As memórias do balconista Zuenir Ventura

Jornalista relembra época em que trabalhou na Camisaria Friburgo, a loja mais antiga de Friburgo
sábado, 16 de dezembro de 2017
por Zuenir Ventura
Foto de capa
A Camisaria Friburgo no primeiro endereço, na esquina da Farinha Filho com a Praça Getúlio Vargas

Na minha mais recente viagem a Friburgo, para participar da Flinf, a bela Festa Literária organizada pela jornalista Maria Fernanda Macedo, esqueci em casa, no Rio, quatro camisas que levaria para os dias do evento. Como só descobri ao desarrumar a mala, a solução seria comprar pelo menos uma para a noite de minha palestra. Não foi difícil descobrir onde.

Claro que na centenária Camisaria Friburgo, a melhor desde o meu tempo, isto é, desde quando ali trabalhei como balconista, no fim dos anos 40.

O emprego me foi dado por Galdino El-Jaick, irmão de meu cunhado Betinho, para que eu pudesse ajudar a pagar as despesas de uma casa cujo chefe era um modesto pintor de paredes, do qual, aliás, eu fora ajudante não remunerado: meu pai, com muito orgulho, Seu Zezé Ventura.

Minha volta à Camisaria, acompanhado da prima Adriana Ventura, foi uma viagem sentimental à juventude. Cruzei a porta anunciando em voz alta: “Vim ver se há emprego para um balconista!”.

Quem me recebeu com um afetuoso abraço foi Helinho, o atual dono, que conheci pequeno. Um encontro emocionante (foto abaixo).

A loja agora está na rua Farinha Filho, 11, bem perto do endereço antigo, que era na Praça Getúlio Vargas, quase na esquina.

Como num filme de época, me revi em várias situações: abrindo a loja e varrendo a calçada de manhã bem cedo; tentando, meio sem jeito para o ofício, convencer uma freguesa que aquela era a camisa ideal para o seu marido; ou então, com a fita métrica, tirando as medidas do pescoço de um freguês (não era como hoje, que basta olhar para saber se é tamanho 2, 3 ou 4).

Nos dias de inverno, a imagem mais comum era a de alguma compradora se surpreendendo com minha camisa de mangas curtas: “Ô, menino, você não sente frio, não?” De fato, não sentia e me achava o máximo despertando aquelas reações.

Interrompi essas recordações com Helinho me perguntando a que “devia a honra da visita”. Expliquei, avisando que não queria uma camisa cara: eu tinha muitas em casa, só precisava de uma para aquela noite. Mas ele insistia em mostrar as que eu sabia serem as melhores, e sem querer dizer o preço. Até que resolvi aceitar a sugestão dele, mesmo sem saber o quanto iria desembolsar. Foi então que veio a surpresa: era um presente! Como diria minha neta Alice, de 8 anos, não é fofo o Helinho?

Essa experiência de uns dois anos não foi a única como comerciário. Antes, trabalhei na agência do Banco Barra do Piraí como office-boy - uma função que naquela época tinha o nome menos chique de “contínuo” - e no Bar Eldorado, mais conhecido como Bar Alemão, onde eu era faxineiro e entregador. Mas a Camisaria Friburgo significou uma promoção profissional ou, como se diz hoje, um “upgrade”.

Essa é a modesta homenagem que, como ex-comerciário, eu queria prestar à Acianf, a histórica Associação do Comércio de Nova Friburgo por ocasião de seu centenário.

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