Nova Friburgo Country Clube: respire fundo, a história está no ar!

Um lugar que remonta ao século XIX e que continua despertando admiração e orgulho
quarta-feira, 19 de abril de 2017
por Ana Borges
Foto de capa
Fotos da matéria: Regina Lo Bianco (exceto onde indicado)

Ao contrário do que muitos acreditam, a casa de campo da família do Barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente Pinto, denominada Chácara do Chalet, não foi construída para servir de moradia, mas um espaço para acontecimentos sociais. No Casarão construído em 1860, em frente à Praça Getúlio Vargas, a família passava temporadas durante o verão, e no Chalet, realizava festas, bailes, concertos, quando a aristocracia carioca e membros da realeza se encontravam. A expressão máxima desses eventos era o imperador D. Pedro II e a esposa, a imperatriz Thereza Christina.

Portanto, há mais de 150 anos, numa extensa área de 3,87km², era criado um espaço destinado ao encontro de pessoas, à difusão de conhecimento, fazer história e disseminar arte. Esse futuro foi traçado, ainda que inconscientemente, na longínqua década de 1860, para ser o que ele é hoje — uma joia preciosa no coração do município: o Nova Friburgo Country Clube, fundado em 1957.    

Para o presidente do clube Roosevelt Concy, o Country não é apenas um clube social, esportivo, cultural. É um clube histórico, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como um dos espaços mais bem cuidados e preservados do país. Que não se restringe a oferecer aos seus sócios, piscina, sauna, quadras, salão de festas, entre outros atrativos comuns em clubes.

“Este é um clube-jardim, um clube-parque. Muito mais do que esses equipamentos de entretenimento e lazer o Country tem uma área de 200 mil metros² cuja vegetação faz parte de um conjunto paisagístico criado e elaborado por Glaziou (paisagista francês Auguste François Marie) com mais de 90 mil metros quadrados de ajardinamento. Isso nos obriga a manter suas características totalmente diferenciadas. Quem vem fazer suas caminhadas, não está só fugindo do barulho, da poluição, do tráfego, dos obstáculos típicos das ruas. Vem porque aqui, além do ar puro, se respira história. E foi a partir dessa constatação junto com nossos historiadores Vanessa Melnixenco e Luiz Fernando Folly, que decidimos o tema da campanha que queríamos desenvolver: ‘Respire fundo, a história está no ar’”, explicou Roosevelt.  

Criação do Country Clube e seus 50 fundadores

Para comemorar os 60 anos do clube no próximo dia 28 o Conselho Deliberativo programou o lançamento do primeiro de três livros já elaborados e escritos por Vanessa e Luiz Fernando. O primeiro é um Guia sobre tudo que compõe o Country, com a história da família Clemente Pinto e a construção do Parque São Clemente. Os seguintes tratam da família Guinle, proprietária do Parque a partir de 1913, a recuperação e restauração realizada por Eduardo Guinle, seguindo o plano original de Glaziou, com ampliação de jardins, alamedas e bens imóveis; e a fundação do Nova Friburgo Country Clube em 1957.     

Do livro “Chácara do Chalet - Pequena História de um Sonho”, lançado em 2010, uma bela obra de Luanda Nascimento de Oliveira, Luiz Fernando Folly e Vanessa Melnixenco, retiramos o seguinte trecho para contar o começo da história do clube:

“Nova Friburgo já possuía, na época, um excelente clube, o Clube de Xadrez, que proporcionava à sociedade local e aos turistas grandes momentos de lazer. Porém, em um encontro de amigos, grupo formado por pessoas de grande relevância na sociedade friburguense que se reuniam para conversar sobre política e outros assuntos, nasce a semente de dar origem a um novo clube que correspondesse ao avanço que a cidade vinha enfrentando. Antonio Roussoulières, homem muito dinâmico, toma a frente desta iniciativa e, segundo relatos nas revistas do Boletim Informativo do NFCC, alguns dias depois organizou a primeira reunião , que aconteceu em sua casa.

“Ao tomarem conhecimento das dificuldades enfrentadas por César Guinle em relação ao clube campestre para a Cidade Jardim Parque São Clemente, vislumbraram então a possibilidade para solucionar as duas questões; para o grupo de amigos, o sonho deixaria a imaginação para se fazer realidade; e César Guinle cumpriria esta exigência legal do loteamento. Foram várias reuniões entre os senhores Roussoulières e Guinle em busca de um acordo até chegarem a um denominador comum.

