As lojas que marcaram época no comércio friburguense

Spinelli, por exemplo, inaugurou conceito inovador de departamentos, vendendo desde material para construir até móveis e eletrodomésticos
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
por Ana Borges e Janaína Botelho
Foto de capa
Cliente experimenta rádios na loja Spinelli (Fotos: Acervo "Histórias e Memórias de Nova Friburgo")

Nos 100 anos da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Nova Friburgo (Acianf), completados exatamente neste sábado, o Caderno Z homenageia os pioneiros empreendedores que fincaram sementes de sólidos negócios em nossa terra.

São poucas as lojas centenárias, ou quase, ainda funcionando ininterruptamente, com a mesma qualidade no atendimento e atividade ao longo de décadas, como você verá nas páginas desta edição especial.

É o caso da Camisaria Friburgo, com seus 111 anos de fundação. Também em plena atividade está chegando quase aos 100 a Casa Libaneza, a segunda loja mais antiga da cidade, com 97 anos. Está lá no mesmo lugar, na Praça Getúlio Vargas, desde 1920.

Muitos estabelecimentos fecharam e deixaram saudades. Alguns pontos comerciais encerraram as atividades em épocas diferentes, como A Vantajosa, a Galeria Universal, A Bota Preta, a Casa Chaleira, entre outras. Algumas lojas, como a Tiroleza e a Loja das Canetas, resistiram bravamente à pressão dos novos tempos, às novas tecnologias e às mudanças profundas no perfil dos consumidores, mas também acabaram arriando suas portas recentemente.

Na concorrida Ariosto Bento de Melo, a Brilho Perfumaria está sob nova direção, depois de 30 anos, enquanto a tradicional Christine permanece, há mais de 40. Na avenida Alberto Braune, ao longo de cinco décadas, a Drogaria Globo continua sendo uma referência.

Nomes de tradicionais famílias também batizaram, e ainda batizam, alguns pontos comerciais: Amil, Mastrângelo, Vassalo, El-Jaick, Dieguez, Yunes, Miele, Spinelli…

Quem gosta de História aproveita para matar a curiosidade sobre tempos idos. Para os mais velhos, traz um momento de nostalgia sobre um tempo que não volta mais.

O comércio mais antigo ainda em atividade em Nova Friburgo é o da família El Jaick, localizado na Rua Farinha Filho, seguido de um armarinho na Praça Getúlio Vargas da família Nader, ambos descendentes de libaneses. Vale a pena trazer à memória algumas casas comerciais de meados do século 20, fazendo um tour pela Rua Alberto Braune.

Nesse período, os libaneses e os italianos ainda dominavam o comércio. Entre os primeiros, havia a Casa de José Ibrahim, o armarinho dos Aucar, a loja de eletrodomésticos de Elias Jabour, a Casa de José Nader, a loja de roupas de Elias Emílio Gandur, a Farmácia Mundial da família Stefan, a Casa do Barulho dos Gastim e a Casa Chaleira dos Bechara, que curiosamente nunca trocavam a vitrine.

Entre os italianos havia a Galeria Universal da família Lobianco, a Casa Bizzotto de material de construção, a loja de joias de Salvador Lomônaco, a Casa do Vitório Italiano, a Sapataria dos Mastrângelo, o armazém do João De Luca e a Casa Orlando. Os Caputo eram proprietários de diversas lojas. Porém, quem trará a grande novidade para o comércio de Nova Friburgo será a família Spinelli, com uma loja de departamentos que funcionava no térreo do atual edifício Spinelli, na Praça Getúlio Vargas.

Esse tipo de comércio vendia produtos variados, por setores, dentro do mesmo espaço físico, um conceito inovador introduzido por essa família de imigrantes italianos. Vendiam na loja de departamentos material de construção, móveis, automóveis, alimentos e tudo o que a modernidade oferecia à época, como os primeiros aparelhos de rádio, geladeiras e televisores.

Dizia-se que se alguém fosse se casar, os Spinelli forneciam tudo: construíam a casa, faziam os móveis, vendiam os eletrodomésticos, enfim, vendiam tudo ao casal. 

