiro (entrevista com Alexandre Gazé, 2004; Reflexões de um Bispo sobre as Instituições Eclesiásticas (2008); Viver a Liturgia (2008); A Experiência Ensina o Bispo (2009); Memórias que Anunciam o Futuro ( Póstuma -2012), além de inúmeros artigos em jornais e revistas eclesiásticas.

Faleceu aos 94 anos, em Recife, no dia 24 de agosto de 2011, terminando sua riquíssima jornada, deixando-nos um maravilhoso legado de sábia fortaleza, de humildade e formação eclesial, de luta pelos direitos humanos, promoção humana e justiça social, dedicação e organização da sua querida messe de Nova Friburgo iluminando tantas outras porções da Igreja no Brasil e no mundo, na sua firme e brilhante  vivência e preservação do Concílio Vaticano II. Fez sua Páscoa no dia do apóstolo São Bartolomeu, ele um digníssimo sucessor dos apóstolos que percorreu com o seu báculo todos os recantos da extensa e amada seara diocesana como caridoso e despojado guia, exemplo eterno de doação, sabedoria e amor pastoral.

Cumpriu plenamente o seu lema episcopal: "Te Pastorem Sequens" (Seguindo-te como Pastor). Seguiu a Cristo, sendo ao mesmo tempo n'Ele o Bom Pastor que deu sua vida pelas ovelhas. Fica o seu grande testemunho entre nós de um pastor, que amou os pobres e promoveu-os como filhos de Deus, nossos irmãos, de uma voz profética inequívoca e coerente que nos inspira. Sua importância é imensa, condensada na sua autêntica humildade e na sua evangélica simplicidade, ardoroso na Missão de Cristo que ele tanto amou e da qual foi servo até o último suspiro.

* Padre Luiz Cláudio Azevedo de Mendonça é assessor eclesiástico da Pastoral da Comunicação da Diocese de Nova Friburgo e membro da Academia Friburguense de Letras

 

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