“O NFCC compraria a parte central do parque, correspondendo aos lotes V e VI com Chalet, jardins e benfeitorias, e faria uma sede esportiva, para uso dos sócios e também dos que tinham comprado uma fração do loteamento, que se tornariam, automaticamente, sócios do clube. Nestes termos, foi lavrada a escritura de promessa de compra e venda. Meses depois, em abril de 1957, estaria fundado legalmente o Nova Friburgo Country Clube, uma associação civil, de direito privado…”

Os fundadores

Alavrino Bessa, Álvaro de Almeida, Amadeu Laginestra, Amâncio Mário de Azevedo, Antônio Felipe Decacche, Antônio Roussoulières, Arnaldo Del Nero Bessa, Arthur Carlos Carvalho e Iniza Guimarães Lello, Benoni Félix Abdo, Carlos Alberto Braune, Carlos Alberto Jaccoud Marchon, Carlos Mastrângelo, César Guinle, Christiano Henrique Braune, Dante Laginestra, Elias Mussi, Esperidião Mussi, Feliciano Benedito da Costa, Francisco Mastrângelo, Hélio de Araújo Maia, Heráclito Lelis Leite, Idílio Corrêa Lyra, Idílio Soares Filho, Januário Caputo, Jerson de Paiva Karl, João Baptista Araújo Moreira, João Henrique Braune, Jorge El-Jaick, Jorginho Abicalil, José do Reddo Cid, José Eugênio Muller, José Gonçalves Bertão, José Júlio de Azevedo, José Wilson Pinheiro, Luiz Fernando Braune, Manoel Carneiro de Menezes, Max Georges Cleff, Narciso Moraes, Nicolau Antônio Noé, Oswald Carpenter Meyer, René Luiz de Shuler Muniz, Reynaldo Gonçalves Henriques, Roberto Abicalil, Ronaldo Duque Estrada Laginestra, Salomão  Tendler, Sérgio Roussoulières, Virgílio Laginestra, Walter Azevedo, Werner Kleiber, Zanon Zanoni da Costa.

Referência em todo o país

O grande ativo do Country Clube é a sua história, seus 155 anos, sua trajetória onde não faltaram obstáculos seguidos de superação. Seu quadro de sócios já alcançou o número de 1.800 pessoas, sendo 40% delas oriundas de Niterói e Rio de Janeiro, que divulgavam suas belezas e atraíam visitantes de várias partes do Brasil, fato que o tornou referência em todo o país, segundo Roosevelt. “Com certa frequência são realizadas aqui cerimônias de casamento entre outros tipos de eventos contratados por famílias de outras cidades e estados”.

Entre os planos da diretoria está a releitura dos 60 anos de existência do clube. “A palavra de ordem, desde que iniciamos a nossa gestão, há um ano e dois meses atrás, não se restringia à reforma do clube nas áreas edificadas e externas, mas, reformular o pensamento e a postura do sócio, em particular, e do cidadão, da população friburguense, em relação ao clube. É preciso reconhecer o esforço do quadro social no sentido do esforço despendido para a manutenção desse rico espaço, para que todos possam desfrutar, aprender, adquirir conhecimento e cultura através da história contida aqui”, defendeu Roosevelt.

O historiador Luiz Fernando Folly lembra que até 2010, as informações eram muito pontuais, o que dificultava a produção de uma literatura que contasse a história do clube de forma precisa e atraente. “Agora, em conversa com o Roosevelt, concluímos que já temos um material rico o suficiente para produzir uma tríade bem abrangente e esclarecedora sobre o Clube, desde os tempos de sua construção pelo Barão, do projeto de paisagismo de Glaziou, e tudo o mais. Este será um presente para os sócios e ao mesmo tempo uma maneira de despertá-los para a importância da manutenção desta joia que pertence a cada um de nós”, argumentou.

Para Vanessa Melnixenco, a produção dos três livros em comemoração aos 60 anos do Country vai servir para desfazer equívocos que muitas vezes são disseminados por pessoas que não conhecem a história do clube. “Tem muitas lendas e mitos que acabam sendo admitidas como verdadeiras, já que por aqui circulam visitantes pontuais, que mal conhecem a cidade. Essas novas publicações são bem esclarecedoras e trazem  informações muito bem avalizadas por pesquisas aprofundadas. A partir de agora, nossos sócios caminharão pelas alamedas, jardins e edificações conhecendo a importância do lugar, no que estão pisando, sobre a história que permeia todo esse ambiente”, finalizou a historiadora.

