O dia em que Papai Noel escreveu para mim

Troca de cartas na família, desde a infância, trazia notícias, abria sentimentos e apaziguava brigas
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
por Adriana Oliveira
Foto de capa
O baú de cartas da família Walter e Cassinha Breder (Arquivo pessoal)
Nova Friburgo, 17 de janeiro de 2018

"Brigas de família se dissipavam antes mesmos dos primeiros dois pontos do cabeçalho: “Querida filha:"
Queridos leitores!

São exatamente 16h13 quando resolvi escrever esta carta. Fiquei contente com a pauta e comecei a me recordar quando era pequena e escrevia cartinhas, muitas, para um senhor de verdade, chamado Papai Noel.

Todos os anos era a mesma coisa, o mesmo pedido: uma bicicleta que eu nunca ganhava. Morávamos numa ladeira (Bairro Suíço) e era muito perigoso andar de bicicleta por ali. Mas desconfio que, no fundo, o motivo real era outro, já que nossa família não tinha muitos recursos...

Pois certo ano, acordei no dia 25 de dezembro e corri ansiosa para a árvore de Natal. Mais uma vez, nada de bicicleta. Mas Papai Noel havia, havia sim, passado e deixado uma carta para mim. Na minha inocência de criança, mal podia acreditar! Nela, ele explicava suas razões de, mais uma vez, não ter podido realizar meu sonho de duas rodas com rodinhas auxiliares.

Num papel lindo, de seda, enrolado em forma de canudo e amarrado com fita, e caligrafia perfeita, ele contava que andava muito cansado. Que tinha passado a noite visitando casas com muitas crianças, algumas delas doentinhas, e que nem sempre conseguia atender a todas. E naquela noite faltou justamente uma bicicleta. Mas que, olhando e revirando lá no fundo da imensa sacola de presentes, encontrara um brinquedo que o fez se lembrar de mim. Era um carrinho de corrida que dava corda nas rodinhas (eu adorava carrinhos).

Imediatamente fui às lágrimas e morri de felicidade pelo brinquedo, pela carta, por ter sido correspondida.

A troca de cartas, aliás, marcou toda a minha infância e adolescência, nos anos 70 e 80. Adorava ler e reler aquelas folhas escritas à mão que meus irmãos mais velhos, já estudando no Rio, mandavam semanalmente para minha mãe, contando todas as novidades. Dizendo que chegaram bem. Que pegaram praia. Que ventou. Que viram dois moleques brigando em Copacabana.

Cartas de minha mãe para eles contando as notícias de cá, eles de lá. Depois, já mocinha, cartas de pretendentes abrindo sentimentos. Cartas de colegas de escola. Cartas do exterior. Cartas de mãe cheias de sábios conselhos. Brigas de família que se dissipavam antes mesmos dos primeiros dois pontos do cabeçalho: “Querida filha:”. Sobretudo quando lidas de longas distâncias, como era, na época, o Rio de Janeiro.

Que Deus lhes abençoe e proteja sempre. De sua

A VOZ DA SERRA.

P.S.: Meu irmão tinha uma caligrafia perfeita.

LEIA TAMBÉM A SABOROSA MEMÓRIA DE INFÂNCIA CONTADA PELO JORNALISTA ALERRANDRE BARROS

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