Nos rincões da narrativa fantástica

Um depoimento de Diego Aguiar Vieira
sábado, 28 de janeiro de 2017
por Diego Aguiar Vieira
Foto de capa
Os quadrinhos de Diego apresentam um novo formato e uma nova proposta de leitura (Foto: Divulgação)

A vida de todo brasileiro nascido entre a década de 60 e 80, exposto às novelas de Dias Gomes e Benedito Ruy Barbosa, está contagiada pelo fantástico. Qualquer um que tenha passado certo tempo elocubrando a real identidade da Mulher de Branco, do Cadeirudo ou até eventuais lobisomens e vampiros de novelas como Tieta, Pedra Sobre Pedra, A Indomada e Pantanal, pode não saber disso, mas deve seu imaginário ao gênero do fantástico. Aliás, para se viver nos dias que correm, ou se crê no fantástico ou se está condenado à amarga realidade — de qualquer forma, acaba-se devorado.

Pois bem, eu escolhi devorar de volta. Porque escrevo. E não apenas estas linhas, mas também contos, emaranhados romances, infilmáveis roteiros e desmontáveis histórias em quadrinhos — em termos gerais, sou um “multímidia”. E a última é uma mídia que se confunde com as origens da arte. Há pesquisadores que dizem que os hieróglifos já seriam uma espécie de história em quadrinhos, outros defendem que elas são ainda mais antigas, presentes já nas pinturas em paredes de cavernas...

Bom, para mim, confundem-se com a minha própria existência. Não exatamente a minha vida, porque você, leitor, não comprou o jornal para saber as origens de um hipponga barbudo de Macuco. Mas se continuar a ler esse texto, é bom saber que teve um dia, lá para o fim da década de 80, em que de saco cheio da constante ladainha de “me-dá-um-gibi”, meu pai cedeu e me comprou uma revistona, com umas duas centenas de páginas, em que o Batman morria no final. Não entendi nada até alguns anos depois, quando aquela história ganhou nome e autor: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller.

Do colecionador ao escritor e roteirista

Foi nessa época, quando entendi o tesouro que tinha em mãos, que a coisa toda foi mudando de rumo. Comecei a colecionar quadrinhos, um tanto quanto compulsivamente, ao mesmo tempo em que ia lendo, vorazmente, (quase) tudo que me caía no colo. Acabei, prematuramente, desenvolvendo um gosto ferrenho por literatura distópica e violenta, como uma droga pesada, que passou a me exigir, cada vez mais, qualidade de tudo que eu ia lendo. Até que um dia, no Sebo do Jorge, eu encontrei um exemplar de V de Vingança, do britânico Alan Moore. A trama, extremamente política, inteligente, bem construída e narrada de forma ímpar, acabou comigo.

E assim, meu retorno aos quadrinhos se deu, de forma bastante inspirada pela obra do Moore, quando comecei a escrever as minhas próprias histórias. A primeira delas, chamada A Fera de Macuco, versava sobre o aparecimento real de um lobisomem na cidade onde cresci, lá pelos anos 70. Misto de histeria coletiva, especulação política e trollagem gerada por um morador local, o Cadito.

Apesar de parte dela ter sido desenhada, a história acabou não sendo lançada, mas serviu para me colocar em contato com aquele que considero meu grande mestre e padrinho no universo dos quadrinhos nacionais: Antonio Eder. Este curitibano gente boa, colecionador de pulgas e exímio desenhista, que nunca conheci pessoalmente, é já um parceiro de quase quinze anos, sempre disposto a topar minhas estranhas ideias, quando não, me convidando para roteirizar algo em que está trabalhando. Ao Antonio, sou grato até o fim do mundo e além.

Sem o esforço hercúleo do Eder, é quase certo que eu não teria avançado, nem como autor de quadrinhos, nem como escritor, um ofício no qual tenho me sentido cada vez mais seguro. Contudo, apesar da enorme influência dos super-heróis, não eram essas as histórias que eu queria contar, mas sim as do mundo real, coisas que ressoassem a realidade amarga em que vivemos, a descrição dos sentimentos instáveis que nos atravessam, nossos vícios e virtudes apresentados na forma de histórias agressivas.