Ainda na Alberto Braune (foto acima) havia outras casas comerciais muito afreguesadas, como a loja de móveis de Salomão Tender, a Papelaria Simões, a Casa da Borracha, a Casa das Meias, a Casa Copacabana de roupas finas, a loja de ternos do Joel Epeboim, a Casa Dois Irmãos, a Sapataria do Povo, a Casa de Couros Mattos (foto abaixo), a Padaria Casa Branca, a Sapataria Salomão, a Casa de Ferragens Santo Antônio, o armazém dos Knust, a Casa Olga, a Bota Preta, a Casa Cláudia, o Espelho Friburguense, A Sombrinha Friburguense, a sapataria A Predileta, a Casa Ótica, a Farmácia Brasil, A Vencedora e a Loja Diegues.

Permanecem desse período a Drogaria Catedral, A Tiroleza, a Rio Roma e a Casa Franceza (foto mais abaixo). A Loja das Canetas foi fechada recentemente. Na loja dos Engert alugavam-se e vendiam-se bicicletas.

Comerciantes mal-humorados, porém generosos

Havia comerciantes curiosos como o Celestino, que vivia de mau humor. A coisa mais difícil era vê-lo sorrir. Era ele quem instalava rádios e televisores novos nas residências, além de consertá-los. Porém, quando alguém levava um desses aparelhos para consertar e ele perdia a paciência ao fazer o reparo, jogava o eletrodoméstico na calçada e dava um novo ao cliente.

Outro comportamento bizarro era de Alexandre Chine, o comerciante mais famoso que vendia de tudo em seu estabelecimento. No entanto, ele não abria todas as portas de sua loja, somente uma, e pela metade. Ninguém na cidade nunca entendeu o motivo.

Outro grande estabelecimento comercial era a Casa Folly de atacado e varejo que ficava na esquina da Rua Oliveira Botelho. Tinha como sócios Juvenal e Pirajara Folly e José dos Santos Sobrinho. Ali os produtores rurais paravam com as suas tropas de mulas e comercializavam suas mercadorias.

Ainda na Alberto Braune havia a Fábrica de Bebidas Íris, que produzia guaraná e licor de pêssego. O friburguense gostava de presentear visitantes de outras cidades com esse tradicional licor.

Com a curta longevidade dos atuais estabelecimentos comerciais, será muito difícil para as gerações futuras fazer uma reconstituição do comércio de um tempo passado. Mesmo sendo a Alberto Braune uma rua comercial, tinha ainda algumas lindas residências, como a de Júlio Zamith com plantações de rosas e a casa de Madame Santana.

Em meio a esses estabelecimentos comerciais havia uma arena de rinha de galo. Todo domingo, depois do almoço, os friburguenses amantes de rinha levavam seus galos para brigar e ali corria muito dinheiro. Era o tempo da compra anotada na caderneta, do fiado, dos ambulantes apregoando suas mercadorias e, notadamente, de outro tipo de comportamento.

José Aucar, descendente de libaneses, de família morigerada, nos conta que, com 10 anos de idade, já trabalhava no balcão. Ia à escola pela manhã, à tarde trabalhava no armarinho do pai e à noite fazia as tarefas escolares. Algo impensável para um filho de comerciante de classe média nos dias de hoje.

Muito mais se poderia escrever sobre a história do comércio em Nova Friburgo, sobretudo  quando completa o seu centenário. Perscrutar a sua história é entrar em abordagens instigantes como a ascensão social de descendentes de colonos suíços, na imigração de europeus e árabes para Nova Friburgo, na diáspora de semitas para o Brasil como fez o judeu romeno Moysés Segal, que fundou a Casa Franceza, da brilhante trajetória dos Spinelli, enfim, muitos outros aspectos que uma breve história do comércio não consegue dar conta.

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Na Friburgo de 100 anos atrás, comércio era voltado para os veranistas:

https://avozdaserra.com.br/noticias/na-friburgo-de-100-anos-atras-comercio-era-voltado-para-os-veranistas

Seu Mario, o point que já foi o mais famoso da cidade:

https://avozdaserra.com.br/noticias/seu-mario-o-point-que-foi-o-mais-famoso-da-cidade

As memórias do balconista Zuenir Ventura:

https://avozdaserra.com.br/noticias/memorias-do-balconista-zuenir-ventura

Tanajura: do papel ao pendrive, várias gerações de clientes:

https://avozdaserra.com.br/noticias/tanajura-do-papel-ao-pendrive-varias-geracoes-de-clientes

 

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