Justiça para Humberto El-Jaick 50 anos depois

Câmara dos Deputados devolve, nesta sexta-feira, à família de político friburguense diploma de mandato cassado durante a ditadura
sexta-feira, 06 de abril de 2018
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
Foto de capa

Cinquenta anos depois, a Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça de Direitos Humanos e Minorias, da Câmara dos Deputados, vai devolver à família do friburguense Humberto El-Jaick o diploma simbólico do seu mandato de deputado federal que foi cassado durante a ditadura militar. Organizado pelo gabinete do deputado federal Glauber Braga (Psol), a solenidade será realizada nesta sexta-feira, 6, conforme noticiou o Massimo, no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Nova Friburgo, a partir das 18h, e vai contar com a presença de dois filhos de Humberto, Romero e Rize. A 9ª Subseção da OAB fica na Praça Getúlio Vargas, 89, com acesso pela Rua Ernesto Brasílio.  

De acordo com o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDoc-FGV), Humberto El-Jaick (1922-1990) foi advogado, professor, jornalista e escritor, além de um dos fundadores e presidente do PSB na década de 1940. Ingressou no PTB 20 anos depois, legenda pela qual candidatou-se a deputado federal, mas não foi eleito. Perseguido pelo regime militar instaurado em março de 1964, foi preso por dois meses, período em que escreveu uma carta a sua esposa Zeir Maria El-Jaick que foi publicada em A VOZ DA SERRA em de abril daquele ano. A censura ainda não havia atingido a imprensa.

O documento histórico demonstra o clima tenso pelo qual passava Friburgo, em meio aos denuncismos que derrubaram até o então prefeito Vanor Moreira, acusado de comunismo, e levou à prisão aqueles que se manifestavam contra o regime militar. Leia a carta abaixo.

Liberto pelo regime, Humberto foi chamado a assumir, como suplente, uma cadeira na Câmara dos Deputados, de agosto de 1964 a janeiro de 1965. Com a extinção dos partidos políticos pelo Ato Institucional nº 2 e a instauração do bipartidarismo, filiou-se ao MDB, partido de oposição ao regime militar, e voltou a ocupar uma cadeira na Câmara em junho de 1966.

Ainda segundo o CPDoc, após os períodos em que atuou como parlamentar, Humberto pretendia candidatar-se à reeleição em 1966, mas seu nome foi impugnado pela Justiça Eleitoral, atendendo a um processo que partiu da Procuradoria da República, segundo o Jornal do Brasil, por recomendação do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI). Ele ainda teve os direitos políticos cassados por dez anos.

Com o fim do bipartidarismo e a anistia aos políticos cassados pelo regime militar, em 1979, atuou na fundação do novo PTB e, posteriormente, da criação do PDT, legenda pela qual candidatou-se, sem êxito, a Prefeitura de Nova Friburgo em 1982. Durante a década de 1980, foi presidente da extinta Companhia de Eletricidade do Estado do Rio de Janeiro (Cerj) e da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja). Foi ainda presidente do conselho fiscal da Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro. Também presidiu a Academia Friburguense de Letras (AFL). Faleceu em Nova Friburgo, no dia 3 de julho de 1990.

Carta na prisão

“Polícia Militar. Niterói, 18 de abril de 1964.

Minha querida esposa. Lamento o sofrimento que meus inimigos gratuitos estão causando a você e a nossos idolatrados filhos com a injustiça da minha prisão. Se o pensamento revolucionário está consubstanciado nesta frase do atual presidente, sou também um revolucionário, estou no caminho certo, não tenho por que temer nem me penitenciar. Sabe você, sabem nossos filhos e nossos amigos, sabem nossos leais adversários que o meu procedimento político outro não tem sido senão o de lutar democraticamente pela Humanização do homem e pelo desenvolvimento de nossa estremecida Pátria. Sabem todos, e mais que todos Deus é testemunha, que sempre repeli com a mesma veemência todas as formas de extremismo. E se repilo os extremismos é porque sempre coloquei acima de todos os bens humanos o que me parece supremo e inviolável: a LIBERDADE. Não sei ainda porque estou preso. Minha consciência está tranquila. Minha vida, meu passado e meu presente responderão por mim. O povo de Friburgo que me julgue. Quem tiver alguma prova capaz de me condenar na presente conjuntura, que a apresente às autoridades antes do meu julgamento. É um repto de honra que lanço desta prisão ao povo da minha terra. A despeito das calúnias, das infâmias, das intrigas, de tudo, ainda creio na justiça dos homens. O sofrimento purifica os nossos sentimentos. A injustiça nos torna mais justos e chego mesmo a pensar que todos os homens deveriam sofrer injustiças para aprenderem a ser justos. Aos que me acusam levianamente, as despeitados, aos covardes e aos corruptos que não trepidaram em me afastar de você, dos nossos filhos, dos meus amigos e dos meus alunos, respondo com a minha comiseração pois hão de sentir indignos deles mesmos. Não lhes guardo nenhum ódio nem desejo de vingança. (...) Minha querida esposa ainda não me refis de todo do impacto da injustiça sofrida. Posso, no entanto, concatenar minhas idéias e fazer um retrospecto de todas as minhas atividades políticas. Confesso a você que se for condenado pelos crimes de que posso ser acusado, prefiro a condenação porque ainda entendo que é melhor morrer com honra do que viver sem dignidade. Minha vida, toda Friburgo é testemunha, tem sido em favor da educação da infância e das juventudes pobres. Por elas, e aí é que imploro seu perdão e dos nossos filhos, tenho sacrificado o bem estar material de vocês. Nunca lhes pude dar o conforto que merecem, mas jamais um de vocês reclamou o meu procedimento em favor dos mais necessitados. Antes, pelo contrário, Você Minha Querida Esposa tem sido o dínamo que me impulsiona nas horas de abatimento e de decepção. Contrária à minha participação na política, mesmo assim, você nunca me deixou sozinho em todos os momentos da minha vida. Beije duas vezes os nossos filhos, por mim e por você. Diga-lhes que qualquer que seja o meu sacrifício em favor deles é pouco pelo muito que os adoro. Lamento ainda uma vez o sofrimento que lhes estou causando. Lamento mas não peço perdão. Perdão é para os que erram. Estou convencido de plena consciência que todas as minhas atitudes têm sido em benefício da Família Brasileira e de nossa inigualável Pátria. (...) estarei mais firme do que nunca para prosseguir na luta pela consolidação de um regime democrático autêntico que possibilite a todos, ricos e pobres, uma vida digna e humana alicerçada nos insuperáveis e imperecíveis ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha.

Abraços e beijos. Humberto.”

 

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