Quando pensei a sério em escrever roteiros de histórias em quadrinhos, minha cabeça estava virada para o cinema alternativo americano, os quadrinhos nacionais impulsionados pela extinta Editora Nona Arte e, é claro, Alan Moore. Mas minhas narrativas também são influenciadas por Julio Cortázar, Aldous Huxley, Thomas Pynchon, Antonio Callado, Ignácio de Loyola Brandão, João Antonio e, no meio disso tudo, criadores contemporâneos, que tenho a honra de chamar de amigos, como o Márcio Massula Jr., Carlos Ferreira, Alex Mandarino e aquele que eu considero o grande escritor brasileiro vivo, Lucio Manfredi. Todos esses caras me ajudaram a me descobrir como contador de histórias, pós-moderno, regionalista, situacionista... Elementos de que não abro mão.

Enfim, a (auto)publicação

Minhas histórias sobre Macuco se correspondem, sem que para isso o leitor tenha de consultar uma enciclopédia a respeito de tudo que já escrevi ou, pior ainda, sobre a história da própria cidade. Ao optar pela autopublicação, verti forças também sobre a experimentação, transformando minha história em quadrinhos Pássaros Artificiais (com arte do onipresente Antonio Eder) num quebra-cabeças ergódico, onde é o leitor quem decide a ordem de leitura, ao mesmo tempo em que vai decifrando o cabedal de informações difusas que fomos soltando ao longo da HQ, dos textos que vêm nas partes de trás de cada página e na lauda datilografada, única em cada exemplar, que ajuda a formar uma pequena novela, exclusiva para os leitores e releitores dessa estranha e mutante obra.

E não para por aí. Eu escrevi e escrevo inúmeras outras histórias, para álbuns e pessoas que aprecio, seja uma comemoração do centenário de William Burroughs (outra grande influência), uma psicogeografia fotográfica da família do meu amigo Cristiano Botelho, um conto para um projeto secreto que vai dar o que falar (e que, além de contar com os nomes citados ali em cima, tem ainda o Rafael Luppi Monteiro e o Dell Freire), alguns romances e, essa outra coisinha, que você já pode baixar e ler, no site da Amazon, O Clube da Pena.

Ambientada em Nova Friburgo, retratando as agruras de uma escritora em crise, acompanhada de amigos frequentadores de uma antiga livraria, transformada em sebo, a série em doze capítulos começa nesse final (muito por conta desse artigo). O primeiro capítulo, gratuito, está disponível na Amazon, basta procurar pelo meu nome ou o título da história, que, convenhamos, é danado de bom.

Assim, com um jabá descarado (ó, uma prévia de O Clube da Pena ali embaixo), eu me despeço, dizendo que os quadrinhos mudaram a minha vida e também a dos meus amigos, que orgulhosamente apresento e entrevisto nas próximas páginas.

Prévia de O Clube da Pena:

Sol de meio-dia na cidade que faz as quatro estações em menos de vinte e quatro horas. Descer na rodoviária pra pegar outro ônibus pro centro é um porre, mas...

Mas já não vimos essa cena antes?

Ônibus chegam a todo momento. Milhares de pessoas entram e saem de ônibus todos os dias. E isso só em Friburgo. No resto do mundo, então...

Tá, eu sei. Mas tem necessidade de outra descrição da rodoviária?

Quem tá descrevendo a rodoviária? Alguém aí leu algo sobre vigas, telhados, paralelepípedos ou bancos quebrados que machucam a bunda?

Olha, só tô dizendo que não tem nem cinco páginas e já tá parecendo que a história tá começando de novo.

Mas não é nada disso. Ela tá avançando. E, sinceramente, você está atrapalhando. Sua amiga acabou de falar que não gosta de pós-modernidade e tá você aqui, de metalinguagem com...

Com quem?

Olha, será que dá pra história seguir? Precisamos voltar pra rodoviária pra ela se desenvolver.

Promete que é só dessa vez?

Quem promete o quê?

Ora... Vai, conta logo essa merda!

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