Um depoimento e dois “causos"
por Lucio Flavo

Durante os quatro anos que exerci as funções de Diretor da Confederação Brasileira de Desportos tive a oportunidade de conhecer os maiores clubes brasileiros das regiões Sul e Sudeste do país. Posso, por esta experiência, dizer que não encontrei nenhum que se ombreasse, em termos de beleza ao Nova Friburgo Country Clube. Clubes, por exemplo, como o Sogipa (RS) e Pinheiros (SP) são potências esportivas e sociais. Há os clubes de golfe que pela própria natureza daquele esporte são jardins adaptados aos jogos.

Que clube no Brasil possui jardins históricos? Você sabe se existe um que tenha cinco lagos e uma ilha? 

Este privilégio só os sócios do Country podem se vangloriar de tê-lo. É um dos cartões-postais da cidade e do próprio estado.

Louva-se a iniciativa dos 52 pioneiros que em 20 de abril de 1957 decidiram fundar um clube que hoje tanto nos orgulha.

Agradecemos também a todos aqueles — diretores e funcionários —  que durante estes 60 anos de existência com sacrifício e trabalho mantiveram o NFCC como um patrimônio de e para todos. 

Agora, instado a colaborar com esta matéria especial em homenagem aos 60 anos do Country Clube, foi-me solicitado narrar acontecimentos não históricos acontecidos e que fazem parte do arquivo da memória do clube. Como, graças à TV Luau e ao jornal A Voz da Serra, fui alçado à categoria de “causista”, relembro algumas passagens divertidas que aconteceram neste paraíso em forma de clube:

A kombi fatal
A conhecida máxima “a hora certa, no lugar certo” teve o seu anverso numa tarde de verão para um dos mais importantes e conhecidos nomes do quadro social do Country. Em beira-mar, costuma-se chamar de corrida de submarino o ato de namorar próximo às praias. Nas alamedas que circundam os lagos do clube poder-se-ia dizer que quem usava as margens do lago praticava o saudável esporte de “corrida de tilápias”.
Voltando à “hora errada, no lugar errado”, o nosso protagonista estava in love com sua namorada dentro de sua kombi quando naqueles movimentos normais de pernas pra lá braços pra cá, alguém esbarrou no freio de mão e o carro foi parar dentro do lago.
No desespero ele ligou para o melhor amigo, que além de prestativo não iria espalhar o acontecido para a turma (vã esperança a dele!) e pediu socorro:
- Você precisa me ajudar. Estou no Country e minha kombi “se atolou-se” – falou ao amigo pedindo ajuda.
- Ajudar, eu vou – respondeu o amigo – mas não maltrate o vernáculo. Não é “se atolou-se” e sim “se atolou”.
- “Se atolou-se” sim, porque foi com as 4 rodas!
Entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Sherlock luso
Esta foi no carnaval do Country lá no início dos anos 60 quando os bailes aconteciam no Chalé em um salão que não existe mais e que ficava sobre os jardins hoje recuperados, nos fundos do casarão.
Numa confusão havida durante o baile, destas que provocam corre-corre pra todo lado, alguém aproveitou o ensejo e roubou o aparelho telefônico da secretaria que naquele tempo era pesado, enorme e preto. Hoje, um aparelho daqueles é uma relíquia e serve até para decoração.
O roubo foi motivo de discussão na reunião seguinte da diretoria, já que o valor do aparelho era significativo.
Chama a polícia, faz-se um boletim de ocorrência, etc, discutiam os diretores quando um deles deu a solução sherlockiana:
“É muito fácil descobrir o ladrão, basta ligar para 9552 e esperar ele atender”.
E mais não disse e nem foi perguntado.

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  • O presidente Roosevelt Concy e a historiadora Vanessa Melnixenco na entrada do Nova Friburgo Country Clube (Foto: Henrique Pinheiro)

    O presidente Roosevelt Concy e a historiadora Vanessa Melnixenco na entrada do Nova Friburgo Country Clube (Foto: Henrique Pinheiro)

  • Melxinenco e Luiz Fernando Folly (Foto: Henrique Pinheiro)

    Melxinenco e Luiz Fernando Folly (Foto: Henrique Pinheiro)

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